Relação Inominável

Em um dia qualquer, ele conheceu uma garota também qualquer. Ela não era nenhuma beleza de parar o trânsito, mas tinha lá seus atrativos.

Ele sempre foi muito arredio com as pessoas, sempre gostou de ser sozinho por achar o seu universo muito melhor que o de todo mundo. E talvez até era. Ele foi selecionado para desempenhar um projeto de pesquisa na faculdade, e ela seria sua parceira durante seis meses nessa empreitada, ao fim de tudo, publicariam um artigo e até poderiam apresentá-lo em congressos universitários. A ideia abrilhantava os olhos dela, os dele nem tanto. Os dois eram bem diferentes.

Por causa do projeto eles passaram a se ver quase todos os dias, lanchavam juntos nos intervalos e conversavam sobre os resultados almejados. Durante seis meses eles mantiveram um convívio social de colegas, até o dia que o projeto acabou e não tinham mais motivos para se ver.

O artigo foi publicado com o nome dos dois, mandaram a proposta de apresentação para a bancada de um grande congresso, mas o resultado ainda ia demorar para sair. Após o fim dos trabalhos, a sensação de vazio tomava conta dela, talvez ele sentia a mesma sensação, mas jamais ia confessar isso a alguém. Após um tempo, passou a inventar desculpas para vê-la, depois passou a ir na porta de sua casa apenas para dizer “oi”. Ali começou a crescer uma grande amizade, que depois se tornaria outra coisa inominável. Amizade colorida não poderia ser, porque ela… bem, ela teria ciúmes para uma vida inteira. No manual das amizades coloridas não haveria de ter ciúmes, ou pelo menos não deveria…

Ele não sentiria nada por um longo período, seria como beijar a boca de uma irmã, mas ele beijava, só não dizia nem pra ela e nem pra si mesmo que gostava. Ele não queria de jeito nenhum se apaixonar. Liberdade era tudo que ele conhecia sobre felicidade.

Ela, ao contrário dele, estava completamente envolvida, já não podia ficar sem vê-lo e estava pouco se importando com o status de relacionamento que lhe seria atribuído ou não. Mesmo assim, na frente dele, aparentava total descaso, travando uma batalha diária com o seu coração, que se importava como se aquela relação fosse a última de sua vida.

Ele vivia dizendo pra si mesmo que não haveria nenhum compromisso entre os dois, porque não estava devidamente apaixonado… Um dia se pegou escrevendo o nome dela em um pedaço de papel. Ela viu, e o perguntou do que se tratava, ele apenas disse:

– Nada, só estou começando a escrever minha lista de amigos.

Não era aquela resposta que ela queria ouvir. Mas assim os dois seguiram pela vida:

Ela aparentando descaso. Ele aparentando amizade. Tudo para que não parecesse amor.