Depois do Fim

Minha avó vivia dizendo dês tá isso dês tá aquilo, e apenas depois de consumido longo tempo fui entender, pela via do let it be, que o que ela queria dizer era deixe estar. Minha avó era uma figura de valor inestimável, e se é verdadeira a teoria que ensina que as pessoas e os espíritos evoluem com o passar do tempo, fico cismado em crer que minha avó desbloqueou as engrenagens do tempo, nascendo com séculos de antecedência.

Devem ter sido robustos os esforços que empenhou para, na qualidade de depositária fiel de um tesouro, guardá-lo e protegê-lo. Abrigou sob condições minimamente adequadas um quadro meio opaco, de tintas e cores simplistas, durante quase cem anos de vida, e que fora, segundo o mito familiar, herdado por ela de uma família para quem dedicou os melhores anos de sua vida. As confabulações faziam todos vagarem num ambiente de penumbra, daquele tipo que obriga o expedicionário a tatear mais sombra do que matéria, meio assim como quem pisa em falso num mistério.

Para mim, os relatos soavam naturais, vez que as criaturas excessivas para o bem só se deixam quedar por minúcias de alto relevo — e tal era o caso da diva anciã ao encerrar para si o enigma.

Nos meus delírios, eu quase posso vislumbrar como se portaria a primeira dona do futuro mistério, uma mulher negra e mais grave do que negra, mestiça. Obviamente iletrada no interior de um Pernambuco ocupado por estrangeiros portando bandeiras alaranjadas.

Imagino-a ter solenemente ignorado a invasão porque também já tivera sua terra invadida por outros europeus de língua menos óssea. Ela mesma já conformada em se enxergar como produto exótico da invasão; desse prisma, a nova ocupação equivalia a deflorar uma virgem que não se sacia com um único amante e nem dele se opõe, daí a não se importar com a violência, daí a ignorar até a batida em retirada dos invasores.

Segundo consta nos diários e nas fofocas, meia dúzia de pessoas juram terem visto a tela a olho nu em ocasiões especiais. Uma delas foi a comemoração pela procissão de Nossa Senhora da Conceição, santa padroeira da cidade de Sirinhaém. Dessa festividade me lembro bem pelo comercial da Casas José Araújo: “Senhora da Conceição/minha mãe, minha rainha/dai-me a vossa proteção, minha querida madrinha/ela senta-se no morro pra pagar sua promessa/vou vestir azul e branco/pra pagar eu tenho pressa”.

Consta nos relatórios menos confiáveis dali que o próprio Conde Maurício de Nassau pernoitou na cidade, envolto por sua comitiva militar, lá por mil seiscentos e guaraná com rolha… Estaria acompanhando o Conde alemão, além de pensadores e cozinheiros, arquitetos e prostitutas, um então jovem e inexperiente retratista de paisagens, que deve ter sido incumbido da ilustre missão por ter parentes influentes na Companhia das Índias, ou quiçá uma mãe que acumulava favores na Corte Holandesa, ou por fastio de gente melhor qualificada.

As campanhas pela dominação que tinham como objetivo subjugar a Bahia suspeito que deveriam já estar indo a pique; indo a pique porque, aparentemente, apesar do doce e abundante açúcar da região e da farta oferta para trabalho negreiro, aos neerlandeses não devia fazer muito sentido trocar a boa fortuna de sua Amsterdã próspera onde, já modernos capitalistas, negociavam ações futuras baseadas na colheita de tulipas, onde já tinha nascido um Erasmo, onde vivia ninguém menos do que um Descartes, onde um Rembrandt circulava disfarçado de mortal.

Como trocar toda essa imodesta coleção de triunfos, verdadeiro ninho de esplendor, pelas pontas das peixeiras nordestinas, àquele tempo já afiadas ao esmeril da cólera? Pelo menos na superfície não parecia ser assim tão excelente negócio. Eis a suspeita para que os holandeses tenham levantado acampamento e abandonado terras tão férteis às hostes portuguesas e lhes deixado o desafio de domar nativos tão notadamente insalubres.

A tela da minha avó abrigava em seus míseros centímetros uma paisagem banal dos idos dos anos 1630, tempo em que o Brasil vivia a expectativa de ser fatiado em postas holandesas e espanholas na imensa e continental torta abocanhada pelos portugueses. Uns garantiam que o quadro representava a paisagem exuberante de uma cachoeira borbulhante e esbranquiçada pelo choque das águas contra as pedras que recepcionavam sua queda; outros divergiam no tema e na narrativa, pois garantiam ter visto uma capela com figuras de campesinos e coqueiros, e os segundos e terceiros planos invadidos por turbulentos, porém coesos e matemáticos, fragmentos de luz, oriundos de uma fonte inesgotável, inquietantemente tropical, o céu de cobalto. Mas eu desconfiava desse detalhamento de estilo: nenhum leigo nascido e criado na periferia de uma periferia, sem acesso a livros quaisquer, é capaz de flanar em termos forçadamente poéticos e toscamente técnicos sobre uma pintura barroca.


Este é um trecho do livro “Depois do Fim”, escrito por Alex Bezerra de Menezes. Se você gostou, pode adquiri-lo clicando em: http://www.livrariacultura.com.br/p/depois-do-fim-46283964