Sobre a comédia do insulto, roasts e Jeff Ross

Insult Comedy é um estilo de comédia muito popular nos EUA onde os comediantes passam a maior parte do tempo tirando sarro e insultando parte do público presente no local onde estão se apresentando, ou fazendo o mesmo com alguma pessoa em específico, como acontece em sua derivação mais conhecida: os roasts.

Essa esquete do programa Key & Peele do Comedy Central, onde um insult comic se vê obrigado a fazer piadas com um membro da plateia que é negro, gay, está numa cadeira de rodas, fala com voz de robô por auxílio de aparelhos, tem problemas de saúde e boa parte do rosto queimado é incrível e eu precisava colocá-la aqui.

Roasts são uma tradição bastante antiga por lá. Os eventos mais conhecidos desse tipo são os promovidos desde os anos 50 pelo New York Friars Club (respeitado clube particular que tem entre seus membros diversos atores, comediantes e outras pessoas famosas), os que o Dean Martin apresentava em seu The Dean Martin Celebrity Roast nos anos 70 e 80, e mais recentemente os promovidos pelo Comedy Central. Aqui no Brasil esse estilo ganhou um pouco mais de força depois que o comediante Diogo Portugal fez suas versões e as chamou de “Fritada”, conseguindo até que algumas edições fossem exibidas no canal Multishow, ainda no ano passado.

Como bem disse o Gus no texto sobre o roast do James Franco, roasts são difíceis de explicar, mas fazem sentido quando se vê um acontecendo, pois são um tributo bem humorado ao homenageado, diferentemente de outras solenidades mais sérias onde a rasgação de seda com o prestigiado faz com que os convidados desejem que o evento termine o quanto antes.

Alguns desses roasts recentes já conseguiram proporcionar momentos memoráveis por piadas marcantes, como a “The Aristocrats” que o Gilbert Gottfried contou durante o Roast do Hugh Heffner em 2001 (e que inspirou o filme de mesmo nome dirigido por Paul Provenza em 2005), outros por momentos de constrangimento como esse aqui, onde o Jamie Foxx atrapalha brilhantemente o sofrível set do comediante Doug Williams, que parecia não ter a menor noção de como um roast funciona.

Por causa de sua popularidade os roasts também se tornaram excelentes oportunidades para pra dar visibilidade à novos talentos. Anthony Jeselnik, Greg Giraldo e Amy Shummer, são exemplos recentes de bons comediantes que conseguiram alavancar suas carreiras rapidamente após boas apresentações nos roasts.

Nenhum comediante se destacou mais nesse gênero nos últimos do que Jeff Ross, e não foi à toa que ele conseguiu o título de Roastmaster General.

Eu consigo te entender perfeitamente se você acha que não existe graça em insultar as pessoas. Fora de um contexto apropriado insultos geralmente não são engraçados. Em 2010 Jeff Ross lançou o livro I Only Roast the Ones I Love: How to Bust Balls Without Burning Bridges, onde explica alguns detalhes sobre esse tipo de comédia que podem te fazer mudar de ideia.

Antes de encontrar a vocação pra insult comic e se tornar o Roastmaster General Jeff Ross teve uma modesta carreira no stand up tradicional. Boa parte do livro é autobiográfica, onde Ross conta várias histórias do início de sua carreira, quando tentava achar espaço se apresentando com outros comediantes iniciantes e que se tornaram amigos pessoais, como Dave Chappele e Sarah Silverman. Ou o apoio que teve de comediantes mais experientes como Milton Berle e Buddy Hackett.

Uma das histórias que eu mais achei interessante foi a do comediante Charles Barnett, que enchia as praças de Nova York com suas apresentações de humor. Barnett conseguiu tanta atenção com seu material que chegou a ser contratado pelo Saturday Night Live, mas foi dispensado assim que descobriram que ele não sabia ler. No lugar de Barnett contrataram o Eddie Murphy.

A outra parte do livro traz excelentes conselhos praqueles que querem se aventurar na arte de insultar pessoas: a pesquisa e a preparação necessárias para escrever piadas no estilo roast, como organizar esse tipo de evento, como insultar alguém sem ferir seus sentimentos, como se preparar pra aguentar ou os insultos que irá receber ou quando suas piadas não funcionarem, entre outros.

I Only Roast the Ones I Love é uma leitura boa e engraçada. Jeff Ross consegue mostrar que a comédia do insulto tem tanta importância quanto o stand up, esquetes, improvisação, ou qualquer outro subgênero da comédia.

Existem comediantes que conseguiram sustentar boa parte de suas carreiras se baseando nesse estilo. Bons exemplos disso são Don Rickles, Lisa Lampanelli e o próprio Jeff Ross. Insultar pessoas pode parecer simples, mas é bastante complicado se manter engraçado e original fazendo isso o tempo todo.

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Eduardo Branco tem 23 anos, é carioca e flamenguista. Entusiasta do humor e da comédia, tem dificuldades pra contar uma simples piada de papagaios. Considera Millôr o maior humorista que o Brasil já teve e odeia falar de si mesmo na 1ª pessoa. Não entende de gramática e às vezes confunde a 1ª com a 3ª pessoa. Textos | Facebook | Twitter

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Originally published at sobrecomedia.com on February 6, 2014.

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