Por que um Guia Politicamente Incorreto da Literatura?

Por que um Guia Politicamente Incorreto da Literatura? Bem, para começar, os professores de literatura andam tão politicamente corretos, que parece piada. Professores PC acreditam em coisas absurdas, além de escreverem e ensinarem que: Jane Austen foi uma feminista subversiva cujos romances expressam seu ódio pelo patriarcado… que Stálin estava bravamente lutando para transformar a União Soviética em uma democracia… que Shakespeare escreveu Macbeth para domesticar as mulheres.

Muitos dos professores que ensinam literatura na faculdade perderam o contato com a realidade e com sua própria matéria. Entre num curso de Letras em uma universidade qualquer e as chances de que você estude teoria marxista ou a história do balé são realmente grandes. Você poderá presenciar uma investigação sobre a pornografia através dos tempos ou, ainda, passar o semestre todo assistindo a filmes estrangeiros. O fato é que o que provavelmente não acontecerá é o ensino da apreciação e do entendimento da grande literatura.

Hoje em dia, parece que os professores de inglês estão ensinando de tudo — da “teoria de gênero” à “cultura popular latina”, passando por Freud –, menos literatura. Professores PC têm estado ocupados substituindo a ótima “influência européia” no catálogo literário tradicional, tida como reacionária, por autores de bestsellers dos anos 80 que abordam todos os temas politicamente corretos. Os departamentos de Letras estão cheios de professores dedicados a eliminar a literatura inglesa, em vez de ensiná-la.

O problema não é apenas que os professores desperdiçam o tempo de seus alunos, o que realmente acaba acontecendo. E não é que eles apenas se esforçam para doutrinar seus alunos numa visão de política esquerdista, para transformá-los em feministas infelizes, cheias de rancor, e recrutá-los para o movimento antiguerra — e tudo isso, de fato, acontece. O grande problema é que eles simplesmente não ensinam literatura inglesa e americana. Afinal de contas, por que um professor PC iria querer que seus alunos aprendessem alguma coisa sobre Chaucer, Shakespeare, Milton e todos os outros importantes representantes da alta cultura européia que figuram no agora catálogo desatualizado da grande literatura em língua inglesa? Na lógica politicamente correta, a civilização ocidental é a razão de todo mal que existe. Por que então os professores PC iriam ajudar a perpetuar algo assim?

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Os departamentos de Letras das nossas universidades foram constituídos para que nossa literatura, nossa herança linguística, fosse preservada e transmitida para as gerações futuras. Nós permitimos, no entanto, que pessoas que odeiam e temem esta herança tomassem conta de tais departamentos. O resultado? Apesar da literatura inglesa e americana oferecer um vasto material para uma aprendizagem profunda, os professores não podem deixar isto transparecer. Este Guia é uma introdução para o que você deveria ter aprendido na faculdade, mas seus professores omitiram.

Este livro ensinará o que todo ser humano bem educado e instruído deveria saber sobre a literatura inglesa e americana, mas — e há um pouco de culpa individual nisso — não sabe: as grandes histórias, as peças incríveis, os versos poderosos e muitas vezes cheios de emoção. Ele dará as ferramentas (outrora ensinadas nos departamentos de inglês e hoje negligenciadas pelos professores PC) que você precisa para aproveitar a literatura ao máximo e aprender com ela o que seria impossível por quaisquer outros meios. O Guia também ensinará o caminho das pedras através do campo minado que é a “teoria literária”, que pode fazer com que você se perca não apenas no que compete à grande literatura, mas a todos os bons frutos da civilização ocidental.

O fato é que, ainda que você faça um curso que tenha “Shakespeare” ou “Faulkner” no título, não há absolutamente nenhuma garantia de que você irá realmente aprender nele alguma coisa sobre literatura inglesa ou americana. Pelo contrário, o professor poderá muito bem fazer uso da literatura para doutriná-lo sobre alguma ideologia que é não apenas indiferente, mas diretamente hostil àquela mesma literatura que você se predispôs a estudar. Os professores não abordarão os romances e peças como grandes obras de arte que falam à humanidade sobre temas de importância universal, mas como artefatos culturais que expõem os privilégios dos homens brancos diante de grupos marginalizados, como as mulheres e as minorias raciais. A visão política do professor (marxismo, “desconstrução”, ou qualquer outra cuja agenda tem origem revolucionária) é o conteúdo em si do que será realmente dado ao longo do curso.

Imagine que você acaba de entrar na Universidade Ivy e descobre que a sua classe de inglês tem um professor que acredita que “a questão não é se os estudos de Shakespeare precisam do feminismo, mas sim se o feminismo precisa de Shakespeare.” Você descobre, então, que ela assinou os seguintes artigos, todos de um livro chamado: A Feminist Companion to Shakespeare (Uma Companheira Feminista para Shakespeare)*

  • Feito para escrever sobre “prostituta”: O uso masculino e feminino da palavra “prostituta” no catálogo de Shakespeare, por Kay Stanton;
  • Sycorax em Argel: Política cultural e ginecologia na Inglaterra recém-modernizada, por Rachana Sadchev;
  • “… no vácuo lésbico: Erotismo entre duas mulheres nas peças de Shakespeare, por Theodora Jankowski;
  • “A misoginia está em toda parte”, por Phyllis Rackin.

Ela passa o semestre inteiro tentando demonstrar que Shakespeare não merece ser lido por mulheres.

Até onde eu sei, não há nenhuma universidade em que o curso de Shakespeare seja planejado com base no livro A Feminist Companion to Shakespeare, porém tal livro é uma amostra razoável das opiniões que podemos encontrar no departamento de inglês de qualquer universidade: os artigos são escritos por escolásticos respeitados que ocupam posições importantes em nossas universidades, e, portanto, suas opiniões, suposições e modos de análise refletem o modo como os professores muito provavelmente abordarão o tema no curso que você está freqüentando. Se você é um recém-formado — ou já conversou com um — sabe que isso tem, de fato, acontecido.

Quando a interpretação de Shakespeare não está sendo distorcida por professores feministas para sustentar o “patriarcado”, se está procurando evidências de que ele foi conivente com o tráfico de escravos e com a dominação das Américas. Othello (Otelo), Macbeth e The Tempest (A Tempestade) nada teriam a dizer sobre a natureza humana, apenas sobre racismo, sexismo e colonialismo. Ou seja, parece que os caras que ensinam inglês nas faculdades simplesmente desconhecem o fato de que a natureza humana pode ir além de coisas como o racismo, o sexismo e modos similares de opressão.

Tal ignorância parece particularmente intrigante quando vemos a enorme quantidade de material que eles têm disponível que vai exatamente no sentido oposto. Melhor dizendo, que eles teriam à sua disposição se estivessem dispostos a prestar atenção à grande literatura que deveriam estar ensinando, quando na verdade estão apenas fazendo análises e projeções pós-modernistas a seu respeito — isso quando não deixam a literatura complemente de lado para ensinar o que na verdade são outras matérias. A literatura inglesa e americana compõe uma introdução sem paralelos aos problemas primordiais, às capacidades e à sabedoria humana. O que se aprende nas salas de aula de inglês, hoje em dia, é, contudo, um punhado comprimido e corrompido de ideologias, que contêm menos verdade e humanismo que uma única peça de Shakespeare.

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A história de Megan Basham, uma recém graduada, é ilustrativa sob vários aspectos. Ela conta como foi se formar em inglês na Arizona State University — além de uma série de fatos surpreendentes que acontecerem com ela quando, apesar de todo o esforço dos seus professores no sentido contrário, ela conseguiu ir além das superficialidades da educação literária pós-moderna e se engajou na literatura em si.

A Arizona State, segundo Basham, está mais para um lugar de grandes festas do que para um ambiente que abriga intelectuais. As atitudes e as ideias que ela descreve, no entanto, não podem ser consideradas excentricidades de inovadores dos novos tempos. As ideologias que deturparam o estudo da nossa literatura foram primeiramente implementadas nas instituições de elite, mas, hoje em dia, são a própria essência de como o trabalho é executado no país inteiro e em todas as esferas do nosso sistema de ensino superior, das universidades de elite às faculdades de bairro.

Basham aprendera a “identificar as entrelinhas racistas, misóginas e homofóbicas” da literatura que ela estudou. Ela percebeu que a “apreciação pelas sutis metáforas metafísicas de John Donne foi substituída pelas óbvias metáforas sexuais de Adrianne Rich”. Literatura inglesa, do jeito que ela via em sala de aula, “fazia com que os pseudo-intelectuais gastassem o tempo de aula discutindo interpretações homo-eróticas de As you like it e Richard III”. Sua epifania aconteceu durante um trabalho em que ela abordou a literatura medieval e da renascença. Ela percebeu que “não fazia sentido estudar de fato os textos” — e que ela se sairia bem ao repetir tudo o que o professor já havia dito em sala de aula, ou seja: que “Wife of Bath’s Tale”, de Chaucer era uma obra “inspirada” por causa de seu tratamento audaz no que tange temas sexuais; que a poesia de Spenser é desfigurada por uma “recriminação e autonegação nada saudáveis”. Sua estratégia foi por água abaixo quando ela escreveu um texto sobre a Morte D’Arthur, de Sir Thomar Malory.

Para o trabalho sobre Malory, ela cometeu o gravíssimo erro de ler o texto em questão e as fontes por detrás dele. Ela foi ainda mais longe (pelo menos, sob o ponto de vista dos professores PC) e escreveu sobre o que o texto falava de fato, ao invés de focar no quanto a mensagem remetia apenas ao nosso passado sombrio de auto-negação e recriminação misógina. Ela descobriu que a história do relacionamento todo cheio de culpas de Lancelot com Guinevere oferece alguma compreensão sobre o que acontece em sua própria vida e na de seus pares. E assim como Lancelot, eles tinham oportunidades que iam além dos sonhos da maioria das pessoas, mas também estavam infectados por uma espécie de “doença da alma”. “Um encontro com o sagrado cálice de Cristo mudou o coração de Lancelot”, explica Megan Basham. “E um encontro com Lancelot mudou o meu.”

Autocrítica e fé cristã não são, de forma alguma, as únicas coisas que podemos descobrir na literatura inglesa e americana. Você aprende a reconhecer e a admirar certas qualidades que tal literatura evidencia em toda sua glória (e importância): valor militar, sanidade mental, castidade. Você pode perceber a paixão com que os poetas românticos se dedicavam a explorar a capacidade da mente e coração humanos, ou a fascinação dos romancistas vitorianos pelo caráter, ou ainda, simplesmente aprender a amar a beleza e a odiar a feiúra — a admirar a habilidade e a conhecer a diferença entre uma conquista consumada e uma preguiça constrangedora. O que todas estas lições têm em comum é que é difícil imaginar professores de inglês politicamente corretos contentes com o fato de que seus alunos as estão aprendendo.

Este Guia Politicamente Incorreto irá introduzi-lo a uma vasta gama de possibilidade de coisas que podem ser aprendidas na literatura em inglês e que vocês não terão absorvido de seus professores de faculdade. Eu tentei dar ao menos uma pequena mostra do que há de melhor na literatura de todos os períodos históricos, mas é claro que há omissões e desequilíbrios inevitáveis. Oscar Wilde, por exemplo, provavelmente recebe mais atenção do que sua literatura garantiria, e Edmund Spenser certamente recebe menos atenção do que merece devido à importância de se abordar alguns temas do final do século dezenove, e a grande quantidade de poesia de alta qualidade da renascença.

As listas no começo de cada capítulo incluem a literatura abordada, bem como trabalhos adicionais; juntos eles formam uma base para o estudo autodidata da literatura inglesa e americana. Os trabalhos literários, temas e modos de análise tratados neste Guia oferecem um começo consistente e o ajudam saber por qual caminho seguir. Há uma variedade praticamente infinita de literatura de excelente qualidade escrita em inglês — e de lições de vida que podemos extrair dela.

A única lição que você não pode aprender com as grandes obras da literatura inglesa e americana refere-se ao ponto de vista politicamente correto: a ideia de que a cultura ocidental não passa de um conjunto de injustiças e que a única forma de corrigi-las e nos proteger contra o retorno da opressão e da miséria é através da vigilância incessante contra todos os “ismos” e “fobias”. Se fosse possível aprender a desprezar e a odiar a civilização ocidental através da grande literatura, os professores PC não teriam parado de ensiná-la.


Gostou do texto? Ele faz parte do “Guia Politicamente Incorreto da Literatura”, escrito por Elizabeth Kantor e recém-publicado pela editora Simonsen, que pode ser adquirido neste link: http://www.saraiva.com.br/guia-politicamente-incorreto-da-literatura-9346942.html?mi=VITRINECHAORDIC_viewpersonalized_home_9346942


Elizabeth Kantor recebeu seu Ph.D. em Inglês pela University of North Carolina e seu título de Mestre em Filosofia pela Catholic University of America. É autora de A Fórmula do Amor: Segredos de Jane Austen para os Relacionamentos (Realejo Livros & Edições), além de colaborar regularmente com publicações como Huffington Post, The Washington Times, National Review e Boston Globe, dentre outras. Foi editora do Conservative Book Club e hoje trabalha como editora da Regnery Publishing. Vive na Califórnia, com seu marido Jeff e seu filho Billy.