O Círculo de Dan Harmon


Nota: Esse texto não é exatamente sobre comédia, mas sobre o criador de Community, Dan Harmon, e a fórmula que ele construiu para contar histórias.

Depois de ler o que o João escreveu sobre Community acredito que você já tenha se interessado em assistir algum episódio. Se ainda não leu e não conhece a série, leia e depois volte pra cá.

Community se destaca entre as sitcoms atuais por ser muito bem escrita, por conseguir explorar o desenvolvimento dos personagens sem perder a qualidade do humor, e por não ter medo de experimentar diferentes gêneros narrativos. Nada disso é fruto do acaso, e a maior parte do sucesso de Community deve ser creditada ao seu criador: Dan Harmon.

Dan Harmon criou em 2003 (sempre bom lembrar que nessa época ainda não havia YouTube!) junto com seu amigo Rob Schrab o site Channel101, um espaço destinado a roteiristas e comediantes iniciantes publicarem vídeos de baixo orçamento, e para a discussão sobre criação, produção e elaboração desses vídeos. Nos fóruns do Channel101 Harmon distribuía conselhos aos aspirantes, e foi onde ele publicou sua teoria para construção narrativa chamada: O Círculo de Harmon (não seria essa a tradução mais correta, mas é como vou chamá-la daqui em diante).

Inspirado pelo trabalho do professor Joseph Campbell em “O Herói de mil faces”, onde Campbell apresenta o conceito de composição narrativa cíclica presente nas histórias de heróis mitológicos, Harmon desenvolveu uma teoria estrutural de 8 etapas que, segundo ele, se aplica praticamente a qualquer história bem construída, independentemente do estilo de narrativa.

As 8 etapas que completam o círculo são as seguintes:

1. O personagem está em sua zona de conforto. Esse é o momento em que o protagonista é apresentado na história, de um jeito que o público possa se identificar com a situação em que ele foi inserido.

2. Mas ele precisa de alguma coisa. Nessa parte o protagonista percebe que o mundo não é perfeito e que as coisas precisam de mudança. Ou então lhe é apresentada a ideia de que as coisas podem ser diferentes ou melhores. É o ponto que Joseph Campbell chama de “Chamado para a aventura”. Pode existir uma rejeição inicial desse chamado por parte do protagonista, muitas pessoas não estão dispostas a sair de sua zona de conforto, e a inserção desse recurso ajuda novamente a fazer com que parte do público se identifique com essa condição.

3. Ele se depara com uma situação a que não está familiarizado. Esse ponto é chamado de “Cruzando a fronteira”. O protagonista estava em determinada situação, e agora a situação muda. Novos horizontes lhe são apresentados. No campo do roteiro audiovisual é chamado de “plot point”.

4. Adapta-se a essa situação. É o momento em que o protagonista é posto à prova, e então é forçado a procurar por recursos que o auxiliem a se adaptar a essa nova situação.

5. Consegue o que queria. A fase de adaptação anterior foi necessária para que o protagonista chegasse a esse momento. É nesse ponto em que ele encontra o que estava precisando ou procurando, mesmo que ainda não tenha consciência disso.

6. Paga um preço por isso. Depois de ter se adaptado às novas circunstâncias, o protagonista passa por um novo tipo de provação, mas agora essa provação irá prepará-lo para sua apoteose, e também para o retorno ao seu mundo normal.

7. Retorna a uma situação a que está familiarizado. Nesse momento somos apresentados à ideia de que o protagonista tem o controle da situação, e que o novo universo que até então era desconhecido, agora é o seu universo. É chamado por Campbell de “Caminho de Retorno da Fronteira”.

8. Mudou ou está pronto para aceitar a mudança de alguma maneira. Agora como senhor da situação e com consciência da própria responsabilidade pelas mudanças realizadas, o protagonista está pronto para aceitar esse mundo que lhe foi apresentado.

Toda a teoria de Dan Harmon está bem melhor explicada e exemplificada aqui (infelizmente os tópicos do fórum do site Channel101 não funcionam mais).

O Círculo de Harmon consegue ilustrar de maneira simples que o desenvolvimento de um bom enredo deve estar ligado diretamente ao crescimento dos personagens. Uma vez estabelecidas essas conexões estruturais, os roteiristas estão livres criativamente para explorar diferentes tipos de narrativas e elementos na busca do humor.

Em 2007 o canal VH1 exibiu o show Acceptable.Tv, criado por Harmon e seu amigo Rob Schrab, que continha mini séries/esquetes criadas pelo pessoal do Channel101, e sempre uma esquete criada por algum de seus espectadores. No episódio inicial, Dan Harmon e Jack Black aparecem em uma série de pequenos vídeos com dicas àqueles que pretendiam enviar seus vídeos para serem exibidos no programa. A primeira dessas dicas é sobre a importância da estrutura na formulação das histórias, e traz uma pequena introdução ao Círculo de Harmon. Esse episódio em particular está disponível de graça na Amazon e no iTunes (não consegui acessar o da Amazon por causa das restrições geográficas, o do iTunes funcionou normal).

Antes que você comece a procurar as exceções (e eu sei que você vai), lembre-se que existem exceções pra tudo. Uma história pode ser muito bem contada se algum desses passos for ignorado. A questão é que, se não houver alguma semelhança a esta estrutura, o que está sendo contado se torna irreconhecível como história.

Voltando a falar sobre Community, nesse artigo da Wired de 2011 o autor do texto acompanha Dan Harmon indo à loucura enquanto escreve o roteiro de um episódio da sitcom e se esforça para garantir que todos os personagens e histórias paralelas de suas criações se encaixem de alguma forma no padrão que criou. Harmon também confessa que analisa todo filme e série que assiste sob o prisma de sua teoria: “Não consigo deixar de ver esse círculo. Está tatuado no meu cérebro”.

Dan Harmon na minha opinião é uma das pessoas mais admiráveis nessa indústria, não só por demonstrar uma paixão imensa pelo que faz, mas também por estar sempre disposto a compartilhar seu conhecimento e discutir detalhes do seu ofício na internet com aqueles que têm interesse, como podemos ver em seu Tumblr ou em seu Twitter.

Decidi exemplificar de uma maneira bem sucinta a fórmula de Dan Harmon, pra servir meio como validação da teoria. Escolhi um episódio aleatório — Laundry Woes / Silver Dude, que na verdade foi o único que encontrei de graça no iTunes — de um dos meus programas favoritos na atualidade, o desenho Apenas um Show.

1 — Alguém.

O protagonista da história, Mordecai, está deprimido por que sua paixão, Margaret, não aceitou seu pedido de namoro e ainda deixou a cidade para estudar numa faculdade distante.

2 — Esse alguém precisa de alguma coisa.

Mordecai vai à lavanderia e encontra um suéter que Margaret esqueceu entre suas roupas. Nosso protagonista decide então que precisa entregar o agasalho à Margaret. É o nosso chamado para a aventura.

3 — Entra numa nova situação.

Acompanhado de Rigby, seu melhor amigo, Mordecai começa a viagem para a cidade onde Margaret está estudando. É o início da aventura!

4 — Se adaptando a situação.

A jornada é longa, pois a cidade também é muito longe. Mordecai enfrenta o cansaço e as tentativas de Rigby de desmotivá-lo da ideia de entregar o suéter à Margaret.

5 — Consegue o que queria.

Depois de não suportar mais as opiniões de seu amigo, Mordecai o expulsa do carro, enfrenta suas alucinações, mas consegue chegar ao campus da faculdade de Margaret.

6 — Paga um preço por isso.

Chegando ao seu objetivo, Mordecai percebe que havia perdido um pouco de sua sanidade e começa a ver seu romance com Margareth sob uma nova perspectiva.

7 — Volta para onde tudo começou.

Ao ver Margareth feliz com seus novos amigos, Mordecai compreende que ela não pertence mais ao seu mundo. Nosso protagonista voltou à situação inicial: sozinho sem Margaret.

8 — Mudou.

Mordecai aceita a ideia de que precisa seguir em frente e viver sem sua amada.

O episódio Laundry Woes / Silver Dude é o primeiro da nova temporada de Apenas um Show, e só deve passar no Cartoon Network brasileiro em 2014.

“Se isso tudo é mentira, como eu fui capaz de fazer 10 episódios de um show chamado “Laser de peidos“?” — Dan Harmon

Originally published at sobrecomedia.com on September 11, 2013.

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