Os paradoxos de Laerte

Nota do editor: este é um trecho do livro “Liberdade ou Morte”, escrito por Luciano Ayan, que pode ser adquirido com desconto neste link: http://bit.ly/LivroAyan


O cartunista Laerte, que em tese deveria ser um dos defensores mais vigorosos da liberdade de expressão, deu uma entrevista ao Diário do Centro do Mundo,[i] na qual praticou incansavelmente o cambalacho tradicional de adicionar o “mas” após a sentença “liberdade de expressão”, além de, lamentavelmente, pedir censura de mídia.

Até em maior escala em relação ao que aconteceu com os demais formadores de opinião vistos até agora, os discursos de Laerte caíram na categoria OANI (Objeto Argumentativo Não Identificado). São todos realmente dignos de vergonha alheia. Para piorar, o Diário do Centro do Mundo é um blog governista. Isto é, ele se complica até mesmo com a companheirada.

O show de surrealismo começa após ele receber a seguinte questão: “O Charlie Hebdo está levando a culpa pela tragédia? Faz sentido?”. Resposta:

Cartunistas fazem parte do universo de jornalistas de opinião, especialmente aqueles que se dedicam à charge e à sátira política. Não acho que vá acontecer uma pressão inédita sobre os autores e autoras de sátiras. Nem acho que uma possível pressão desse tipo conseguiria obter mudanças sensíveis no grau de liberdade com que esse trabalho é feito hoje.
Sua pergunta usa o termo “culpa”. É uma palavra de alta picância neste momento. Charlie Hebdo é uma das revistas mais importantes do mundo em sua área e influenciou milhares de pessoas em sua história. Inclusive eu. Acho que a linguagem do humor, necessariamente agressiva, de nenhum modo é neutra, porque sempre há um conteúdo ideológico, pelo qual o discurso humorístico deve responder.
“Foi só uma piada” é uma defesa idiota do que aconteceu. No entanto, por suas características especiais, sua subjetividade, é difícil avaliar de longe como se realiza este discurso, que tipo de leitura se faz no contexto da realidade francesa. Para nossos olhos, pode se tratar de islamofobia pura.

“Culpa” como palavra de alta “picância”? Esse drible todo serve para que ele não tenha que responder (e preste atenção em como ele foge de qualquer questionamento mais, digamos, linear).

Mas o que ele está querendo dizer é o seguinte: não importa a intenção da publicação, pois se existir “um conteúdo ideológico” que sirva a uma agenda, o julgamento será por essa agenda. O que nos mostra que ele vai inventar o significado de acordo com a conveniência política. É o tradicional lema: “não importa a cor do rato, desde que pegue o rato”. O problema surge quando isso solapa questões morais — o que traduz com exatidão a proposta de Laerte, resumindo o atentado e as vítimas do Charlie Hebdo a nada mais que uma série de eventos a serem utilizados conforme a conveniência do momento.

Quando ele diz que “a afirmação ‘foi só uma piada’ é uma defesa idiota do que aconteceu”, aí sim é que temos um espantalho decididamente idiota, dado que nem de longe era essa a argumentação. O fato é que, independentemente de ser uma piada descompromissada ou um míssil político em forma de piada, as regras da liberdade de expressão precisam continuar valendo.

Clique e garanta o seu, com desconto!

Perceba como ele ainda diz que “para nossos olhos, pode se tratar de islamofobia pura”. Tradução: se for conveniente para agenda de Laerte, ele chamará de islamofobia. Dá para tolerar tanto oportunismo ao mesmo tempo desconstrucionista e desonesto assim? Estamos diante de um legítimo bagre ensaboado.

Quando questionado se existe “preconceito por trás da crítica especificamente voltada para as religiões muçulmanas”, ele responde:

O tráfego dos preconceitos é intenso e multidirecionado. Racismo, machismo, fobias de todos os sabores e qualidades se combinam em desenhos elaborados e complexos. Sim, o islamismo é hostilizado, assim como o judaísmo e o cristianismo. Esses ataques ocorrem em várias medidas. As religiosidades são hostilizadas e manipuladas de muitas formas.

Temos aqui outro padrão manjado: apontar seus culpados em todos os lugares. Quanto mais, melhor. O preconceito é “intenso”, “multidirecionado”, com “racismo”, “machismo”, “fobias de todos os sabores”. Como ocorrem? Em “várias medidas”. Como as religiosidades são hostilizadas? De “várias formas”. É uma maravilha esse tipo de resposta, não?

Imagine um diálogo semelhante em uma organização de TI: “Como está avaliação dos incidentes de TI?”. Resposta: “Está uma bagunça, com falhas de vários tipos, vários formatos, várias dimensões, em todos os lados, em todos os tipos de sistemas”. Especificar com exemplos que é bom, nada. Pessoas assim sabem que cairão em diversas contradições caso forçadas a serem específicas.

O entrevistador afirmou: “Quando os assassinatos ocorreram, boa parte da imprensa brasileira de direita criticou quem não se apressou a condená-los como terrorismo”. Ao pedir a opinião de Laerte sobre o assunto, recebeu esta demonstração de estreiteza mental:

Eu acho o termo “terrorismo” muito pouco nítido e excessivamente carregado de conteúdo reacionário. A discussão sobre o que aconteceu dá sequência às acusações que já vinham sendo feitas, por essa direita. Eles dizem que há patrulhamento, exigências de “correção política” e interpretações tendenciosas. Não tenho respeito por essas ideias.

Claro, claro. O termo “terrorismo” é “muito pouco nítido” e, vejam, “excessivamente carregado de conteúdo reacionário”. Ele é decididamente um piadista. Alias, ícones da extrema-esquerda do quilate de Lenin e Trotski,[ii] eram especialistas na prática ou ao menos no estímulo do terrorismo. Eram reacionários? Bem, até aqui você já deve ter desistido de encontrar qualquer tipo de linearidade e clareza moral nas palavras de Laerte.

O limitado cardápio não muda, porquanto ao final vem o pedido de “regulação dos meios de comunicação”:

Acho que há uma ação unificada da mídia com um propósito político claro ao recusar a discussão sobre regulação de meios de comunicação. É o que penso. Acho que nossos meios precisam se submeter a interesses da sociedade. Até em nome da liberdade de expressão dela. É um debate que precisa começar agora. Não tenho uma resposta clara e abrangente, infelizmente. É preciso buscar modos democráticos de limitar o monopólio dos meios de informação, bem como garantir e estimular o uso desses meios por parte da população. Isso deveria ser feito para diversificar as abordagens e opiniões que existem hoje e ficam concentradas nas mãos de poucos detentores da audiência.

Show de horror, da primeira à última letra da resposta, que se inicia com um ardil: dizer que há “ação unificada da mídia com um propósito político claro ao recusar a discussão sobre regulação de meios de comunicação”. Pelo menos ele não esqueceu o famoso clichê de lançar uma teoria da conspiração sobre seus oponentes, o que faz com que seu discurso ao menos seja engraçado (falamos de humor involuntário).

E quanto à “discusão recusada”? Será que os petistas, pcdobistas e psolistas não são capazes de se juntar e fazer uma proposta para levar ao Congresso? Ora, se um sujeito quiser uma lei para estuprar uma pessoa em específico, por que chamá-la para “discussão”? Não seria apenas uma técnica para amplificar a afronta? Uma vez existindo a intenção de estuprar alguém, há um potencial agressor e uma potencial vítima. Não há discussão a fazer entre as duas partes neste momento. O sujeito querendo fazer uma proposta assim deve buscar um deputado (ou vários) para levar adiante ao Congresso e torcer para a lei ser aprovada. Tomara que não seja. O melhor é que a potencial vítima esteja pronta para reagir, politicamente falando. Neste caso, ela poderia expor a indignidade da proposta ao público. Enfim, na ocasião em que ouvir alguém falar que “você se recusa a discutir (x)”, enquanto apresenta uma proposta totalitária — para te silenciar, agredir ou de oprimir de qualquer forma –, prepare-se para se defender de uma tapeação.

Ele diz que este “é um debate que precisa começar agora”. Mas a pergunta é: quem está impedindo esse sujeito de participar de debates entre os coletivos não eleitos[iii] do PT, do PCdoB e do PSOL?. Aliás, já estão fazendo isso há muito tempo, não? Uma dica é consultar o blog governista de Altamiro Borges, que pelo menos desde 2008 tem como assunto principal a proposição pela censura de mídia.[iv]

Ele afirma: “não tenho uma resposta clara e abrangente”. Mas logo adiante diz: “é preciso buscar modos democráticos de limitar o monopólio dos meios de informação, bem como garantir e estimular o uso desses meios por parte da população”. Se ele não tem uma resposta clara, como definiu essa prioridade? Como estabeleceu de modo majoritário o problema da “falta de uso de meios por parte da população”? Que parcela da população está “pedindo uso de meios”? Tem como ser específico, Laerte? Sim, eu sei que não tem. Explica-se: forçado a ser específico, ele precisaria confessar que a demanda surge apenas dos coletivos não eleitos do PT, como do próprio partido e de suas linhas auxiliares. Ou então fingir que esses coletivos não eleitos são “a sociedade”, mas ao menos quem ler este livro não vai cair na lorota.

Sobre “limitar o monopólio dos meios de informação”, vem a pergunta: onde está o monopólio? Se hoje a maior empresa de mídia do Brasil, a Globo, é uma formiguinha perto das maiores empresas dos Estados Unidos, Inglaterra e México, de que diabos ele fala? É picaretagem das brabas. Vamos desvendá-la em mais detalhes no capítulo 6.

Segundo Laerte, o controle de mídia “deveria ser feito para diversificar as abordagens e opiniões que existem hoje e ficam concentradas nas mãos de poucos detentores da audiência”. Quais opiniões? Quais abordagens? Note que ele jamais cita qualquer exemplo, nem qualquer evidência das justificativas para as demandas. Mais digno seria se confessasse querer todos os coletivos não eleitos do PT usando mídia bancada pelo estado para fazer campanha.

Quando questionado se uma mídia regulada conviveria bem com o deboche, surge outra resposta tosca, que fecha bem este verdadeiro festival de absurdos, digno de fazer inveja a qualquer escalação da seleção brasileira na Copa de 2014:

Acho que conviveria muito melhor com o humor de deboche ou de debate. Não vejo o humor sendo censurado com mais veículos de mídia criados. Ele apenas seria, talvez, mais debatido.

Que raio seria humor de debate?

E ele diz que não vê “humor sendo censurado com mais veículos de mídia criados”. Mas o problema é que ele não combinou o jogo com outros radicais da esquerda, que, como já vimos até agora, chegaram a propor regulação de humor e até afirmar que se “a justiça francesa tivesse punido o Charlie Hebdo no primeiro excesso”, tudo estaria resolvido. Isto é censura. Caso encerrado.

O que está acontecendo, Laerte? O pessoal não está se reunindo em botecos antes para combinar as mentiras a serem lançadas em entrevistas para pedir censura de mídia? As mentiras simplesmente não estão mais sendo sincronizadas pela tropa governista? Parece até que depois do atentado ao Charlie Hebdo a banda toda começou a tocar sob ritmos diferentes. Bateu o desespero, em um verdadeiro clima de barata voa. Em todo caso, mesmo para um órgão chapa-branca, a entrevista foi constrangedora, além de vergonhosa sob quaisquer parâmetros morais e lógicos.

Uma coisa é certa: ele empregou o atentado do Charlie Hebdo somente para sua conveniência, a fim de capitalização política. Em relação à censura de mídia, abusou de rotinas desembestadas. Nesse caso, Laerte, uma dica é: melhor treinar os ardis com mais cuidado. Creio que nem mesmo os petistas devem ter ficado felizes com sua encenação pífia.

Aliás, tanto esforço pela regalia de adotar um discurso chamando os islâmicos de desfavorecidos (a ponto dos coitadinhos precisarem ser protegidos de “piadas”) torna-se ridículo diante do simples fato de que ele é um “cross-dresser”. Melhor dizendo, se veste como mulher. Nada contra. Mas como ele seria tratado em um país islâmico? Esse é o tipo de pessoa que se diz indignada gritando “homofobia” e “machismo”, mas silencia diante da violência praticada no mundo islâmico contra mulheres e gays.

O costumeiramente ácido e perspicaz jornalista Augusto Nunes, que conviveu com Laerte Coutinho por dois anos na Escola de Comunicações e Artes da USP, lembrou que o cartunista, naquela época, entendia que “tudo e todos podiam virar piada”. O estilo “sem limites” o tornou uma celebridade.

Nunes escreve:[v]

O Laerte que não depilava o corpo enquadraria os carrascos. A ativista Sonia insinua que os colegas do Charlie Hebdo estariam vivos se fossem mais ajuizados. É sempre um perigo mexer com fanáticos que não sorriem. O desfecho sangrento seria evitado caso tivessem optado pela autocensura e proibido a entrada do profeta Maomé nas páginas do semanário. Em troca da sobrevivência, só perderiam a honra. O Laerte de antigamente estaria traduzindo charges ferozes a indignação com a tentativa de assassinato da liberdade de expressão ocorrida em Paris. Sônia ficou por aqui, concebendo o trucidamento simultâneo do jornalismo independente e da verdade […]
Tudo somado, está claro que o cartunista já não sabe o que diz ou desenha. Laerte-Sônia ignora, por exemplo, como são as coisas no mundo islâmico. Nem desconfia que, se tentasse virar mulher por lá, não chegaria ao fim da primeira maquiagem.

Este é o pedestal trágico e comovente onde Laerte optou por se estabelecer. Ele fez por merecer este destino ao ter abraçado a agenda imunda da extrema-esquerda, que continuamente finge defender os oprimidos em luta eterna na busca de sanção moral para oprimir os demais. Para isso, vivem à busca de brechas na liberdade de expressão, pelas quais encontrarão oportunidades de atacar seus oponentes. Laerte entendeu as regras do jogo e escolheu seu lado. Este lado não dá a mínima se vidas são perdidas. Apenas querem saber se conseguem obter algum tipo de sanção para silenciar o contraditório.


[i] “Laerte fala ao DCM sobre o Charlie Hebdo e explica por que defende a regulação da mídia”. Diário do Centro do Mundo, 12/01/2015.

[ii] “Terrorism and Communism”, livro de Leon Trotski, fala dos gostos dessa gente por terrorismo.

[iii] Coletivo não eleito é toda entidade de pessoas que dizem representar outras, mesmo sem terem sido eleitas por elas. Exemplo: UNE, MST e daí por diante.

[iv] Dê uma consultada no Blog do Miro e veja como requisições por censura de mídia (que ele chama de “democratização de meios de comunicação”) é seu assunto preferido. Estamos diante de um especialista.

[v] “Se Laerte virasse Sônia num país islâmico, o cartunista indulgente com liberticidas não chegaria ao fim da primeira maquiagem”. Coluna do Augusto Nunes (Veja), 15/10/2015.


Gostou do que leu? Ficou instigado? Quer saber mais sobre o livro? Então garanta sua cópia, COM DESCONTO, no link http://bit.ly/LivroAyan. E, ah, não se esqueça de clicar no coração abaixo!