A mídia também é responsável pelo fechamento do Queermuseu

Por Camila Milani e Giovana Meneguin
Divulgação

Terça-feira, 12, início do mês de Setembro, centenas de pessoas reuniram-se em frente ao Santander Cultural, em Porto Alegre. O espaço foi alvo de manifestações hostis por trazer a público o “Queermuseu — cartografias da diferença na arte brasileira”. Por conta da onda de protestos, a mostra foi cancelada. A exposição contava com obras de 85 artistas, incluindo Cândido Portinari, Alfredo Volpi e Lygia Clark, e abordava, além de tabus, a comunidade LGBT. Vale pontuar que esta seria a maior exposição voltada para gênero e diversidade sexual que a América Latina já recebeu. Grande parte das críticas foi por parte de setores conservadores, movimentos religiosos e apoiadores do MBL (Movimento Brasil Livre).

A arte tem a função de ser incômoda, de tocar, criticar, retratar e discutir temáticas à margem da sociedade. A mídia, assim como a arte, também desempenha papel social de levar ao público geral informações verdadeiras, que não estejam contaminadas pela censura.

Correntes ideológicas e doutrinas sempre influenciaram as opiniões e os estilos de vida dos indivíduos, propondo julgamentos e censuras aos mais variados atos e práticas da sociedade. A proposta da mídia é justamente dar visibilidade às temáticas de cunho social e promover debates acerca de sua relevância, não importando os incômodos trazidos por tais discussões.

A liberdade de expressão tem sofrido boicotes nos últimos tempos, mesmo estando em pleno século XXI. Assuntos de extrema importância como diversidade sexual, doenças sexualmente transmissíveis e, até mesmo, a erotização da figura feminina, estão sendo abordados de maneira tendenciosa e como tabus pelos grandes meios de comunicação. Mais do que isso, há um resguardo por estes tipos de temas, que faz com que a mídia simplesmente evite a promoção de debates e feche os olhos para tais questões.

Entretanto, quando uma exposição, que retrata o mundo real, em sua forma pura e cruel, é fechada diante de pedidos do público, devemos entender os porquês que estão além do MBL e grupos extremistas. A mídia estaria exercendo seu papel social? Infelizmente, é notório que veículos de alta abrangência e, portanto, com grande poder de influência, caminham a passos lentos quando o assunto é abordar tabus e lidar de forma empática com assuntos que devem ser discutidos e problematizados.

A cultura criada a partir de revistas como a Playboy em seus primórdios e portais online que sobem textos com chamadas como “Top 10 — as gatas da semana” (via) ou “Lívia Andrade empina bumbum em foto e seguidores piram” (via) reforçam uma realidade machista que coloca o homem heterossexual e cisgênero como superior e “normal”. Dessa forma, veículos contribuem não só para a estereotipização da figura feminina, mas também para mascarar pessoas e realidades que não se encaixam no padrão tido como correto e dentro da moralidade.

O mesmo tipo de coisa acontece quando trata-se de dar espaço e visibilidade à artistas que fogem ao padrão imposto pela sociedade, como é o caso da Drag Queen e cantora Pabllo Vittar, que emplacou sua músicas como hits neste verão. A mídia custa a vincular a imagem da artista como um novo talento na indústria fonográfica brasileira e, quando o faz, retrata a cantora como um símbolo exótico e inusitado. Pabllo foi esquecido em diversas matérias que retratavam o sucesso Sua Cara, uma parceria com a brasileira Anitta e o grupo Major Lazer — vide a entrevista dada, em Julho, pelas cantoras ao repórter Amin Khader, da Record, em que o jornalista ignorou a presença de Pabllo.

Portanto, podemos concluir que a mídia brasileira não apenas está se abstendo de seu papel social como, também, contribui para a manutenção de estereótipos. Torna-se claro que a mídia reflete o conservadorismo e da falta de cultura de nossa sociedade. O encerramento da mostra Queermuseu é mais um caso que comprova a deficiência dos meios de comunicação brasileiros e de como a arte luta em manter-se livre da censura, desempenhando seu papel de incomodar e dar cor às questões ainda marginalizadas.


Referências bibliográficas

GUERRA, Josenildo; ROTHBERG, Danilo; MARTINS, Gérson Luiz (orgs.). Crítica do jornalismo no Brasil. Covilhã, Portugal: LabCom, 2016.

O Estado de S.Paulo. Mas você levaria seu filho a essa exposição. [s.l]. 12 de setembro de 2017. Disponível em <http://emais.estadao.com.br/blogs/ser-mae/mas-voce-levaria-seu-filho-a-essa-exposicao/>. Acesso em 13 de setembro de 2017.

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