A “carga de leitura”

Todo aluno e professor de pós-graduação a conhece. E não evoca momentos agradáveis…

Não faz muito tempo, em uma banca de concurso escutei um professor sênior dizer que adotou como referência para a própria prática docente em cursos de pós-graduação, máxima de um mestre seu que dizia: “não considero que tem atividade acadêmica séria o aluno que lê menos de 3.000 páginas por semana.”. Certa surpresa da assistência. Sorrisos, talvez disfarçando reação dúbia entre aprovação e desaprovação. Alguém chegou a se manifestar: “uma média de 600 páginas por dia útil” — com a concordância do expositor. Sendo ele alguém que se apresentava como candidato a professor titular de uma universidade federal, sua “seriedade” acadêmica não poderia mostrar-se menor. Mas ficou claro que algo inquietava o senso comum daquela audiência…

A exigência, nada nova para mim, e que lembra os grossos volumes de xerox que circulavam entre os estudantes com capítulos de livros ou artigos baixados de journals, é uma prática comumente encontrável em doutorados de universidades ciosas de seu prestígio internacional. É a carga de leitura dos mestrados e doutorados! Não apenas o fantasma, o bicho-papão de que inutilmente se queixam os estudantes, mas uma instituição já catalogada como parte do bem disfarçado, elegante e inteligente (witty) sadismo acadêmico.

Confessemos que tem certa hipocrisia inconfessável nessa prática. Todos sabem que não dá. Não é estudo sério iniciar-se em uma disciplina — geralmente teórica — com mais de dois ou de três artigos ou capítulos de livro, como leitura prévia a cada aula (algo em torno de 60 páginas, espaço simples), sabendo-se que o aluno cursa de três a quatro disciplinas por semana, fora outras atividades, como reuniões e preparação de textos — isso supondo-se que trabalhe em tempo integral. Começa a aula, o professor fazendo de conta que todos estudaram tudo e os alunos disfarçando a insegurança, às vezes a frustração. E assim se desenrola a discussão dos textos, cada um “pisando em ovos” no que diz, ou uma superficialidade geral das perguntas (e, portanto, também das respostas, para serem entendidas).

O que sobra disso ao final do período? De um lado, cumpriu-se um programa com belíssima seleção de leituras, capaz de impressionar colegas professores e eventuais avaliadores. De outro, todos os alunos entregaram papers de dez a quinze páginas, sobre tema de sua escolha, usando alguns daqueles textos. Como avaliar cada um sob aspectos de estrutura, clareza conceitual, cuidado textual, e dar feedback ao aluno??? “- Para o mês sai a nota da disciplina!”. Saiu. E, “ufa!, paguei mais uma”!

Deixando a questão didática de lado, que pensar, metodologicamente, disso?

Consideremos que na “carga de leitura” de mestrados e doutorados há três tipos de textos acadêmicos: os artigos que resumem e apresentam pesquisas empíricas sobre o tema; os textos teóricos ou metodológicos básicos; outros textos, de natureza instrumental (relativos a fontes de dados, softwares, normas, etc.). Creio que de pesquisas empíricas já feitas sobre o tema só deveriam ser estudadas as melhores, estruturalmente modelares. E o aluno deveria pesquisar e ler o Resumo (Summary) de dezenas de outras, eventualmente indo a elementos do texto das que mais o interessassem, sobre o conjunto formulando observações.

Mas o núcleo duro da iniciação a uma disciplina está nos textos teóricos e metodológicos “puros”, de preferência os clássicos e paradigmáticos. Porque é para a teoria que convergem as grandes discussões, os problemas característicos, o melhor dos esforços de avanço. Forma-se um pesquisador, sobretudo um doutor, no estudo sério destas fontes axiais da tradição científica.

A compreensão de um conceito teórico não é algo trivial, nada intuitivo. Ele resume longo amadurecimento e pesquisa, às vezes vários outros textos, de seu autor. Exige dominar-se a trama de sua justificação teórica e empírica. Neste ponto, “leituras” iludem — o aluno dá aos termos do autor significados de outros contextos que já conhece. Não, amigo. Se quer aprender, não imagine que já sabe. Uma “parada reflexiva” sobre o texto, com movimentos do ponto ao contexto maior, deste de volta ao ponto, eventuais retornos comparativos e — indispensavelmente — esforços de por no papel sua compreensão crescente, vez por outra revista.

Nesta última observação quis referir-me a concepção básica de linguagem em Wittgenstein: não há pensamento sem (sua) linguagem, verbal, no caso; o tal “pensamento claro à procura da palavra” é ilusão; clara, aí, é sua ansiedade no “balbuciar mental” da ideia em formação. O pensamento só se reconhece claro — e isso não é imediato — no texto claro. E não há “linguagem privada”, só interna a você (expressão daquele filósofo).

Ainda: o movimento recursivo entre ponto e seu contexto é da própria natureza da análise hermenêutica, na linha de Dilthey, que foi identificada já no início do Séc. XIX por Schleiermacher como a circularidade da interpretação (o “círculo hermenêutico”: não se entende a parte sem a consideração do todo nem o todo sem suas partes).

Isso é o que eu sei sobre o estudo de textos teóricos e metodológicos. Agora, não me pergunte o que fazer então com a “carga de leitura”, que eu não sei…

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