“Você pode divergir quanto à interpretação do fato, mas não quanto ao fato em si.”

Observe as seguintes proposições:

(i) “Foi constatada uma inflamação neste tecido. E foi constatada in vitro e in vivo uma redução dela com a administração de certa dose de ibuprofeno (ou de fenoximetanosulfonanilida, para ficar mais bonito…). Você pode divergir quanto à causa da inflamação e até quanto ao tipo de vínculo entre o fármaco e a redução da inflamação neste caso, mas não quanto aos dois fatos (a inflamação do tecido e a redução da inflamação), constatados por meios seguros e métodos científicos.”

(ii) “Fato é uma coisa, interpretação é outra. Certo ou errado, completo ou incompleto, o resultado deste exame de laboratório é este aqui. Cada médico interpretará conforme suas convicções, experiência e outros fatos do caso. Mas aqui estão fatos observados.”

(iii) “Enquanto se discute um fato, ainda não temos ali um fato, e a ciência pode acabar com essa discussão.”

(iv) “Há hipóteses e teorias alternativas, mas não propriamente fatos alternativos”.

Não venha me dizer, caro leitor, que você não concorda com isso tudo…

Meus Deus! Quanta fé nos fatos! E quanta confusão sobre o que se opera na constatação (a inflamação, a redução, a reação no laboratório, proposições i e ii), uma forma de gerar significado, com isso constituindo ela própria um fato! Quanta confusão sobre que se opera desta constatação para sua interpretação: nova significação que constituirá novo fato (diagnóstico que o médico por fim lhe deu)! Ou na (contestável) atribuição de interpretação única e definitiva à constatação (proposições iii e iv), gerando mais uma nova significação factual (o "fato-verdade", aliás um mito…)!

Assim como uma palavra fora de qualquer sentença, ainda que subentendida, não faz sentido, assim ocorre com o que chamamos “fato”. Não é possível ter “fato” sem atribuição de significado. E a questão está toda nessa atribuição, um enunciado com contexto semântico (da simples linguagem verbal à codificada da programação de máquinas) e pragmático (um ato de fala de alguém para alguém).

Certa vez, ao discutir o assunto com um colega, uns quinze anos atrás, ele argumentava contra mim, defendendo a “existência indiscutível” do fato, apenas fato, o “fato em si”.

“Se eu tiver ido à sua casa ontem — disse-me ele — e hoje nos encontrarmos, e eu lhe mostrar uma foto nossa lá, você não poderá dizer que isso é um fato 'já revestido de interpretação’. Há fatos simples e incontestáveis.” E completou: “O relógio acaba de bater dez horas, eis um fato” (era daqueles antigos).

Realmente, hoje estamos cercados de registros e dados por todos os lados. Mas um deles "por si" (um número, por ex.) não seria nada. A fonte, o título da tabela ou a estrutura de um cadastro "frio" dão significado semântico ao registro ali feito, tornam-no “fato significativo” (na verdade, um pleonasmo). E quando eu leio o tal registro, quem registrou “fala” novamente aquilo a mim, gera-se um significado pragmático. É impossível referir-me a um fato sem um contexto qualquer, semântico e pragmático, que lhe dê significado. Não há "fato em si". E a certeza absoluta que se pretende dar a um fato significativo é mito, não tem privilégio sobre qualquer outra predicação.

Voltemos lá ao diálogo com meu amigo.

- Sim, estive ontem na sua casa. E daí? O que você está querendo dizer ao mostrar-me agora esta foto? Eu lhe disse que não estive lá? Você quer comentar algo de minha visita ontem? Por que você começa sua conversa agora falando de ontem, com esta foto?

E continuei:

Se eu só disser a alguém: “o relógio deu dez horas!”, essa pessoa, para dar sentido ao que acabo de lhe dizer, imediatamente vai sondar minha entoação de voz ou o contexto do que está acontecendo, ou o que estamos naquele momento esperando — a que se relacionaria a menção à hora do momento. Se não encontrar sentido algum, a pessoa para e olha para mim, esperando que eu continue, para poder entender. E se eu insistir, dizendo apenas a mesma frase (“o relógio deu dez horas!”), ela dará ao meu ato de fala algum sentido, do tipo: “este cara está meio perturbado, dizendo coisas sem sentido”. Ou: “está querendo brincar comigo!”.

Ele riu, mas parece que não entendeu:

- Estou me referindo ao fato em si da visita de ontem.

Para não perdeu o amigo, eu parei ali. Nem comentei que “fato em si da visita de ontem” soava esquisito. Como professores dificilmente aceitam lições de colegas, fiquei sem lhe dizer que ele, “seccionando” algo do passado, apenas acabara de criar uma entidade de análise (“o fato da visita”), e por tê-lo usado de forma significativa nesta sua última frase, criou um novo fato, agora argumentativo. Fora disso, sobrou apenas um vazio artifício de linguagem chamado “fato em si”. Parei ali, sim, mas imagine se eu, ainda por cima, lhe tivesse dito: “Meu caro, rigorosamente falando, ou seja, como afirmação com pretensões de realidade, este seu ‘fato em si’ é nonsense (expressão sem sentido)”

P.S. Você acha que eu brinquei de sofisma neste post? Não brinquei. Expressei minha convicção sobre o que a filosofia da linguagem, na segunda metade do Séc. XX, trouxe à epistemologia tradicional e moderna. E no fundo intencional deste meu post, não falei de “fato”, falei de totalitarismo epistemológico! (Deixo isso no ar…)

Prometo prosseguir melhor esta (salutar) curiosidade em dois posts que chamarei, o primeiro, “Isso é um fato estatístico!”; o segundo, “Contra fato não há argumento!” (o que queremos realmente dizer quando defendemos o fato).

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