A relação da comédia com a música e a indústria fonográfica


A forma de manifestação artística mais antiga — por isso chamada de 1ª arte — e talvez a mais popular de todas é a música. Ela está tão presente o tempo todo em nossas vidas, que dificilmente se vai a algum lugar nas grandes cidades sem encontrar uma pessoa com seus fones de ouvido escutando as músicas de sua preferência. Infelizmente ainda encontramos também aqueles que insistem em ligar seus dispositivos no último volume do modo alto-falante, só pra ter certeza de que todo mundo vai conhecer seu péssimo gosto musical.

A utilização de recursos humorísticos na composição de canções populares sempre foi bastante comum. Meu objetivo com esse texto não é apontar esses casos, e sim analisar superficialmente dentro de um contexto histórico, parte do conteúdo de áudio produzido com intenção humorística clara. Quando digo análise superficial é por que sei que faltarão alguns exemplos importantes, e que muitos dos que serão citados merecem uma análise à parte. Prometo que farei algumas num futuro próximo.

A relação da indústria fonográfica americana com a comédia já existe desde o fim do século XIX, início do século XX, onde já existiam gravações de discos que continham apresentações de grupos teatrais, esquetes, histórias, etc. Como um dos primeiros artistas, Cal Stewart, nesta gravação de 1898:

Nos anos seguintes a notoriedade desse tipo de gravação aumentou, e ficou cada vez mais comum os comediantes stand up registrarem suas rotinas, conquistando uma popularidade tão grande e sólida a ponto de existir até hoje uma lista específica na Billboard e uma categoria na premiação Grammy.

No Brasil as gravadoras passaram a dar uma atenção maior para o setor no final dos anos 50, depois do sucesso de vendas do LP “Eu sou o espetáculo” de José Vasconcellos, que segundo a Wikipédia foi o disco de humor de maior duração já gravado no Brasil, com 55 minutos. Depois disso passou a ser comum que comediantes mais conhecidos do grande público lançassem LPs de comédia. Ary Toledo, Juca Chaves, Dercy Gonçalves, Chico Anysio, Costinha, entre outros, são exemplos de comediantes que já lançaram seus discos de humor.

Na década de 70, Chico Anysio e seu amigo e Arnaud Rodrigues tiveram bastante sucesso comercial ao lançar o disco “Caetano e os Novos Baianos”, uma mistura de paródia e homenagem ao movimento tropicalista e um pouco de crítica ao governo ditatorial, tudo muito bem produzido musicalmente. A repercussão foi tão boa que fez com eles lançassem uma continuação do álbum, além de outros projetos parecidos.

No fim dessa mesma década, nos EUA surgia um dos fenômenos da mistura comédia/música que continua na ativa até hoje: Weird Al Yankovic, que ganhou notoriedade por fazer paródias de músicas e videoclipes que faziam sucesso na cultura pop. Weird Al utiliza essa fórmula desde então, preenchendo seus álbuns com essas paródias e algumas canções originais.

Parodiar músicas de sucesso também se tornou bastante comum aqui no Brasil. No fim dos anos 90 existiu até um programa do SBT apresentado pelo Moacyr Franco chamado Concurso de Paródias, e não são raras as vezes em que vemos paródias musicais apresentadas nos programas de televisão ou na internet por grupos que fazem vídeos pro Youtube, como o pessoal do canal Galo Frito e tantos outros.

Os anos 90 no Brasil foram marcados pelo relativo sucesso de comediantes nordestinos como Falcão, ou aqueles que travestidos de personagens caricatos lançavam discos com compilações de piadas de domínio público.

Em 1995 foi lançado o disco “Os 3 malandros in Concert”, que considero o Magnum Opus da linha humorística do samba, por reunir os três melhores da área: Bezerra da Silva, Moreira da Silva e Dicró.

Uma das poucas exceções de artistas dessa linha que fizeram muito sucesso no mainstream brasileiro foram os Mamonas Assassinas, que durante sua curta carreira conseguiram fazer com que milhares de crianças por todo o país (inclusive eu, com apenas 5 anos) cantassem uma canção em que reclamavam da experiência de ter participado de uma suruba frustrante. Brilhante!

Nos anos 2000 a banda de heavy metal Massacration, criada pelo grupo Hermes e Renato, também conseguiu certo destaque no cenário nacional, apesar de falar para um público bastante específico. Tudo isso já com a ajuda da internet e também da visibilidade e credibilidade que a MTV Brasil um dia possuiu.

Atualmente com a liberdade trazida pela internet quase todo conteúdo musical humorístico criado é distribuído por aqui mesmo, na maioria das vezes pelo Youtube. Um dos maiores fenômenos da era pós Youtube e talvez a mais bem sucedida mistura entre música e comédia nos últimos anos é o grupo de humor americano The Lonely Island. Formado pelos comediantes Andy Samberg, Jorma Taccone e Akiva Schaffer, o grupo lançou em 2009 seu primeiro álbum (Incredibad), encorajados pelo sucesso adquirido com os esquetes musicais que faziam no programa Saturday Night Live. Desde então já lançaram mais dois álbuns: Turtleneck & Chain e The Wack Album, conseguindo angariar uma legião de fãs capaz de transformar rapidamente em viral algumas de suas músicas ou frases proferidas nessas músicas.

No início da primeira faixa do seu terceiro álbum, ouvimos uma voz feminina dizendo: “If you are under 30 and you’re totally cool, then you absolutely know these guys” que pode ser traduzido como “Se você tem menos de 30 anos e é alguém muito legal, então com certeza conhece esses caras”. Tamanha é a popularidade do grupo que apesar de ser dita em tom de piada, a afirmação não está muito distante da realidade, pelo menos na internet.

Existem outros bons exemplos atuais desse tipo de combinação: o australiano Tim Minchin; os caras do Flight of the Conchords, que já tiveram até uma série na HBO; Jack Black com o Tenacious D; Chris Hardwick e Mike Phirman com seu duo Hard ‘n Phirm; Bo Burnham; Reggie Watts, e há também os casos de comediantes que se aventuram no mundo da música sem necessariamente tender pro lado humorístico, como Steve Martin; Conan O’Brien; Tim Heidecker do Tim and Eric Awesome Show, Great Job!, e acho bom parar por aqui senão daqui a pouco isso vira um name dropping imenso. Acreditem, a lista é grande.

Música e comédia de certa maneira necessitam de elementos parecidos — entrega emocional, timing correto — para que façam diferença e funcionem. Como disse no início do texto minha intenção era mostrar alguns casos de artistas que utilizam e utilizavam esses recursos em suas obras, o que em minha opinião, pela dificuldade acaba levando o entretenimento para um nível acima.

Originally published at sobrecomedia.com on October 7, 2013.

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