Sobre How I Met Your Mother, finales e a não-jornada do herói

O final de uma série sempre é um momento com potencial imenso para irritar os fãs. Por mais que você saiba que é apenas uma série de TV, por mais que você considere que o importante é a jornada, mesmo que você entenda que decisões criativas não podem sempre agradar a todos, existe sempre um lado da sua mente que pensa diferente. Que não mede o mérito artístico mas sim o seu envolvimento emocional, que não quer discutir a melhor solução narrativa mas sim a mais recompensadora depois de anos acompanhando o programa, que não pensa naquilo como apenas o fim de uma atração televisiva mas sim como, vamos dizer, o orgasmo narrativo que deveria vir após cinco ou dez anos de sexo tântrico criativo com uma comédia semanal de vinte minutos.

Vocês podem perceber que escrevi apenas um parágrafo sobre finales e já comecei a dizer coisas esquisitas. Como eu disse, é um assunto que mexe com as pessoas.

Então quando How I Met Your Mother chegou ao final ontem, após uma jornada de nove anos que envolveu casamentos, divórcios, trompas azuis e uma participação da Katy Perry, eu admito que tive opiniões bem vocais e extremas sobre o final, compartilhadas em caixa alta com amigos em chats e talvez, se eu tivesse bebido algumas cervejas, possivelmente gritadas pelas janelas para uma atônita vizinhança do bairro do Flamengo que iria se perguntar como eu gasto meu tempo com coisas assim mas ainda não terminei a primeira temporada de House Of Cards.

Enquanto fã me irritei com a morte da mãe, me frustrei porque jogaram anos de desenvolvimentos de personagens fora, achei absurdo o fato de que toda a narrativa, que deveria ser sobre a vida do Ted com a esposa, ser na verdade ele tentando justificar para os filhos o fato de que mesmo após décadas e diversas rejeições ele continuava interessado na Robin. Me senti enganado com todas as idas e vindas dos relacionamentos do Barney, magoado com a morte fora de cena da mãe, fiz uma piada envolvendo o seriado e a novela Barriga de Aluguel e postei no twitter. Eu me irritei um pouco.

Mas o que exatamente me irritou tanto no final para que eu não apenas comparasse os dois episódios de ontem ao final de Lost mas também a decisão de um amigo meu, durante o carnaval de 2006, de beber benzina diretamente da latinha esperando ter com isso um barato? Bem, pensando com mais calma eu acho que o grande problema foi que HIMYM conseguiu ao mesmo tempo respeitar demais e não respeitar nem um pouco a própria jornada.

Respeitar demais porque aparentemente o final que vimos ontem havia sido decidido pelos criadores ainda em 2006: Ted ficaria com Robin. Não se sabia quanto tempo a série ainda duraria mas as cenas com os filhos já estavam gravadas e a ideia central era mesmo que Robin não fosse a mãe, mas que fosse com ela que Ted terminasse. E os criadores se mantiveram fiéis a esse conceito, mesmo quando a série se tornou um sucesso, durou mais do que eles esperavam, e foi preciso começar a realizar peripécias criativas das mais absurdas para manter Ted e Robin longe um do outro e nos fazer acreditar que eles terminariam com outros parceiros. A mãe seria um momento na vida do Ted mas a participação dela seria curta, nós não nos apegaríamos, todos vibrariam quando Ted e Robin voltassem. Mas aí aconteceram setes coisas chamadas “outras temporadas” e bem, o cenário mudou.

Mudou porque o casal Ted/Robin se mostrou menos interessante do que Barney/Robin, mudou porque após oito anos nós ficamos emocionalmente investidos na busca pela Mãe, mudou porque Cristin Milioti se encaixou melhor na série do que poderíamos esperar, mudou porque tivemos uma temporada inteira apenas para ver como Robin e Barney cresciam como casal e decidiam que deveriam mesmo se casar.

Então quando no episódio final o casamento de Robin foi jogado pela janela em 15 segundos, toda a maturidade que Barney havia adquirido em nove temporadas foi embora em uma cena e a mãe, que nós havíamos encarado como uma das personagens mais importantes da série, foi descartada para viabilizar um relacionamento que em termos narrativos já tinha dado tudo que podia dar, a sensação foi de que o final, que poderia ter sido engraçadinho e criativo se tivesse acontecido na terceira temporada, foi um tanto quanto cruel e absurdo para uma série que durou nove anos. A simples constatação de que toda a história é na verdade um pai usando a mãe morta dos filhos dele como pretexto pra falar sobre o quanto quer sair com uma antiga amiga — que é como os próprios garotos colocam a questão — já mostra que as coisas claramente fugiram ao controle num dado momento.

Então ao final de HIMYM a sensação é de que, ainda que eu tenha acompanhado aqueles personagens durante anos e visto eles crescendo e mudando, todo esse crescimento e toda essa mudança foram de uma certa maneira jogados foram para que pudesse ser usado um final que eles acharam que seria interessante na terceira temporada, como numa não-jornada do herói em que o personagem principal termina exatamente da mesma maneira que começou e a aventura não é importante, tendo sido apenas inventada pra encher uma certa linguiça.

Um final um pouco amargo para uma série que já foi uma das comédias mais divertidas da televisão? Sim, eu acho. Mas eu provavelmente merecia mesmo algum tipo de castigo depois de comparar assistir um seriado a fazer sexo tântrico, provavelmente a culpa é toda minha. Coisa de quem nunca fez sexo tântrico e sai falando besteira por aí.

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