Não se pode falar em humilhação onde não há público

Nota do editor: este é um trecho do romance “Depois do Fim”, escrito por Alex Bezerra de Menezes, que já está disponível nas melhores livrarias e pode ser encomendado neste link: http://amzn.to/2a7adoQ


Chegamos numa comitiva a São José da Coroa Grande para inventariar o tamanho do estrago. Encontrei o Timo sentado num tamborete entre cabisbaixo e desconsolado, o olhar fixo na parede de pau-a-pique; já não me recebeu com o abraço do costume. Que é isso, Timo? Não se avexe não. Tira essa carranca do rosto e me dê um abraço de irmão. Ele veio a contragosto, deu-me um abraço evasivo e mole, como o cadarço que afrouxa antes da caminhada. Meu sinhô, eu tô aqui, eu só sou pago aqui pra mó de cuidar dessas coisas, desses livro, desses papel, mas eu não pude ter com eles não, sinhô. Não te machucaram, Timo, é o que importa. Mas, meu sinhô, isso é o que me dói, preferia ter apanhado dos cabra da peste, ter levado um pisa boa, mas a minha dor, o meu sofrimento é porque eu não tava aqui para proteger nada não!

Timo foi atraído por um rabo com bastante saia para apreciar um forró na cidade. Largou por três dias e três noites os cuidados do sítio para se embriagar nas coxas duma caiçara que conheceu sabe-se lá em que circunstâncias. Eu tinha ouvido da boca da minha avó que o homem era eunuco, mas na certa devia ser alguma chalaça dela. Ou deve tê-lo confundido com algum pajem de um sultão árabe, ou propagou o boato para afastar as merendeiras dos engenhos próximos, loucas a furtar aquele tipão de homem do seu seio materno.

Quem sabe observar com o mínimo de critério a solidão da culpa entende a condição humana. Timo andava pelas redondezas da família havia eterno tempo. Nunca, jamais, furtou um vintém físico ou metafísico ou apareceu suposição de tal feito; era um admirável cumpridor de ordens e talvez nisso residisse seu maior defeito. Enquanto o via ali, entregue ao lamento e carcomido pela culpa, fui atropelado por uma impressão pertinente à feitura do seu breve relato. Mas quem lhe é a vida toda fiel não pode ser execrado e jogado no limbo por um descuido, como costuma fazer a terrível balança das relações humanas. Timo era um homenzarrão desengonçado, que andava como quem pretende se desviar do vento, extremamente distante de ser atraente. Sua ocupação e vida eram a horta de açafrão e os cálculos entre as nuvens da noite e suas estrelas para conceber, por uma espécie de mandinga, que é a ciência do coração, uma infalível previsão do tempo, invariavelmente certa. Como fora atraído para uma dança um homem que mal sabia andar era um curioso exercício de charada.

Alex autografa seu romance

Chegada a noitinha, sentamos no quintal, iluminados ambos por uma fogueira cujos estampidos da lenha úmida só faziam aumentar os sintomas e a qualidade do silêncio, até ali aderente à quietude das coisas.

Diga-nos, sim, somos todos amigos seus, amigos de alta conta e igual confiança. Diga-nos onde guarda o quadro do Frans Post. Ouvir essa interrogação do Lorenzo produziu, além dos olhares minuciosos em torno da chama, certo desconforto. Eu jamais comentei com alguém sobre “um local” onde pudesse estar o quadro: Eu não guardo o quadro. Guardo uma pista que leva a outra pista e confesso que esse ciclo vicioso tem me cansado e aborrecido. Todos sabem que você sabe onde está a relíquia, atentou Liela, enquanto atiçava o fogo que ameaçava extinguir-se e desiluminar a noite e a nós. Sinceramente, não sei por que não revela, acaba logo com essa coisa. Em verdade, senhoras e senhor, eu não possuo a mais remota informação de onde possa estar esse objeto do desejo, se de fato existe. Vocês não sabem, mas a minha avó era dona duma fantasia soberba. Os vizinhos diziam que ela era mestre em cultuar folclores, desde que tinha uma parente que era amante do imperador e que, por pouco, seu sangue não teve influência nos destinos da monarquia e, por extensão, do Brasil. Por ter lido muito e ser apaixonada pela história da aventura holandesa aqui em Pernambuco, não é impossível que tenha forjado tudo isso. A fantasia açoitava a minha avó de todos os modos possíveis e imagináveis. O que pensar de uma pessoa que assistia dezenas de vezes aos mesmos filmes de western italianos e norte-americanos? — Não vejo nisso uma gota sequer de extravagância, salientou Ariane. Eu também sou vidrada em rever e rever os filmes da minha vida, e agora com esses videocassetes de quatro cabeças, a imagem é um estouro! — Ok. Mas minha avó não tinha o menor interesse pela trama, pela ação. Diferente de mim e de você, ela não sentia emoção por cena nenhuma. — Quê?! — Você é capaz de se fixar nos figurantes dos filmes, é capaz de identificá-los todos? “Esse carcereiro de Papillon que ajuda o Steve McQueen é o mesmo cidadão que serve a quentinha, olha ali o lóbulo da orelha como dança e se derrama até quase o ombro dele!” Num dos filmes, ela fez questão de me provar que o padeiro assassinado por engano numa fita do Fellini era o mesmo homem que dera fuga ao assassino, então vertido em motorista de táxi, e olhem que o taxista estava de barba e quepe, protegia os olhos com uns óculos grossíssimos, ao passo que o padeiro tinha a cara lisa como o mármore!, e todos riram desse excesso, dessa fixação autista pelo detalhe.

— Essa sua avó era uma bruxa de Salem!

Em suma, meus diletos ouvintes, continuei eu, todas as pessoas que entrevistei sempre disseram que ela só deixava entrever o quadro por uma fresta, pela janela basculante. Enfim, minha avó era cheia de nove horas, como dizemos por aqui. Lorenzo sorriu porque o provérbio o fez retornar à adolescência nordestina, mas enrijeceu a cara ao insinuar que estávamos então perdendo tempo quando poderíamos estar bebendo Rum Montilla, ou curtindo uma praia em Tamandaré, ou o coquetel de praia e rum juntos.

Seu Mofarrej, esse Tinhorão, é uma figura e tanto. Parece que esconde algo além da festinha convenientemente arranjada. Ariane destilou isso enquanto, cerrando os olhos, acendia um cigarro Marlboro, cigarro de macho. Na infância, pouca gente da minha patota escapou do delírio de fazer dos maços de cigarros vazios notas de valor. Dobradas feito cédulas de dinheiro, faziam a alegria da fantasia, e é verdadeiro que, entre os usuários daquela singular moeda, compravam-se com elas bolas de capotão, bonecas para presentear e depois encoxar as irmãs dos amigos. Surgiu de alguma banda a lenda de que, se juntasse três mil selos dos maços, a pessoa ganhava uma cadeira de rodas, sem que jamais víssemos um posto de troca ou um cadeirante premiado. A unidade monetária delas era divertida e curiosa. As de Hollywood, muito comuns e populares, valiam à razão de centavos; em qualquer latrina se achavam delas, e era perigoso resgatá-la desses cofres; muitas eram usadas como papel mais ou menos higiênico. As embalagens de Vila Rica, de Plaza e Continental, idem na cotação do dia. Carlton e Minister valiam um pouco mais; no caso do segundo, não sei se pelo preço de face ou se pelo nome vistoso que sugeria autoridade numa época em que autoridade e autoritarismo eram irmãos siameses. Mas quem aparecesse na roda com uma embalagem dourada de um Hilton, de um Charm ou, glória suprema, de um Benson & Hedges, era eleito rei, podia até exigir fazer troca-troca se isentando da troca.

Por que compreende que o Timo falseou o depoimento a mim? Bah, gente que fala olhando o ombro da gente… Meu olho fica abaixo da testa; não sei o teu. Enquanto voávamos de São Paulo a Pernambuco, Liela deu a ficha completa da amiga. Nada que a desabonasse profundamente, apenas alguns comentários simplórios, simplórios se ditos de uma mulher para um homem, mas mortais se ditos de uma mulher para uma mulher. Mulheres se ofendem com certas carícias porque sabem que certas carícias escondem um espinho no revestimento da pelúcia: esse dom não foi dado ao sexo oposto. Parecia evidente que o ressentimento a consumia, isso porque o namorado ganhou do papai abonado um Kadett GSi e, a bordo dele, passou o rodo em meio mundo de gente na cidade de Alegrete, sem distinção ou censura entre saia e calça, e parece que só escapou o vigário, cuja má fama o precedia, porque demoliram a paróquia. Notório era que desvirginou a filha adolescente do prefeito, que nada pôde fazer contra o garanhão de quatro rodas porque havia grossa suspeita de que a primeira dama da cidade também teria sido levada na enxurrada daquela tempestade degenerada movida à gasolina. E para certos casos, melhor preservar o cargo do que a honra, mesmo porque carros e alcaides saem de moda, mas a vergonha pública parece que acompanha o sujeito no além-túmulo. Não se pode falar em humilhação onde não há público.


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Alex Bezerra de Menezes