Sobre lobos e lobos meninos

Pouco importante é relembrar que vivemos tempos amargos de intolerância. Claro, comparações às sociedades civis em guerra e aos tempos do “olho por olho”, senão também pouco importantes, são um exagero; caso contrário, não seria possível escrever sobre o que se pensa das coisas. Mesmo assim, a replicação do discurso de ódio é o carro presidencial em meio a passeata, acompanhada por uma multidão desatenta e cada vez mais passiva e conformada.

A bala na cabeça do bom senso vem, primeiro, pela afirmação de que o incentivo aos latidos gratuitos “nunca vai acabar”. E o pior: assumir essa derrota é garantir, de mão beijada, que o negócio vai correr perene e retroalimentado. Em resumo, ao não combater — o machismo, a cultura virtual do estupro, a gangueficação dos debates, a argumentação capenga — praticamente se investe em novas e novas formas de se fazer violência pelas palavras, essas repousadas na cadeira quentinha e reclinável da ignorância.

Em “A linguagem secreta do Cinema”, Jean Claude-Carrière, baita roteirista francês, relata, logo no começo, a capacidade de se “educar” (ao modo ocidental) tribos africanas com câmeras e jogos de imagem. Mesmo com o abismo de entendimento entre as duas culturas, cada qual com sua riqueza de costumes, o foco recai na abordagem, na forma com que se ensina, lapida. Nos primeiros passos do Cinema, então, no caminho da tão temida arte dos cultos e imaculados (o que é baita bobagem), o destino nos arremessou na cara a máxima de que as coisas não são óleo e água. Não seria uma baita vergonha apagar tudo isso pela viralização de qualquer provocação insossa de Twitter?

A linguagem, sobretudo em sua natureza informadora, tem esse ranço chato da má interpretação, que nos coloca em uma briga de foice no escuro ao menor sinal de conflito entre o que eu acho certo e o que você não acha errado. Com calma, vamos aos lobos. Por culpa das fábulas dos Irmãos Green, que já geram polêmica nesse lance da autoria, o estereótipo que temos do lobo é um só. Sacana, malandro, perspicaz, feroz, frio, cauteloso — mas atento — travestido, enganador, violento. Não fosse somente isso, justificado pelo episódio infeliz da vovó dilacerada, os lobos parecem ter encontrado um ponto comum para passar (ou replicar) esse comportamento, sem um pingo de autocrítica.

fonte: Topimagens.com

Isso, por sua vez, nos leva a crer que, de fato, “deixar como está”, seja de um post pra outro ou de um lobo para um lobo menino, filhote, mais jovem, é escrever na testa, em letras garrafais, que sua intenção é ver tudo seguir exatamente assim. A forma hereditária, mesmo que de minuto a minuto, com que se valem de palavras dinamitadas, vem gerando uma sociedade de lobos. E na alcateia, tal qual o tribal diante dos aparatos esquisitos, os lobos meninos aprendem bem. Vão ensinar bem também, já que a eles não foi ensinado o contrário.

O discurso de raiva é sorrateiro e é perigoso deixá-lo correr sozinho. Se assim o fizermos, os lobos meninos, no papel de ideia, ainda em fase de aprendizado, logo falam:

“Tudo posso naquele que me repete”.

Mesma tribo, mesma alcateia, mesma linguagem. Preciso repetir?