Pair designing: cocriar para ser mais produtivo e fugir do óbvio

Um texto para quem acredita duas cabeças pensam melhor que uma e quatro mãos produzem melhor que duas


Se você nasceu antes dos anos 2000, já deve ter brincado de completar frases. A brincadeira, que já rendeu vários momentos de zoeira antes mesmo da zoeira existir, consiste em três passos principais e um único objetivo: escrever uma frase (com ou sem sentido), escondê-la dos outros participantes, deixando só a última palavra à mostra, e passar a folha para a pessoa ao lado, que deve usar o termo que finalizou sua sentença para iniciar a própria frase.

Esse é o processo. E o que ele resulta é uma história feita por muitas mãos, que, na grande maioria das vezes, não se preocupa com o sentido em si. Mas faz rir. E a graça está no processo, na brincadeira. O objetivo, afinal, é a experiência.

Mas o que isso tem a ver com o assunto do texto? A essência do pair designing (design em par) é a cocriação. E, dependendo de por quem a técnica é aplicada, pode ser também uma grande brincadeira. Mas uma brincadeira para ser levada a sério, que é capaz de melhorar a produtividade do time e a qualidade do design.

Nossos três últimos projetos foram cocriados e a aplicação da técnica nos ensinou muitas coisas. Por isso, resolvemos trazer a nossa versão do pair designing pra cá. De repente, você se identifica e acaba aplicando aí também!

Afinal, se você concorda que duas cabeças pensam melhor que uma, pode concordar também que quatro mãos produzem melhor que duas. ;)

Pair what?

O pair designing é uma técnica derivada do pair programming, normalmente utilizada por times ágeis. Como o nome já diz, são duas pessoas (designers, no caso) que criam alguma coisa juntos.

Olha a gente aí, na nossa primeira experiência em pair designing

Se você ainda não entendeu muito bem o que é a técnica, tente imaginar a seguinte cena: apenas um computador ligado, com o Sketch (ou Photoshop) aberto e duas pessoas sentadas, lado a lado, olhando para a tela. Um tempo é estipulado — aqui, definimos de 10 a 15 minutos para cada rodada. Neste período, um dos designers “comanda” o projeto. O outro, dá feedbacks em tempo real. A pessoa que está no “comando” tem total liberdade para criar ou mudar o que havia sido feito nas rodadas anteriores: formas, textos, cores e tudo mais.

Pair como?

Já deve ter dado pra perceber, mas não custa repetir: pair designing não é uma técnica rígida, como uma cláusula pétrea (fomos longe na metáfora agora, hein). Não existe receita de bolo para usá-lo, o que é algo muito positivo. A duração de cada rodada e a escolha de que parte do projeto ela será aplicada é toda do time.

A gente troca bastante ideia durante o pair. Então, no nosso caso, o ideal é que o designer “comandante” da vez vá desenhando e, ao mesmo tempo, falando sobre o que está fazendo e por que acha que aquilo ficará legal daquela forma ou por que deve ser feito de tal jeito. Enquanto isso, o outro integrante da dupla tem total liberdade para fazer críticas construtivas e sugerir melhorias.

Pair onde?

Aqui na Aerochimps, a gente tem usado muito no desenvolvimento da primeira UI de um novo projeto — depois que já discutimos e acertamos o conceito, desenvolvemos o mapa mental, o cenário de uso e temos os protótipos em baixa fidelidade mais ou menos definidos. Mas, de maneira geral, a técnica pode ser aplicada em todas as etapas. Tudo depende de como o time se entende e se organiza.

Pair por quê?

Olhando de fora, pode parecer um desperdício de RH envolver duas pessoas para fazer um trabalho que pode ser tranquilamente executado por uma. Mas depois de começar a fazer pair, não demora muito para perceber que os projetos passam a fluir muito mais rápido. Assim como toda técnica nova, a curva tempo vs rendimento pode ser um pouco maior no início. Mas a produtividade, o entendimento do projeto e troca de ideia fazem valer a pena desde o princípio.

Fazendo pair, a gente aprendeu que começar um projeto pode ser muito mais divertido e proveitoso. Porque cria uma situação de entrosamento com seu colega de trabalho, ajuda a antecipar situações e problemas e a projetar soluções mais criativas.

O pair designing traz para a prática todo o significado de cocriação, amplamente incentivada pelas metodologias ágeis. É muito legal perceber que o resultado do trabalho a quatro mãos é uma interface que não está atrelada a uma só pessoa, aos vícios individuais, manias e olhares acostumados.

Sim, porque, por mais que você seja um ótimo profissional — e a gente não duvida disso — , todos nós temos vícios, manias e preferências. Por mais que cada projeto seja diferente e, por isso, peça diferentes soluções, a gente acaba deixando passar algumas coisas porque “ah, mas eu sempre fiz assim e sempre funcionou, vou mudar pra quê?”.

É uma forma sutil de sair de uma pequena zona de conforto que a gente constrói tijolo a tijolo, dia após dia, já que dá margem para o dobro de ideias para uma mesma solução. E como isso é feito ali, no calor momento, funciona como um brainstorming: cada ideia dá origem a uma nova. É um fluxo rico e contínuo.

Existem mais vantagens sobre o pair?

Existem sim, senhor. Em curto e longo prazo. Olha só:

Curto prazo

Além dos ganhos para o projeto, os resultados da técnica respingam benefícios no restante do time. Como houve total envolvimento dos dois designer no processo de criação, ambos adquirem um conhecimento muito maior sobre o que foi feito. Esse conhecimento é ideal para a continuação do projeto, seja para desenhar mais telas com comportamento coerentes — de forma independente ou em dupla — e até para explicar ao time de desenvolvimento o que precisa ser feito.

Se você é uma pessoa que se distrai facilmente, que toda vez que encontra uma dificuldade ou esquece o que ia fazer, vai rolar a barra infinita do feed de notícias do Facebook, o pair pode te ajudar a manter o foco. Durante a prática, o Facebook e o Whatsapp ficam em segundo plano. Aliás, você esquece que eles e qualquer outra coisa ao redor existem.

No pair, o tempo é muito bem aproveitado. Como o input de ideias é muito maior, às vezes você gera duas, três, sete alternativas que, normalmente, demoraria quase o dobro de tempo para pensar ou pôr em prática. Ou seja: mais qualidade, mais produtividade e mais rapidez!

Longo prazo

Ter dois designers trabalhando em um ambiente colaborativo traz consequências positivas também a longo prazo, pois:

  • Minimiza a tendência de ~especialização~ dos designers (o cara que é especialista em mobile, a mina que passou anos trabalhando apenas com SaaS), estimulando os profissionais a transitarem mais livremente entre esses conhecimentos;
  • Por falar em conhecimento, a possibilidade de compartilhar o que você sabe e aprender com a outra pessoa é o maior legado dessa técnica. Afinal, o conhecimento sempre fica, mesmo que você passe a trabalhar em outro lugar, mesmo que você mude de par;
  • Ajuda no entrosamento do time. As pessoas aprendem a se conhecer melhor, se abrem mais ao novo, mudam um pouco o jeito de fazer as coisas.

Conselho de amigo

Pode ser que, ao trabalhar com o mesmo par por um longo período de tempo (Pair Married), a dupla acabe ficando presa a um fluxo específico. Se isso acontecer, ou até antes que aconteça, é interessante estimular o rodízio de pares. Assim, os benefícios listados acima se mantém sempre ativos e o aprendizado tende a ser ainda mais enriquecedor.

Conclusão

O UI design está cada vez mais acompanhando o desenvolvimento ágil. Adaptação que, particularmente, achamos ótima. Como a gente trabalha com desenvolvimento de aplicativos, interações e aquela coisa toda que está sujeita a mudar a qualquer momento, não faz sentido tratar este tipo design como uma criação puramente artística, estática e documentada. É preciso liberdade, fluidez e comportamento de time. Não existe o meu, tudo é nosso.


Dicas de leitura

Gostou da técnica? Já conhecia? Conta pra gente o que achou do assunto, fale um pouquinho da sua experiência com o pair designing, sugira outras técnicas que você acha interessante! Aproveita que estamos falando de cocriação, e compartilha com a gente a sua história! ;)

Se você não está a fim de falar, mas quer continuar lendo sobre o assunto, pode gostar:

  • Deste artigo, em inglês, sobre o que é pair design e quais as principais vantagens;
  • Do review que fizemos sobre o Taiga, melhor aplicativo do momento para gerenciamento de projetos totalmente voltado para times ágeis e;
  • Já que estamos falando sobre algo em comum entre designers e programadores, o texto “Designers precisam mesmo saber programar?”.

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