“Meu estudo quali-quanti”. Pesquisa qualitativa ou ecletismo metodológico?

O “bicho” (no zoo da metodologia de pesquisa) todo mundo sabe o que é. Uma pesquisa que usa métodos quantitativos e também os ditos “qualitativos”. Vou explicar, a meu modo, de onde vem esta coisa, o que representa e por que a considero um filho bastardo da metodologia científica nas ciências sociais. A irreverência, espero que me perdoem.

Que, por extensa prática há mais de meio século, a pesquisa qualitativa já se caracteriza como um paradigma, não tenho dúvidas. Está presente em educação, no serviço social, nas comunicações, na psicologia, na história, nos estudos organizacionais e até na medicina. Mas, que ela tenha fundamentos epistemológicos próprios e sólidos, dando-lhe identidade e critério para julgar o que se faz em seu nome, este é meu ponto de descrença e contestação.

Sendo mais claro: uma pesquisa a que falta justificação maior do próprio tipo de linguagem e conhecimento — qualidade que se busca na tradição epistemológica — fica na categoria de jogo técnico de produção de sentidos interessantes e úteis. Com o charme da referência a Lévi-Strauss e aludindo a técnica artística, a pesquisa qualitativa já foi chamada de bricolage metodológica. Com boa vontade, confunde metodologia com tecnologia, foca na prática em si, e atua livre no espaço da imprecisão e complexidade das relações humanas e sociais.

Mas sem se definir e justificar enquanto conhecimento que produz afirmações denotativas, convicções de impacto social, não dá. No longo prazo, degrada-se a cultura.

Tenho outro trauma. No mundo dos trabalhos acadêmicos apressados, invoca-se “pesquisa qualitativa” para justificar opções metodológicas frouxas e fugir ao cuidado técnico, à disciplina conceitual. Então “pesquisa qualitativa” funciona como selo de credenciamento. E as bancas aceitam porque ela “existe”… Vão contestá-la ali?

Definir a identidade metodológica pelo instrumental técnico e pelo não-uso de processos estatísticos para produzir fatos computáveis (dados) é recurso precário. “Qualitativa” (qual qualidade?) só toma sentido por oposição àqueles processos. Aliás, é a pesquisa qualitativa que chama de “métodos quantitativos” a prática a que se opõe. William Goode e Paul Hatt, já em 1952, chamavam a denominação de “inadequada” (Métodos em Pesquisa Social, p. 398). Mas “pegou”…

A pesquisa qualitativa é produto da cultura científica norte-americana nas ciências sociais em meados do século passado e da pesquisa acadêmica que, mundo afora, está sob sua influência. É fácil ver isto no primeiro capítulo de The Handbook of Qualitative Research, obra clássica na área, lançada em 1994 para reunir e dar unidade artificial a diversas práticas dissidentes do paradigma nos 30, 40 anos anteriores, e que acaba de ter sua 5a edição (2018). Ali os autores-editores Norman Denzin e Yvonna Lincoln, antropólogos de origem, constroem, com notável erudição, uma narrativa histórica da formação do “campo da pesquisa qualitativa”, em sete momentos “sobrepostos”…

Praticando quase uma apropriação indébita, dizem que “tudo começou” com o reconhecimento do método de trabalho da antropologia, a etnografia, inclusive a “descrição densa” (thick description) de Clifford Geertz (que trouxe a ideia de Gilbert Ryle, filósofo) e a introdução da fenomenologia alemã de Alfred Schültz (que bebeu em Husserl, filósofo) na sociologia americana por Harold Garfinkel, como “etnometodologia”.

Sob o impacto destas metodologias, que se mantiveram íntegras, “flexibilizou-se”, em composições práticas, o mainstream da ciência social anglo-saxã que nos EUA tivera, nas décadas anteriores, a instalação da pesquisa de campo por survey e a análise estatística. A descrição densa degenerou no “interpretativismo” e a produção de dados “quantitativos” ou “qualitativos” veio a ser a ancoragem final desta pesquisa, mantido, é claro, o rigor técnico, justificativa maior.

O amálgama resultante é típico do ecletismo metodológico, comandado pelo interesse técnico: compondo técnicas de análise numérica e discursiva, produz-se muito mais resultados (leia-se “mais publicações”). Afinal, somos uma cultura prática…

Sharan Merriam, da Georgia University, autora respeitada em metodologia, chama os métodos qualitativos de “conceito guarda-chuva, cobrindo diversas formas de investigação que nos ajudam a entender e explicar o sentido dos fenômenos sociais” (Qualitative research and case study applications in education, 1998, p. 5).

Enfim, vejam como é essa coisa das “ondas metodológicas” incontroláveis no mundo da produção acadêmica. Já estão promovendo o nosso querido quali-quanti a “composição de métodos” (mixed methods) e buscando-lhe fundamentos ou, pelo menos “orientação filosófica”. Charles Teddlie e Abbas Tashakkori lançaram em 2009 Foundations of Mixed Methods Research: Integrating Quantitative and Qualitative Approaches in the Social and Behavioral Sciences. A despeito deste título, bastaram-lhes algumas páginas do Capítulo 2, entre as quase quatrocentas do livro, para definir que o “MM”, como chamam, se baseia no pragmatismo (sic!). O velho Charles Pierce (1839–1914), John Dewey, William James e neo-pragmatistas como Willard Van Orman Quine, Wilfrid Sellars, Richard Rorty, Hillary Putnam, Donald Davidson, grandes revisores da tradição filosófica ocidental e interlocutores de Habermas, saíram à noite de seus túmulos, furiosos, à procura daqueles autores… Mas não os encontraram, pois parece que já estão planejando uma 2a edição.

Sobre pesquisa qualitativa, OK, já basta de preconceito meu. Mas, e os estudos “quali-quanti” (título)? A pesquisa que caminha para uma análise estatística, cujos “achados” serão grandezas numéricas, faz-se preceder por entrevistas, observações diretas e outros processos “qualitativos”, de onde surgirão as opções conceituais que virarão números. Produzidos estes, sua interpretação ganha muito se, em novas entrevistas, for pedida às pessoas que participaram da fase inicial.

Então vejam: as técnicas “quali” são preparatórias ou complementares. O centro de gravidade da argumentação (estrutura da pesquisa) e da geração de conhecimento novo permanece mesmo “quanti”. Mas pode chamar de “quali-quanti”, é mais… (como direi?…).

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