Interrogatório

Mãos manchadas de sangue ressecado batiam suas unhas compridas sobre a mesa de madeira em uma sala escura da delegacia. O descaso do suspeito algemado de rosto ensanguentado contrastava com o enorme sorriso vermelho pintado em sua face maquiada de palhaço.

Trajando um paletó xadrez acastanhado sobre roupas mal cortadas, pelo menos dois números maiores que seu corpo escanelado e baixo, o acusado deixava pesar na cabeça um chapéu de couro vaqueiro nordestino, personalizado com uma estrela feita em jornal na parte da frente, para se assemelhar ao de um cangaceiro. Nas apresentações itinerantes que fazia pelas pequenas cidades, era conhecido como Cangaço.

De pé, do outro lado da mesa, estava o investigador Moreira, de olhar incisivo sobre o acusado. A fumaça dos vários cigarros tragados naquela mesma madrugada anuviavam o recinto fechado. O suor escorria da cabeça grisalha de cabelos emplastrados para o lado, cortando seu rosto barbeado até pingar pelo queixo.

— Estou com cara de quem veio aqui pra ouvir piada, palhaço? — resmungou com sua voz rouca pelos anos de tabaco.

— Se fosse, eu ia ter que cobrar — desdenhou. — Coisa que não faço é ficar trabalhando de graça. Ainda mais a essa hora.

— Quer dizer que o “artista” acha que eu vou acreditar que molecada de mais de vinte anos na cara, que alugou uma casa no meio do mato, chamou um palhaço pra alegrar a noite?

— Se tu soubesse como é bom farrear com palhaço… — zombou.

Um murro repentino na mesa expôs a impaciência do investigador, cansado dos jogos do interrogado.

— Para de graça, palhaço — alertou, sem levantar o tom da voz. — Eu não vim aqui pra rir. Te peguei saindo da casa com cara de culpado.

Seguido do silêncio, uma expressão inquieta perturbou o semblante de Cangaço. Ele arregalou os olhos, quase convencendo Moreira de que estava realmente angustiado, mas não conteve o deboche e sua fisionomia séria foi derrotada pelo exagero.

— Gostou? Essa era a minha cara de preocupado — expôs um sorriso irônico. — Tenho outras. Vê se tu adivinha.

Abusando de um humor quase burlesco, ergueu as mãos próximas ao rosto e abriu a boca com a língua para fora, enquanto tremia numa atuação intencionalmente sofrível.

— Deu pra ver que essa era de medo? Tentei não exagerar, mas a minha vertente é mais cômica — divertia-se com a própria zombaria. — Agora eu tenho outra que tu vai gostar muito. Essa daqui — cerrou os olhos e fez bico, colocando as mãos algemadas sobre a mesa com olhar de desdém -, é a de “estou pouco me lixando”.

Moreira, contrariado, buscava nos trejeitos do acusado alguma maneira de quebrar seus gracejos atrevidos.

— Eu sei que você está escondendo o jogo, palhaço.

— “Estou pouco me lixando”.

— Os moleques não gargalharam da tua apresentação e tu resolveu fazer merda! Foi isso que aconteceu.

— Foi, é?

— Teu número não agradou a rapaziada e tu ficou injuriado. Partiu pra ignorância e a noite acabou em carnificina — debruçou-se sobre a mesa, pondo-o em xeque. — Confessa, palhaço!

— Sou palhaço, mas não sou burro! Acha que eu não sei que se tu tivesse prova já não teria me jogado na porra dessa jaula? — rebateu exaltado à intimidação. — Se tu quiser ficar bancando o policial valentão a noite toda, me traz pelo menos a porra de um hambúrguer, caralho!

Desarmado de sua ameaça, Moreira não fraquejou diante da negação do palhaço com olhar de soberba.

— Eu vou descobrir o que você estava fazendo naquela casa.

— Eu já te disse o que eu estava fazendo.

“Alegrando a festa”… — parafraseou com desprezo o sentido do discurso falso entoado durante todo o interrogatório. — Você vai me contar o que sabe, palhaço. Nem que eu perca a madrugada.

Por mais intensa que fosse a promessa de Moreira, sua bravata não pareceu incomodar Cangaço.

Irredutível, o palhaço de rua exibiu com cinismo um sorriso imperturbado, provando ao investigador que se conseguir atravessar seu atoleiro de mentiras, teria de possuir muita paciência.


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