Andy Kaufman

O comediante mais diferente que já existiu


Qualquer produto de comédia que nos deparamos por aí podem ser divididos em duas partes: tema e elemento humorístico (eu chamo assim). Entende-se por tema o assunto que este produto está abordando: qualquer acontecimento, estereótipo, etc. Já o elemento humorístico é de que forma este assunto está sendo abordado: se é por meio de uma paródia, caracterização, se é agressivo, irônico, etc.

Alguns comediantes têm claramente definidos o que são seus temas e elementos humorísticos. E quanto mais rasos forem estes, mais previsíveis ficam para as pessoas. Isto acontece muito com aqueles famosos programas de sábado à noite ou nas praças que são nossas (inclusive muito nossas), sitcoms, e com certos comediantes super polêmicos. A previsibilidade destes nos fazem não nos interessar mais. Fica chato, fica corriqueiro. Porque a comédia e a mudança de humor é catalisada pela surpresa, na maioria das vezes.

E com todo esse papo de elemento humorístico, tema, caracterização e previsibilidade eu começo a ver as coisas de Andy Kaufman. Quem é esse cara? O que ele faz? Onde ele vive? Em que época é a sua piracema? Eu fazia estas perguntas a cada vídeo que eu assistia.

Podemos dizer que Andy Kaufman foi um comediante diferente. Não porque ele era estranho ou algo assim, mas porque seus elementos humorísticos eram (e ainda são) diferentes dos que nós estamos acostumados a ver por aí. O que significa um cara chegar num talk show e responder as respostas corretamente sem nenhuma gracinha de comediante? Ou seu stand up ser basicamente ele contando a história da vida dele sem punchlines e além de tudo sem ser deadpan (o que geralmente se vê quando comediantes contam coisas trágicas de sua própria vida)? Uma coisa que notei nas aparições em shows, stand ups, e outras apresentações é que ele também tem alguns elementos humorísticos definidos. O primeiro é a imprevisibilidade. A imprevisibilidade dele depois de um tempo era algo esperado. Ninguém sabia o que ia acontecer quando Kaufman entrava em cena. O segundo elemento humorístico, ao meu ver, era aquela tensão que as pessoas têm de dar risada em certas circunstâncias. Nós brasileiros sabemos isso como ninguém quando vamos a um show de stand up: precisamos rir. E essa pressão faz com que a gente dê risada sem saber o porquê. Tosses, olhares vesgos, ou até aquele silêncio constrangedor nos surpreendem e desencadeiam risadas.

Além destas aparições, Andy trabalhou em personagens mais característicos e porque não dizer previsíveis como Tony Clifton ou o estrangeiro Latka. Ambos com traços marcantes e com diferentes níveis de interação com o público. Clifton, que é um sósia de Elvis Presley, por exemplo, em suas aparições não mede palavras para xingar o público ou tirar sarro de mulheres. O que geralmente fazia o público se morder de raiva.

O fato é que saber trabalhar com estas circunstâncias foi o que fez Andy Kaufman grande, e muitas vezes prolixo para a maioria. Ele entendia que o humor vinha diretamente de surpresas e das mudanças repentinas de humor. Por isso os altos e baixos em suas apresentações.

Por último, e o mais importante, Andy levava a sua vida como forma de comédia. Ele era da zoeira, e fazia com que todos ficassem intimidados por sua imprevisibilidade mesmo quando ele não estava encarnado em um papel. Mas ele sempre estava atuando como Andy Kaufman. A prova disso é que muitos fãs acreditavam que a morte dele em 1984 tinha sido algo forçado e que ele voltaria dizendo que era uma grande pegadinha. Não voltou.

Originally published at sobrecomedia.com on August 1, 2012.