Melodrama
Texto por Tiago Soares

Lorde, a moça de apenas 20 anos, lança seu segundo CD com duas grandes responsabilidades nas costas. A primeira e teoricamente mais simples, é entregar algo melhor, ou pelo menos no mesmo nível de seu álbum de estreia Pure Heroine de 2013. A segunda, e mais difícil, é concretizar a declaração do ídolo falecido David Bowie, que disse que a jovem era o futuro da música. Felizmente, com Melodrama, Lorde passa por cima da primeira barreira com folgas, e caminha a passos largos para cumprir a segunda, ou ela já cumpriu?
Lorde começou a escrever Melodrama, logo após o fim de seu relacionamento, e muito do fim das coisas e início de outras, está nas letras e melodias desse novo trabalho. Os desejos da juventude — de ser algo maior — o salto na carreira que veio precocemente e merecidamente depois do álbum de estreia, os Grammys, as noites de composição antes da fama, e é claro seu relacionamento. O novo CD parece uma narração detalhada de coisas que aconteceram de fato. É como se víssemos tudo, com direito a roteiro e trilha sonora claro — mas não apenas o superficial, as coisas que se passavam na cabeça dela, e as vezes o que ela achava que ele estava pensando.
Lorde afirmou que ouvir seu novo trabalho é como estar numa festa, e às vezes, há aquele momento que você vai ao banheiro, faz o que tem que fazer, olha uns minutos no espelho e começa a refletir (seja sóbrio ou completamente chapado). Assim, como numa festa, analisaremos Melodrama.

A Festa
Abrindo o CD com a dançante e primeira faixa liberada Green Light, Lorde narra os eventos desde a maquiagem no carro, até a aparente festa em que vai com seu amor. Ao mesmo tempo o casal parece brigar e ameaça um término em meio a dança, mas Lorde afirma várias vezes que não consegue sair daquilo. Involuntariamente ou não, a moça descreve muitos relacionamentos atuais. Quantas vezes queremos sair de uma relação, mas não o fazemos por medo de ficar sozinhos? Seguindo no ritmo, Sober tem uma batida mais lenta, que acredito que seja proposital, já que Lorde está bêbada e fala do esquecimento de todas as coisas através da diversão, e ao mesmo tempo pergunta: O que faremos quando estivermos sóbrios?
Homemade Dynamite usa do belo grave de Lorde, que contrasta bem com o backing feito pela mesma. Parece ser o fim da festa, e eles estão voltando pra casa, se sentindo impossíveis e invencíveis. Quem já foi numa festa sabe o estado que volta, dependendo do divertimento, você volta cheio, ou muito mais vazio do que antes. Ao relatar que algo pode acontecer nessa volta, Lorde exemplifica que qualquer detalhe pode destruir uma relação. Mas o fim da festa, é o fim do CD certo? Não, em nenhum momento disse que Lorde conta tudo em ordem cronológica.

O Espelho
Se você já teve o momento de se olhar no espelho, sabe que inúmeros pensamentos passam pela sua cabeça, dos mais banais, até os mais filosóficos, dependendo do nível alcóolico corporal (risos). Em The Louvre, Lorde pensa sobre seu relacionamento, e avalia se ele está fazendo mais bem do que mal. Ela faz planos futuros, para tentar fugir daquela ideia, ao mesmo tempo em que tem uma reflexão sobre o que sente — se ainda sente algo com a mesma intensidade ou se isso diminuiu — “Ponha um megafone no meu coração e veja se bate da mesma forma”.
Chegamos talvez na música mais triste e depressiva de Melodrama. Mas é preciso analisar com cuidado. Tocada apenas no piano, Liability parece um relato de suicídio, e quando a ouvi pela primeira vez, tinha acabado de ver 13 Reasons Why, e disse: Essa música é muito Hanna Baker. Lorde aqui, está longe de ser a garota de personalidade forte. Ela se sente um fardo, afirma que tudo que acontece com a ela, inclusive o seu par, são demais para a mesma. Na frase mais triste, ela afirma que dança com seu amor, mas tudo que veem do lado de fora é apenas uma garota dançando sozinha. Poderoso, mas devastador. As últimas duas frases da música dão uma sensação de conforto, mas não deixam a música menos triste. “Vocês vão me ver desaparecer dentro do Sol.” Sad.
Hard Feelings/Loveless é a faixa mais longa do CD. Com mais de 6 minutos, era a música dupla que menos tinha me agradado. Não achava que ambas se encaixavam na proposta daquele momento, concepção que quando analisada, se perde totalmente. Ambas as faixas — se completam — apesar de diferentes e estão aonde deviam estar. Hard Feelings narra o término do relacionamento, e toda a chatice de devolver os presentes, buscar as roupas da casa do outro, apagar as fotos, etc. Ao mesmo tempo Loveless, trata da consequência disso — por medo de se machucar novamente — nos tornamos uma geração sem amor. Somos totalmente desapegados, temos medo de nos conectar totalmente a alguém, por conta de uma experiência passada. Com isso, a única música que não tinha curtido tanto assim do álbum, já é uma das minhas favoritas.

Sober II, repete o título da segunda música (algo que Lorde faz mais uma vez nesse álbum) e agora ela parece saber o que fazer quando está sóbria. Sober II é o famoso “bola pra frente” depois do fim. Todos e ela mesma, já esperavam o ‘melodrama’ que vinha a seguir (palavra que é repetida muitas vezes na faixa), mas só depende da mesma se entregar a ele. Talvez por isso, Sober II tenha uma batida despretensiosa, beirando ao rap, e seja uma das músicas mais curtas. O melodrama só dura um pouco no caso da cantora, hora de levantar a cabeça e focar na carreira.
Carreira e suas consequências inevitáveis retratada na faixa seguinte. Writer in the Dark é autoexplicativa e declarações da própria cantora confirmam o que já imaginávamos. Um dos estopins do fim de seu relacionamento foi a sua fama. Enquanto Lorde escrevia no escuro, fazendo alusão ao seu anonimato, sua relação ia bem. Depois do boom, das premiações e turnês mundiais, seu amor não lidava bem com o nome de sua amada na boca de todos. Egoísmo, ciúmes, babaquice? Não cabe a mim, nem a você julgar, mas é por isso que Lorde repete tantas vezes: “Aposto que você se arrependeu de beijar uma escritora/compositora no escuro”. Além disso, a música mostra o quanto ela o amava na frase: “Eu sou como a minha mãe, eu te amarei até minha respiração parar. Eu te amarei até que você chame a polícia para mim”. O refrão sonorizado para parecer que um coral canta junto com Lorde seria uma representação dos fãs ou viajei demais? Não sei, a arte está no que cada um interpreta.

Voltando a festa
Com a animada Supercut (minha preferida ao lado de Liability), Lorde parece ter jogado tudo pro alto e abandonado toda a lembrança do fim. Ela vê como forçados, alguns dos momentos felizes a dois — como o título mesmo diz, uma super compilação de tudo. Ressalta os bons momentos do relacionamento, que não se limita só a mágoas e tristezas, afinal, se você estava com alguém, ela te fez feliz. Com vocais que se sobrepõem, Lorde parece querer gritar ao mundo que viveu momentos felizes, e juntou tudo na mente. Ao mesmo tempo, parece um chamado para voltar, um pedido de reconciliação. O mesmo se pode dizer de Liability (Reprise) — que apesar de lenta — foge da sua anterior depressiva, é aquele momento na festa em que toca a baladinha, e no baile de debutantes, os casais se formam. Neste caso, Lorde e sua culpa. Ela se afasta de toda negatividade, é como se tivesse afirmando pra ela mesma que a culpa não foi e nunca será dela. Relacionamentos acabam.
Infelizmente chegamos a última música das 11 obras de arte apresentadas. Perfect Places tem cara de encerramento mesmo, apesar de parecer à primeira do álbum a ser escrita, já que ela afirma na própria, que tinha 19 anos. Podemos dizer que esse som é o fim do martírio de Lorde e todas as suas reflexões. Ela faz o retrato do jovem, seja ele moderno ou não e tudo que o permeia durante os anos. O tédio, as noites de sábado que devem ser festejadas, e é claro, a busca por esses lugares perfeitos. Você já deve ter ido algum lugar, e outro alguém já disse e insistiu “Vamos a tal lugar, lá é melhor, é perfeito”. Mas ela se pergunta: “Que porra são esses lugares perfeitos, afinal?”.
Íntimo, pessoal e ao mesmo tempo sendo a voz interior de todos, Melodrama é mais um grande trabalho da incrível neozelandesa Lorde. A cantora disponibilizou algumas faixas em seu canal do Youtube, e nas plataformas digitais como Deezer e Spotify, além da mídia física. Fácil de ouvir, fácil de sentir.
