Eva se matou com um tiro

Por Andy Nowicki

Durante todo o dia de ontem, só se falou da professora de biologia que estava desaparecida.

A diretora convocou uma reunião com os professores no meio do expediente. Disse-nos vagamente que a Dra. Eva Mesmer estava desaparecida há várias horas. Acrescentou que tanto ela — a diretora — quanto o Sr. Mesmer, seu marido e um destacado advogado local, haviam recebido da Dra. Mesmer um email que sugeria que ela poderia estar em perigo físico. Ninguém sabia o que pensar de tudo isto. Mais tarde, o próprio Calvin Mesmer, em seu terno e gravata de advogado, veio à escola para falar com o corpo docente do Colégio Santo Tomás de Aquino.

Eis aqui o homem que tinha vindo em auxílio ao bispo, poupando centenas de milhares de dólares à paróquia ao ameaçar expor certas coisas sobre as duas supostas vítimas de abusos por um padre, se elas não fossem mais razoáveis em suas exigências por indenizações. Eis aqui também o homem (mas só eu sabia disto) que havia persuadido a mulher a abortar o próprio filho, um ato pelo qual ela nunca se perdoou. E, finalmente, eis aqui o Homem Muito Importante em quem eu havia posto um par de chifres. Era um certo orgulho aquilo que eu sentia, misturado com vergonha? Às vezes eu ficava simplesmente abismado com o tamanho da minha depravação.

Ao olhar para Calvin Mesmer e saber que sua mulher estava morta, saber que só eu sabia que ela estava morta, que só eu sabia onde seu corpo estava e que só eu sabia do significado da localização do seu corpo — saber estas coisas era desconcertante, embora, devo confessar, Dr. H, não fosse totalmente desagradável. Sempre me senti (de modo um tanto pomposo, suponho) um homem à parte dos outros. Agora eu sabia como era, em certo sentido, ser como Deus, ter segredos que, por minhas próprias e inescrutáveis razões, decidi não revelar. Sabia agora como era fazer os outros se resignarem a um mistério quando tudo o que queriam eram respostas. Além do mais, fui eu que coloquei a inconcebível cadeia de acontecimentos em marcha. Sem minha intervenção ativa, era improvável que alguma dessas coisas tivesse acontecido. Se eu não tivesse escrito meu tratado pornográfico, se Eva não o tivesse encontrado, se ela não tivesse estranhamente se identificado com aquilo, se não tivéssemos ido em frente como fomos e nossa transgressão compartilhada não a tivesse “encorajado” a meter uma bala na cabeça, Eva muito provavelmente ainda estaria viva.

É por isso que digo que eu a matei, Dra. H. De certo modo — de um modo muito real — eu a matei, mesmo que não de modo legal.

Ela me beijou no rosto antes de sair do carro naquela última vez. Nós raramente nos beijávamos, mesmo em nossos momentos mais carnais. A área enfatizada estava, então, abaixo da cintura. Era uma fuga mútua para “pequenas mortes”. Mas esse beijo foi o prelúdio para sua fuga de verdade, seu mergulho pra valer na morte. Quando se escolhe morrer, deve-se mergulhar com valentia e mergulhar significa abrir caminho com a metade de cima, não de baixo. O cérebro por sobre o baixo-ventre. Autoconrole… garbo… calma.

Refleti sobre o fato de que Eva tinha se matado com um tiro. Isso é raro entre as mulheres que se suicidam. Ela não foi nenhuma recatada e tímida flor em seus momentos finais. Ela foi tão cabeça dura e ambiciosa quanto havia sido a vida inteira. Sentado ali, vendo seu marido falar, fui invadido por um sentimento muito diferente da piedade que tinha sentido por ela antes. Agora sentia em mim uma grande onda de admiração por Eva. Eu não tinha nenhum direito de sentir pena dela — eu, e não ela, era o objeto adequado de pena. Ela foi mais homem do que eu jamais teria esperança de ser.

Descomposto por uma convicção secreta tanto de superioridade quanto de inferioridade — sentindo-me, como eu me sentia, tanto semelhante a Deus, em causar e ocultar a morte de Eva, quanto, entretanto, indigno da grandeza e glória intrínsecas aos detalhes de sua morte — , recompus a vista no viúvo, que ainda não sabia ter assumido este melancólico título. Era a primeira vez na vida que eu via Calvin Mesmer. A princípio, não vi nenhum traço da pessoa pomposa, pretensiosa, egocêntrica e impiedosa da qual tanto tinha ouvido falar, embora a partir de uma fonte profundamente enviesada. Aquele homem devia estar em algum lugar por baixo da pele, mas naquele instante o exterior só trazia tristeza, ansiedade e medo. A aparência abatida do homem era suficiente para despertar compaixão.

Mesmer nos disse que ele e Eva estavam tendo alguns problemas ultimamente e que nos últimos meses ela estivera particularmente fria e pouco comunicativa. Revelou que em seu último email, que ele havia lido no próprio escritório naquela manhã (o mesmo email que também fora enviado à diretora, antes de ser encaminhado a mim, um último detalhe do qual só eu tinha conhecimento), ela havia escrito coisas que o fizeram recear por sua segurança pessoal. Sua voz tremeu um pouco quando mencionou este último detalhe e os colegas professores de sua mulher se remexeram nas cadeiras e fizeram uma expressão de desconforto. A diretora — uma senhora forte e de cabelo curto que raramente sorria, mas que segundo os rumores era uma esquerdista pós-Vaticano II de alguma variedade — aproveitou este momento para pôr a mão no ombro de Mesmer e o advogado voltou novamente a si, tirando o ombro e rejeitando a oferta de apoio espiritual com alguma irritação.

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Encorajado pelo calor do momento, Mesmer falou de novo, com mais firmeza, bem alto, destacando as palavras, num tom que mal disfarçava uma raiva ameaçadora:

“Se algum de vocês — qualquer pessoa! — tiver alguma ideia — de onde minha esposa possa estar — alguma ideia se ela está bem — eu peço que por favor — me — diga!”

Ele passou a vista pela sala, olhando todos nos olhos, um de cada vez. Ele estava nos interrogando, durão, como faria com uma testemunha hostil no tribunal? Quando ele me olhou, olhei de volta impassível. Não desviei os olhos. Não sei se foi prudente, mas não senti medo dele naquele momento. Eu havia transcendido com sucesso o medo e o horror. Nunca me senti mais tomado pelo fatalismo. O que aconteceu aconteceu, pensei comigo na hora; o que tiver de vir virá.


Este é um trecho do livro “Perdidos e Violentos”, escrito pelo norte-americano Andy Nowicki. Gostou do que leu? Então clique no coração abaixo, para nos ajudar a espalhar nossos textos, e na imagem acima, para adquirir seu exemplar com desconto!