O FUTURO DO PRETÉRITO
De quem você sente saudades? Eu sinto do meu filho, Benjamin. Mas não, não é desse que está na cama dormindo agora.

É que houve um domingo em que acordei 6:30 da manhã. Olhos no teto, a dúvida me assalta: ficar à espera de um sono incerto ou levantar sem uma razão específica – e ainda correr o risco de acordar o Beni.
Ouço ele tossindo, mas logo para. Olho pela babá eletrônica para confirmar que está tudo bem. Mas noto que está sem chupeta; e só então me lembro.
Já há algumas semanas ele usava a chupeta apenas para dormir. Ontem resolvemos seguir adiante. E ele mostrou aquele tipo de maturidade infantil que desmonta os pais. Até pediu a “pêta” antes de dormir, mas se satisfez com o argumento de que já era grande e não precisava mais.
Olhei de novo na babá. Nenhuma “pêta” por perto e ele dormia serenamente.
Como num “trailer”, passou pela minha cabeça a imagem do Beni no sofá com sua chupeta azul. Depois o vi com lágrimas nos olhos e a “pêta” lhe consolando. Logo em seguida foi um sorriso por trás daquela chupeta enorme, vindo me abraçar quando chegava do trabalho. Era tudo como uma música que me envolvia.
E só então percebi minhas lágrimas. Não sei se podia chamar de choro, as lágrimas apenas vertiam.
Eu percebi que não teria mais aquele menino. Que o tempo passou e levou o passado. Aquela versão do meu filho já não existia mais.
E logo lembrei de um dos conceitos mais fortes do filósofo Sêneca: “É um erro imaginar que a morte está a nossa frente, grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita já é do domínio da morte.”
Por isso pergunto: de quem você sente saudades?
Talvez seja de seu filho quando bebê ou de seus pais quando mais jovens. Da criança que você foi ou do primeiro dia na faculdade. Mas daqui 5 ou 10 anos pode ser de quem seus pais e seus filhos são hoje. Ou do lugar onde você está e de quem você é agora.
O fato é que nenhum outro momento vai ter este sabor, nada de novo na vida virá com esta cor. Você nunca mais será o mesmo - nem quem está com você.
Tanto que daqui uns dias já vamos começar o desfralde do Beni. E, sinceramente, nunca me pareceu tão significativo trocar fraldas.

