A dor de perder alguém
Ou como eu estou sem minha mãe
Enquanto eu escrevo isso, faz exatamente um dia que eu enterrei minha mãe. Foram quase 40 dias de luta dela em um hospital, e ela finalmente descansou. E a única coisa que posso dizer sobre isso é que dói. E dói demais.
Desde o momento em que recebi a notícia, minha vida parece algo completamente diferente. Parece um tanto mais vazia, sabendo que nunca mais vou chegar em casa e ver minha mãe sentada no sofá, com o computador no colo, me pedindo ajuda. Eu nunca mais vou comer o bolo que ela faz. Eu nunca mais vou almoçar com ela. E isso dói.
O pior é que não dói por ela ter ido embora. Quanto a isso eu já estava preparado, e desde pequeno eu sempre entendi que a morte é parte da vida. O que dói mesmo é saber que eu não vou mais compartilhar momentos bons com ela. Não vou mais ver ela ficar feliz por mim. Não vou mais ouvir seus conselhos, que tanto me irritavam antes.
O que me dói é eu ter tratado a ida dela ao hospital como algo tão banal que eu não me levantei da cama pra dar um último abraço nela. O que me dói é termos discutido antes de ela ter ido. O que me dói é o fato de eu não lembrar da voz da minha própria mãe.
Eu sempre tive minha mãe como algo tão certo em minha vida que eu não parei um momento sequer pra tentar guardar algum detalhe dela na minha mente. O olhar de nervoso dela por cima dos óculos. A maneira com que ela mexia no pingentinho carregado no pescoço. A maneira com que ela penteava os cabelos. Tudo isso logo vai virar uma lembrança apagada. E é isso, ISSO é que dói.
Eu não disse um último eu te amo. Eu não disse um até logo. Mas talvez isso seja algo bom, porque me mantém com a sensação de que ela não se foi, não definitivamente. Que ela ainda tá aqui comigo de certa forma, cuidando de mim. Me esperando.
Eu sei que tudo isso, ao final das contas, foi o melhor pra ela, pra ela não viver o resto dos seus dias sendo algo que ela não queria ser, um “estorvo”. Mas nada disso, NADA, alivia a dor de não ter ela mais do meu lado pra me incomodar, me xingar, me abraçar e me aconselhar. Amadurecer assim tão bruscamente é algo que machuca e que deixa marcas. Mas eu sei que ela não iria gostar de me ver triste e jogado pelos cantos. Ela não queria ninguém triste ou deprimido por causa dela. Ela preferiu nos deixar sem sua presença a nos deixar com uma lembrança amarga do que ela não poderia mais ser.
Se você ainda tem sua mãe por perto, e isso vai soar clichê, abrace-a o quanto puder. Brinque com ela, incomode ela sempre que puder. Lembre-se dos pequenos detalhes. De como ela gosta de mexer no cabelo, de como ela ajeita os óculos, da tosse dela, do sorriso. Lembre-se de qualquer coisa, e use isso como um amuleto quando ela não estiver por perto. E, principalmente, faça o possível para deixar sua mãe explodindo de orgulho por você. Você é o bem mais precioso dela, e faça com que ela se lembre disso dia após dia. Ela merece.
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