Perguntando sobre a pergunta “o que é ciência?”

Perguntar “o que é”, a forma mais comum de procurar saber, é também a mais arriscada. Risco de levar você a situação pior: continuar sem saber o que queria — tantas são as maneiras de responder — e ficar pensando que sabe. Como o objeto da pergunta (ciência) é fundamental, vale a pena entender melhor a forma de perguntar.

Chegar com relativa segurança a “o que é” seria até fácil se, como imaginou Platão (427–347 AC), as coisas tivessem essências puras em algum espaço imaterial (o tópos noetós), só acessível ao pensamento abstrato, apresentando-se a nós neste mundo sob a forma composta e complexa dos objetos singulares da nossa experiência. Ele foi seduzido pelo argumento de Parmênides sobre a pureza conceitual do ser (o tal que começa dizendo “o ser é, o não-ser não é”, etc.) que lhe garantia a estabilidade das essências e a viabilidade da razão como recurso maior da vida humana; ou pelo menos a vitória sobre seus adversários, os sofistas.

Aristóteles disse ao mestre que não precisava ir tão longe com aquele tópos noetós, mas construiu uma maravilhosa arquitetura lógica com a mesma finalidade de ter o acesso garantido e potencialmente ilimitado da razão ao mundo real. Dois milênios depois, com o advento da confiança maior na observação empírica (Séc. XVII), o racionalismo recuou e deixou de dar as cartas no mundo da ciência. Mas manteve reserva de domínios, pois a própria ciência empírica recorria a ele, na filosofia, para responder a perguntas reflexivas sobre si própria.

Assim, nossa cultura erudita ocidental não se deu conta do erro dos clássicos gregos que entenderam como sendo de pensamento (razão) estruturas que eram da linguagem; manteve-o no dilema entre razão e experiência e acabou dando precedência à ontologia (o discurso sobre o mundo objetivo) em relação à epistemologia (o discurso sobre como conhecemos tal mundo). Finalmente, já no Século XX, começamos a entender, que esta começa pela linguagem — forma de relação e comunicação social. Richard Rorty mostrou isso em The Linguistic Turn: Essays on Philosophical Method, 1967, 1992, e Habermas em Postmetaphysical Thinking: Philosophical Essays, 1988, 1992.

É por isso que queremos sempre começar “isolando uma essência” e querendo definir “o que é” em vez de começar indagando primeiro sobre a démarche de quem fala, perguntando-lhe de volta: “por que você está querendo saber isso agora?”, “onde você quer chegar?”, “qual o contexto da nossa comunicação?” (formal ou conversacional), ou seja, “que ponto de vista você propõe?”.

Então, abandonada a ideia platônica de essências únicas para as coisas, vale a pena primeiro esclarecer algo em nossa pergunta “o que é ciência?”. Ao pensar em “ciência”, em que direção você se coloca? Neste post, restrinjo-me a duas “direções”, gerando dois tipos de resposta.

Primeiro. Pelo “valor de face” de “ciência” — talvez o melhor para os limites deste blog — você procura forma qualificada de conhecimento. Geralmente se entra por aí. Entre tantas e tantas formas de conhecimento, o discurso essencialista procurou o que caracterizaria, de forma única, a ciência. Como a ciência só sabe falar de sua própria prática (dizer como faz), essa discussão passou à epistemologia, ainda que contando com a contribuição de grandes físicos, sobretudo no início do Século XX. Karl Popper (1902–1994), que também estudou física e chegou a trabalhar com físicos e filósofos (como Bertrand Russel, Ernst Mach, Otto Neurath, Rudolf Carnap e Carl Hempel,) no ramo da filosofia analítica denominado “positivismo lógico” tornou-se um eixo de convergência até quase o final do Século XX.

Popper distinguiu entre ciências e pseudociências a partir da capacidade daquelas de, pelo seu método, identificar empiricamente casos que negam suas próprias hipóteses. As hipóteses que subsistem a este “teste negativo” são boa ciência, até que sejam refutadas. Solução inteligente para uma ciência sempre evolutiva. Mas Larry Laudan, em Beyond Positivism and Relativism: Theory, Method and Evidence, 1996, p. 210–222, enumera argumentos que vieram a enfraquecer a resposta popperiana a “o que é ciência?”. O teste negativo de hipóteses é estratégia metodológica válida e efetivamente praticada, mas não deve ser usada na questão “o que é ciência?”.

Contudo, a pergunta subsiste. E seduziu a muitos que leram nas décadas de 1980 e 1990, obras como a de Alan F. Chalmers (O que é ciência, afinal? [1982], 1999, e A fabricação da ciência, [1990], 1994). Adotei em minhas aulas, por vários anos, de Fernando Gewandsznejder, O que é o método científico, 1989, de linha popperiana — um ótimo livro para a época. Depois, escassearam títulos nestes termos, e se você, por brincadeira, pedir hoje na Amazon.com/books “What’s Science”, o algoritmo de busca do portal vai lhe dar primeiro livros infantis, como se a pergunta já tivesse passado para o nível desta classe de leitores…

O que teria havido? Não sei. Mas isso me dá uma deixa para mencionar, como prometido acima, um segundo tipo de resposta a “o que é ciência?”, que prevaleceu na segunda metade do século passado.

Foram as pesquisas sobre a história da ciência, havidas desde o final do Século XIX, mas sobretudo na primeira metade do Século XX que mostraram as reais motivações dos pesquisadores; por que a pesquisa tomou tal ou qual direção, e como — sem nenhum passe de mágica ou revelação divina — era atribuída cientificidade a um fato: o êxito, sob certa probabilidade de ocorrência, na aplicação do método às chamadas “condições técnicas de partida no experimento”. Já o método eram regras e critérios aceitos em determinadas épocas e comunidades de praticantes, e sempre variaram.

Assim, a ciência é, antes de tudo, um fenômeno social e histórico, mesmo que haja traços muito estáveis ao longo do tempo — e não são metodológicos. Hoje o meu “top of mind” na reação a “ciência” é este. E diante de uma pergunta genérica como “o que é ciência?”, não preciso ir além disso.

Vamos terminar? Antes, porém, vejam a cilada hermenêutica em que caio quando pergunto “o que é ciência?”. Não estaria aí pedindo apenas descrição para uma ideia de “ciência”, que já tenho? (De outra forma a pergunta estaria pedindo para falar de um conjunto vazio.) Toda resposta a “o que é ‘x’?” tende a ser apenas descritiva e sob escolha, não essencial e única como pretendido com Platão; ou é simples recurso retórico, uma paráfrase; ou, enfim, insistindo na perspectiva analítica, a resposta predicativa de “é” seria circular, tautológica (usar na definição o objeto que se deseja definir)… Que “bananosa”! Socorro, Wittgenstein!

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