Sobre a Herói

Olha , basicamente ser nerd nos anos 80 era algo equivalente a gostar de quadrinhos em Abu Dhali. Naqueles anos escassos, a infância era levada em uma vibe Mad Max, onde as crianças ainda faziam coisas inomináveis como brincar soltas na rua e colocar mercúrio nas feridas, ou seja, a vida era nada fácil. Veja bem, cada nerd era uma ilha isolada e incomunicável: você comprava revistas em quadrinhos, locava fitas VHS e bem, não havia ninguém com quem compartilhar isso. E esse parágrafo fica incrivelmente melhor se você tocar o Lonely Man Theme de fundo.

Encontrar outra pessoa que gostasse do que você gostava ou mais informação era a própria jornada do herói, com a diferença de que a gente não aprendia nada no final. Eventualmente as próprias revistas em quadrinhos ofereciam (poucas) notícias. Algumas eu me lembro até hoje, como Eddie Murphy ter sido sondado para ser Robin em Batman Returns e o filme “em produção” do Sargento Rock estrelando Arnold Schwazzenegger. Eu espero muito que em alguma realidade paralela isso tenha acontecido.

Claro que isso mudaria em 1994.

Neste ano uma revista era bastante lida no colégio. Focava em desenhos animados e — vejam só — falava muito de quadrinhos também. É difícil visualizar ter algo que FALAVA sobre essas coisas naquela época, uma subcultura que absolutamente ninguém levava a sério. Semanal. custava amigáveis 1,95 e tinha um visual tão anos 90 que parecia que ao abrir alguma calça baggy ia ser ejetada na sua cara.

Era, como você deve ter adivinhado pelo título da coluna, a Herói. E claro, comprei. Edição após edição. Naqueles tempos, onde só sabíamos que o filme x ia ter continuação quando víamos o trailer no cinema — daí minha estranheza com a megaexposição de notícias tipo “sai a primeira foto de ator x vestindo as meias soquetes de Super-homem no set” do Omelete, por exemplo — essa era a única maneira de saber o que acontecia no mundo.

E como tal, toda semana eu voltava às bancas para pingar novos 1,95.

O que eu não sabia na época, é que a Herói era uma revista editada por André Forastieri, que pouco depois seria também o editor de outra revista que teve um impacto atômico na minha formação: a General.

A General influenciou tudo. Era diferente, hiperbólica, meu Deus, para uma pessoa vivendo em uma monótona cidade do interior do Rio Grande do Sul aquilo cheirava a mundo, a energia cosmopolita, em cada matéria diversas portas se abrindo. Quebrou minha mente. Deu tilt na máquina.

Eu nunca vi, nem antes, nem depois, uma revista com tamanho ar de modernidade como ela. É para mim o ideal que qualquer publicação deve aspirar: aquela revista que te tira do lugar, onde após fechar as páginas finais, você não é mais o mesmo.

A General em sua relativamente breve vida, era mais que uma revista, era um estado de espírito.

Demorei um bocado de tempo para entender quem era a peça que ligava os dois pontos. Ok, o texto não era sobre a Herói? Era. Mas já esgotei o assunto. Sigamos adiante.

Obviamente não seria a última vez que eu acompanharia Forastieri, ele publicou diversas coisas ótimas através da Conrad e da Pixel, mas onde o hábito de ler o que ele faz realmente se cristalizou foi em seu blog. Recomendo. É ótimo. De revirar a mente.

Seus pontos sempre são polêmicos e abertamente — e sensatamente e sensacionalistamente, supera esta Arnaldo Antunes — opostos ao senso comum. Em nosso mundo de cerquinhas tão demarcadas, ele sempre argumenta. Em nosso mundo de verdades tão monolíticas, faz você repensar, nem que seja por alguns segundos. Característica que compartilha com outro André, seu chapa e também com outro blog ótimo, o Barcinski. E no que eles postam, às vezes eu concordo plenamente, às vezes dá novamente tilt na máquina, às vezes eu discordo. Muito. Pra cacete.

Mas é sempre argumentado com inteligência e embasamento. O nome disso é diálogo. Você não vai achar isso nas redes sociais.

É como a Herói. Toda semana eu volto lá.