Feminismo consiste em dar poder às mulheres de esquerda

Por Phyllis Schlafly

Nota do editor: este é um trecho do livro O Outro Lado do Feminismo, que pode ser adquirido neste link: www.bit.ly/FeminismoMercadoLivre


Há dois grupos de feministas: as feministas extremistas e as feministas de elite. As feministas extremistas orgulhosamente referem a si mesmas de feministas e se rotulam de “terceira onda”, a fim de distinguirem-se entre suas mães baby boomers, que são chamadas de feministas da “segunda onda”. Essas feministas extremistas são mulheres na casa dos vinte e trinta anos como a Jessica Valenti, que falam sem parar sobre a erradicação do sexismo. A senhora Valenti lança várias vezes a palavra “misoginia” (ódio às mulheres) e está sempre dizendo às americanas que elas são oprimidas: “Agimos como se o ódio dirigido às mulheres fosse algo que pudesse ser tratado com uma conversa dura e severa, como se a misoginia embutida na nossa cultura fosse uma criança rebelde em vez de opressão sistemática”.

Outras feministas extremistas são mulheres como as autoras/ativistas Jennifer Baumgardner e Amy Richards. Apesar dessas mulheres terem um grupo de adeptas, seus valores nunca serão aceitos pelas americanas comuns, pois elas exageram demais na visão de esquerda. Por exemplo, Richards, que mora em Manhattan, escreveu um artigo em 2004 para o New York Times falando sobre sua descoberta em estar grávida de trigêmeos (sem o uso de medicamentos para fertilidade). Sem ser casada (e satisfeita, já que Richards cresceu sem pai e insiste em dizer que não sente falta de algo que nunca teve), Richards ficou grávida do namorado de longa data, Peter.

Quando foram a uma consulta com o obstetra para fazer um ultrassom e Richards descobriu que estava grávida de trigêmeos, ela se virou para o médico e perguntou: “Será que é possível se livrar de um deles? Ou dois?” Richards relatou com ousadia o episódio num artigo do New York Times e descreveu sua reação à gravidez.

Quando fiquei sabendo dos trigêmeos, a sensação foi: agora vou ter que me mudar para Staten Island. Nunca mais vou poder sair de casa já que vou ter que cuidar dessas crianças. Vou ter que começar a fazer compras no Costco e comprar potes gigantes de maionese. Até mesmo nos momentos em que pensei ter os três filhos, no fundo acho que jamais levei isso em consideração.

Richards pode ser uma anomalia até mesmo para as feministas, mas nenhuma esquerdista que se preze lhe negaria o “direito” de fazer aborto ou a redução seletiva mesmo que encarado de forma tão egoísta e ultrajante. É fato consumado que a mulher grávida agora pode “considerar” se quer ou não trazer um bebê para esse mundo. No entanto, pró-escolha ou não, a maioria das americanas expressa choque com a atitude e comportamento de mulheres como Richards. É por isso que as feministas extremistas não são o problema.

É com o outro grupo que precisamos nos preocupar.

A ELITE FEMINISTA

“Algo especial acontece quando se reúne um grupo de mulheres poderosas em uma sala… e fecha-se a porta.” Assim começa o livro publicado em 2010, Secrets of Powerful Women, uma coleção de ensaios feitos por mulheres esquerdistas, muitas das quais são políticas. O livro compartilha histórias de mulheres de sucesso e incentiva as jovens a seguir suas ambições profissionais. O livro afirma representar ambas filosofias políticas, mas tal coisa não existe. Dentre mais de vinte mulheres, somente uma minoria é republicana e não somente qualquer republicana, e sim feministas republicanas.

O direito da mulher de ser dona do próprio corpo é totalmente fundamental para o nosso sucesso como civilização. Os regimes mais opressivos do mundo miram naqueles que libertam as mulheres dos grilhões da ignorância ou servidão. O que inclui a “servidão” reprodutiva, e paralelos podem ser traçados em nosso próprio país, escreveu Susan Bevan, co-presidente da Republican Majority for Choice.

As americanas de hoje sabem que a mídia é, por via de regra, liberal, se não abertamente esquerdista. (Para colocar o viés midiático em perspectiva, durante o ano eleitoral de 2008, 1,160 funcionários das três principais redes de comunicação — ABC, NBC e CBS— contribuíram com mais de um milhão de dólares para os candidatos democratas. Em contrapartida, apenas 193 funcionários contribuíram com um total de US$ 142.863 para os candidatos republicanos.) Mas quando pensamos na mídia, muitas vezes pensamos só em televisão e rádio. Outro braço do viés liberal é o setor editorial, que conta com livros como Secrets of Powerful Women, tanto quanto dezenas de revistas femininas que são uma parte significante da instituição liberal. Myrna Blyth, ex-editora da Ladies’ Home Journal, desmascarou suas ex-colegas no livro Spin Sisters: How the Women of the Media Sell Unhappiness and Liberalism to the Women of America. Ela escreveu: “As revistas femininas, um setor de quase US$ 7 bilhões por ano, se baseiam em contar para as mulheres que suas vidas são muito duras e que elas deveriam sentir pena de si mesmas. Essa visão distorcida da vida é totalmente maluca”.

A esta altura, muitos compreendem que existe uma guerra cultural na América entre pessoas de direita que querem preservar as tradições do país e as pessoas de esquerda que querem mudar a América, mas o viés feminista no geral não é reconhecido como uma parte essencial do viés midiático. No entanto, uma parcela significativa da política de esquerda nos Estados Unidos é do sexo feminino, e elas convenceram os americanos que as mulheres são vítimas de uma sociedade patriarcal injusta e que devem esperar que o governo repare as injustiças.

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Para ter uma ideia de quanto impregnante está o viés feminista, avalie este comentário feito pelo autor campeão de vendas e ex-jornalista da cbs, Bernard Goldberg: “Conheço alguns dos principais produtores homens que preferem caminhar descalços sobre cacos de vidro e beber desentupidor de ralo a ter que enfrentar a patroa em casa depois de aprovar matéria sobre os exageros do feminismo”.

Além de influenciar produtores de mídia, a elite feminista tem outra vantagem: os humanos são suscetíveis ao complexo de vítima. Já que é bem mais fácil fazer acusações que aceitar críticas, para as feministas não é difícil unir forças. Após a Suzanne escrever em seu blog um artigo depreciativo sobre o argumento do secretário de educação Arne Duncan de que as escolas nos Estados Unidos deveriam ficar abertas “quatorze horas por dia, sete dias por semana, onze a doze meses por ano”, um homem comentou que permitir que as mães deixem os filhos na escola o tempo todo seria uma boa ideia, já que isso as libertariam. Ele escreveu: “Sua querida ‘família americana’ vai bem, se é que um dia isso realmente existiu. Talvez para você valha a pena manter as mulheres reprimidas, assim elas podem se sentir presas a casamentos sem amor, gerando descendentes do marido, mas eu concordo que gente seja autorizada a ser gente”. É evidente que esse leitor enxerga as mulheres como vítimas da instituição familiar.

De fato, as feministas têm manipulado a natureza humana em seu proveito: elas sabem que é fácil as pessoas sucumbirem à vitimização. E é por essa razão que se você pedir a uma feminista para definir o feminismo, ela lhe dará a resposta clássica e fictícia: “Feminismo consiste nos direitos iguais para as mulheres”. Essa definição benigna, mas muito errada, dá às pessoas a impressão de que o feminismo é algo bom. Afinal de contas, quem é que não acredita em direitos iguais? Mas o feminismo não consiste em direitos iguais de jeito nenhum.

Feminismo consiste em dar poder às mulheres de esquerda.

É por isso que você raramente ouve as mulheres na mídia vangloriarem mulheres bem-sucedidas como a Condoleezza Rice. Não importa quanto rica ou importante ou inteligente ou privilegiada uma mulher possa ser, as feministas ensinam que o sucesso está além do alcance dela, pois o machismo institucional a oprime. E quando uma mulher conquista o sucesso tanto como mãe, quanto esposa e profissional, as feministas se sentem diretamente ameaçadas, pois isso prova que a maternidade não é opressiva.

Quando Hillary Clinton perdeu a indicação de candidatura à presidência pelo Partido Democrata para o Barack Obama, as feministas protestaram contra a injustiça daquilo. A Gloria Steinem deu sua opinião à CNN dizendo que “é claro que existe um forte machismo”. Ela lamentou que Hilary não tinha como quebrar a “barreira à ascensão”, pois “ainda existem preconceitos e obstáculos por aí”, e se queixou que as mulheres acham “difícil ser competente, bem-sucedida e aceita”. Pelo contrário, mulheres não são malvistas por serem competentes e bem-sucedidas. Elas são malvistas quando choramingam por serem oprimidas, porque grande parte dos americanos sabe que isso é falso.

O que separa as feministas de elite das feministas extremistas é que as feministas de elite não referem a si mesmas como feministas. Essas mulheres são jogadoras políticas astutas. Ao evitar o termo, elas fazem a agenda feminista parecer convencional. Algumas dessas mulheres expressam abertamente suas opiniões (sem citar o palavrão que começa com a letra F), outras atuam nos bastidores para reunir forças às suas causas de esquerda. Elas “se reúnem com o comitê de revisão para dar subsídio federais umas as outras a fim de analisar assuntos que somente interessam a elas mesmas. Cada nova lei que elas criam carrega centenas de milhões de dólares para despesa de clientelismo feminista”, escreveu a jornalista e autora Kate O’Beirne no Women Who Make the World Worse. Elas também lutam contra subsídios para pesquisadores que possam descobrir informações que as feministas não querem que as pessoas saibam.

O que as feministas de elite fazem é insidioso; é por isso que elas são mais perigosas que as feministas extremistas, que pelo menos são honestas com o que elas defendem. Por outro lado, as feministas de elite são furtivas — e vivem em tamanha bolha que acreditam honestamente que o que elas pensam é o que qualquer ser humano racional pensaria.

Esse é o motivo principal do viés midiático liberal. Como Bernard Goldberg explica em seu livro de 2001, Parcialidade, o viés liberal não equivale a um bando de liberais à toa conspirando como eles distorcerão os fatos e mentirão para os americanos, o que seria fácil identificar. O viés midiático é enganoso. Refere-se à arrogância dos jornalistas e a maneira sutil como eles manipulam as notícias. Essa turma não distorce os fatos de propósito; eles realmente acreditam que todos pensam da mesma forma que eles. Eles não conseguem entender que existe uma perspectiva alternativa na qual se pode enxergar um assunto, sobretudo se tratando de mulheres. E é por esse motivo que eles vão atacar o livro que você está lendo agora. “A maioria dos jornalistas com quem conversei vivem em tamanha bruma que nem sequer consideram a Organização Nacional das Mulheres como um grupo liberal de interesse especial”, escreveu Goldberg.

Quem são as feministas de elite? Elas são professoras, advogadas, jornalistas, escritoras, juízas, atrizes, burocratas, psicólogas e ativistas — e contam com muitos nomes conhecidos: Maria Shriver, Katie Couric, Marlo Thomas, Whoopi Goldberg, Joy Behar, Hillary Clinton, Nancy Pelosi, Michelle Obama, Ruth Bader Ginsburg, Arianna Huffington, Gloria Steinem, Susan Sarandon, Patricia Ireland, Martha Burk (protesto fracassado sobre o Torneio Masters de Golfe), Susan Faludi, Barbara Walters, Meredith Vieira, Diane Sawyer, Kate Michelman, Eleanor Smeal, Maureen Dowd, Naomi Wolf, Eve Ensler (do infame Monólogos da Vagina), Susan Douglas, Linda Hirshman, Carol Evans e também a Oprah. Além de quase todas as mulheres de Hollywood e do mundo acadêmico.

A influência é o que essas mulheres têm em comum, e elas acreditam que sabem o que é melhor para as mulheres. Infelizmente, toda a sua visão de mundo (sobre homens, sexo, trabalho, casamento, maternidade e política) é alimentada pelo dogma feminista. (Como Gloria Steinem reiterou em um discurso de abertura da terceira conferência anual da Woman and Power: “Tínhamos slogans maravilhosos, como: estamos nos tornando os homens que queremos nos casar”.) Já que a elite feminista pensa que sabe tudo, elas são cruéis com qualquer um que pensar de forma diferente. O Secrets of Powerful Women contém apenas feministas como exemplos reais de empreendedoras e conta tudo o que você precisa saber sobre o viés da elite feminista.

Bill O’Reilly está certo: existe uma guerra cultural nos Estados Unidos, mas não é apenas entre conservadores e liberais (ou, nas palavras dele, tradicionalistas e progressistas). Essa guerra também existe entre as mulheres conservadoras e as mulheres liberais. Professor de Política da Universidade de Virgínia, Steven Rhoads escreveu em seu livro Taking Sex Differences Seriously: “As mulheres estão divididas entre uma maioria que é tradicionalmente feminina e outras que são mais parecidas com os homens”. As mulheres que são “mais parecidas com os homens” são feministas — elas têm desejado a vida dos homens desde o começo.

O problema é que a maioria das mulheres nos Estados Unidos não tem poder — as feministas têm. E as feministas influenciam tanto liberais quanto conservadores para obedecerem à mensagem feminista. A melhor definição do feminismo foi apresentada recentemente pelo Feministing de Jessica Valenti no Washington Post: “O feminismo é uma análise estrutural de um mundo que oprime as mulheres, uma ideologia baseada na ideia de que o patriarcado existe e precisa acabar”.

Embora essa visão negativa das mulheres e de seu papel na sociedade não seja identificada pela maioria das mulheres americanas (a maioria das mulheres na América não se sente oprimida), a elite feminista continua a promover sua agenda pessoal, em vez da agenda do povo americano. É por isso que é fundamental que os americanos percebam que as feministas são a força motriz por trás de grande parte da mudança deste país, e elas têm o Barack Obama como um amigo poderoso. A menos que os conservadores percebam e desmascarem as esquerdistas pelo que são — e pelo o que estão fazendo — é provável que as esquerdistas consigam o que desejam.

E o que elas querem, conforme uma nova pesquisa confirma, não torna as mulheres felizes.


PHYLLIS SCHLAFLY foi a ativista conservadora mais influente dos Estados Unidos, fundadora do think tank Eagle Forum e autora de obras como A Choice Not an Echo e Feminist Fantasies, que venderam milhões de cópias e influenciaram gerações de políticos e comentadores. Foi a principal líder do movimento que derrubou o Equal Rights Amendtment (ERA), década de 70.