Rapidíssima análise: Porta dos Fundos e a inversão da dinâmica de conteúdo


1 ano de Porta dos Fundos: o canal divulgado e protagonizado pelo pesado nome de Antônio Tabet, na blogosfera brasileira, arrecadou telespectadores com uma velocidade e fidelidade como poucos outros conseguiram aqui no Brasil. Atingindo o espantoso número de 10 milhões de visualizações em seus mais famosos vídeos, resta pouco a comentar sobre a popularidade do canal, que já produziu paralelamente materiais como um livro e camisetas e coisas do tipo. Não é exagero comentar que o Porta dos Fundos é um marco importante na história do humor da internet brasileira.

Isso é visível também pela ascensão das carreiras dos atores que encarnam os personagens dos sketches: recentemente, um texto publicado no site do YouPix comenta sobre o desgaste da imagem de Fabio Porchat, cujo rosto tornou-se figura comum do cotidiano da mídia. Várias marcas adotaram o humorista como garoto-propaganda e isso o colocou em uma posição de “superexposição” no meio publicitário.

Ok, isso todos já sabemos. O assunto desse drops rápido, entretanto, é tangente a essa locomoção de conteúdo acarretada pelo Porta dos Fundos: o que o canal conseguiu fazer, assim como alguns “memes” acidentalmente fizeram, foi inverter a ordem da dinâmica da informação na internet.

Basicamente, o Porta dos Fundos surgiu no youtube porque a internet se tornou um ambiente muito mais favorável do que a TV aberta para a adoção do humor hiperbólico, “fuck the logic” ou apenas politicamente incorreto que o canal utiliza. Isso é bem óbvio, visto que canais como a MTV, que também faziam uso disso, agora enfrentam sérios problemas para se manterem de pé. Em suma, o que a internet produz, humoristicamente falando, se comporta muito bem na internet, e pronto.

O que a televisão tem tentado (e de forma possivelmente constrangedora, as vezes) é puxar para o seu meio as mensagens que aqui circulam de maneira viral, afim de atrair a atenção das pessoas pela estratégia da piscadela de olho italiana: você sabe que é cúmplice nisso porque já deu risada desse vídeo do youtube que estamos usando para divulgar nosso produto.

Entretanto, antes das emissoras perceberem isso, a dinâmica sempre foi oposta: o que é engraçado ou tem potencial para virar piada, é puxado da televisão ou do “mundo real” para a internet. O último e mais marcante exemplo é a triste história do pão no céu do Didi. A massa de internautas sempre esteve tão acostumada em transformar em piada as coisas que acontecem fora da web que quando essa lógica é virada de cabeça-para baixo, o contexto mostra-se praticamente hostil e facilmente cansativo. Existem alguns fatores que caracterizam esse cenário como um todo, tentarei mapeá-los rapidamente:

1. O humor na internet é o comum da internet. A rede mundial de computadores, como é acessível hoje, apresenta-se repleta de conteúdo humorístico a dois cliques de distância: blogs de humor, image boards, videos, vines etc etc. A partir do momento em que algo surge como intencionalmente engraçado na internet, a mudança de contexto desse mesmo conteúdo pode acarretar uma novidade para o público não-acostumado — enquanto os demais ficam com a sensação de repetição ou de fata morgana: aquilo que estamos vendo não é o real, é uma cópia de algo que antes nos fazia rir, mas que agora é apresentado de forma requentada, com menos sabor.

2. A maioria das pessoas ainda não incorporou a internet ao seu dia-a-dia. O brasileiro tem a fama de ser o povo que passa mais tempo on-line, mas isso de fato não é abrangente à maior parte da população. Isso acaba transformando o conteúdo que se cria aqui em uma espécie de incubadora, encabeçada pelos que tem poder para lançar às demais pessoas aquilo que tem potencial para gerar lucro. Provavelmente deve funcionar assim no resto do mundo também, mas aqui isso fica facilmente evidenciado pelo fato de termos formas de humor tão diferentes entre a TV aberta e as bizarrices da internet. É um choque de dois mundos percebido apenas pelo lado de cá.

3. Há um catch envolvendo o aproveitamento do humor pelo marketing. Por um lado, ele gera receita e é um ótimo ganha-pão para a produção criativa. Entretanto, por outro, ele pode desembocar em um descrédito por parte dos fãs que estão acostumados com ecletismo e a sagacidade do Porta. Em um dos sketches produzidos pela Fiat, “Líder de Torcida”, o enredo prossegue até que eventualmente surge a marca da empresa contratante. Isso de forma alguma o deixa menos engraçado, inclusive o número de visualizações do vídeo (8 milhões e um punhado) demonstra que ele de segue um padrão “Porta dos Fundos” tanto quanto qualquer outro do canal. A tese é que, dentre essas milhões de pessoas que assistiram-no, encontram-se várias que não necessariamente são o público-alvo da Fiat. A sensação que fica, graças ao nosso contexto midiátio contemporâneo, é a de uma leve dissonância cognitiva: estou assistindo humor na internet para me divertir e “esvaziar” a cabeça ou para receber sugestões de compra?

O avatar do twitter do Gregório Duvivier, um dos cabeças do projeto, é o Eric Idle, outrora um dos membros do Monty Python. O Porta dos Fundos nunca escondeu suas influências e seu intuito como veículo de humor, e, para nossa sorte como audiência, eles fazem muito bem seu trabalho e sabem aproveitar o ótimo terreno que possuem na internet. Resta torcer para que a ideologia interna e poder comunicativo do grupo permaneçam firmes e inabaladas perante as tentações do marketing.


Originalmente publicado em sobrecomedia.com em 27/09/2013.