Luís

O ano era 2010, e aquele não era um carnaval qualquer, era a despedida de sua cidadezinha no interior do Tocantins. Ela tinha acabado de passar no vestibular, e finalmente ia morar sozinha na capital do Goiás.
Naquela primeira noite de carnaval, ele a beijou sem se apresentar; tinha um piercing na boca e um cordão de couro com um pingente estranho, ele parecia roqueiro, parecia perdido, parecia tantas coisas que ela não poderia confirmar nem nesse dia e nem nos próximos que viriam.
Seu nome: Luís.
Luís é um nome que por si só já encantava aquela mulher, e a pessoa a quem o nome pertencia deixou tudo ainda mais interessante. A verdade é que foi paixão à primeira vista, e por incrível que pareça, duraria meses. Após os três primeiros e longos beijos, sentaram-se para conversar. A banda indicada por ele foi Oasis, e ela só conhecia a música que foi tema do filme Efeito Borboleta.
No dia seguinte, pesquisou tudo sobre a banda e passou a tarde escutando as faixas principais. Na segunda noite de carnaval ela já sabia tudo sobre Oasis, e a faixa do filme se tornou oficialmente a música dos dois. Na terceira noite já sabia quem eram os melhores amigos dele e o time para o qual ele torcia. Na quarta e última noite fizeram-se promessas. Ela não tinha se apaixonado sozinha, pelo menos não era o que parecia.
Na quarta-feira de cinzas ela seguiu para Goiânia, com ele e todas as suas promessas na cabeça. Os primeiros dias na faculdade não tiveram a graça que naturalmente têm para uma caloura, porque ela só pensava no Luís, ela só queria o Luís, nada tinha tanta importância quanto um feriado para poder voltar à sua cidade e ver o Luís.
Ele também fazia por onde, ligava para ela todos os dias, os tais aplicativos de mensagens não eram populares nessa época, e era mais conveniente fazer ligação. Ela ia para o ponto de ônibus às 6h30 da manhã ouvindo a voz dele no telefone. Quando não estava assistindo aula, estava falando com ele, passavam horas conversando. O Luís prometeu tentar o vestibular da UFG, e se passasse, até casariam (mentira), ela sabia que ele queria dizer apenas que namorariam, claro.
No feriado de páscoa, ela se antecipou, matou as três últimas aulas da semana e se mandou de surpresa para sua cidade. Quando os dois se viram na pracinha central… foi um abraço que eu, a narradora, nem consigo descrever, pode apostar que foi daqueles abraços que se lembra a vida inteira. Quem via, dizia: “os dois estão muito mais que apaixonados…”. Foram quatro dias de beijos e declarações.
O tempo passa, e enfim chega o vestibular do meio do ano. Era a oportunidade do Luís tirar esse romance da distância. Detalhe importante: ele morava com uma tia que deu apenas essa chance a ele, “ou passa no vestibular ou volta pra casa do teu pai, no Maranhão!”
O Luís sabia que se voltasse para a casa do pai ia ter que trabalhar; e estudar ficaria em segundo ou terceiro plano. Então, ele havia se preparado para aquela prova, era algo que ele queria muito por si mesmo, pela sua garota, e pelos seus amigos que também estavam na UFG. Ele havia feito cursinho, ele havia estudado muito, lido todas as literaturas obrigatórias, sabia cálculos e cálculos de cabeça… Ele foi para Goiânia muito feliz, estava seguro que seria o mais novo acadêmico de Direito daquela universidade.
Em Goiânia, os dois se viram e foi amor de tirar o fôlego. Saíram juntos, foram em festas da turma de Direito, beberam juntos, dormiram juntos… A prova ele descreveu: “foi tranquila”. Pouco tempo depois, ele resolveu visitar seu pai no Maranhão, e enquanto esteve por lá, sua ex também resolveu fazer uma visitinha. Os dois tiveram um “flashback”, e honesto como ele era, contou tudo para sua amada por telefone, que mesmo triste compreendeu tal episódio.
Passado cerca de um mês, saiu o resultado do famigerado vestibular. Luís então fez sua última ligação para ela:
“Não passei. Vou embora semana que vem para minha cidade. Segue a vida e fica com Deus.”
Seco. Na verdade, puto. Desligou o telefone e deixou aquela mulher no mais absurdo pranto.
Essa história aconteceu há quase 8 anos, nesse meio tempo eles se adicionaram em algumas redes sociais e tentaram marcar um encontro, mas não deu certo. Por fim, ele acabou excluindo ela de suas redes, e a única coisa que ela sabe dele é que se casou há pouco tempo, e não, não foi com a tal da ex.
O nome dele ficou extremamente marcado para ela, foram muitos cadernos escrevendo esse nome com toda a carga de sentimentos que havia na época; hoje ela não suporta nem pronunciar, quando conhece algum homem que se chame Luís, prefere chamar por apelidos ou segundo nome… Para ela, Luís não deixou de ser um nome lindo, mas a sensação que traz não é tão bonita quanto a palavra em si, então ela segue fugindo de chamar, de lembrar… Eu diria que isso é um tipo de ilusão, ela vai deixando o coração ter a impressão que foi tudo um sonho, e a cabeça quase acredita que foi mesmo, só um lindo e terrível sonho.

Música tema do filme “Efeito Borboleta”: Stop Crying Your Heart Out

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