Sobre Alergias

Quando eu era criança, acabei desenvolvendo alergia a pó. Considerando que minha casa tinha uma biblioteca de porte avantajado e eu vivia enfiado nela, sim, não foi legal.

Até não era de se estranhar, nos meus tempos de pequeno acho que tive todo o catálogo de doenças da Unimed, meu corpo era onde as viroses se encontravam para tomar umas e botar a conversa em dia. Sempre tive a impressão que eu ia bater as botas bem cedo, bom, até agora a previsão falhou miseravelmente.

Acho.

De todas estas desventuras infantes, provavelmente nada foi mais épico que um diagnóstico equivocado, que me jogou em um coma de duas semanas. Um recorde, até para os meus padrões.

Resumo da ópera para quem está chegando agora: após um imenso trauma causado por um susto, estava diabético. Pro resto da vida. Foi o ponto zero onde as coisas oficialmente se entortaram. E assim começou toda uma romaria de episódios bizarros atrás de uma cura, que atravessaria todos meus anos de formação.

Bom, nesta procissão de infância, cheguei ao ponto de — em pânico — acabar com uma apresentação do Doutor Fritz, aquele cara que incorporava um médico alemão, enfiava tesoura e bisturi em gente para arrancar cânceres e cataratas. Como raios ele ia extirpar o diabetes armado de um bisturi é um mistério que até hoje não consegui decodificar, mas na dúvida, pra que arriscar? Uma crise de berreiro histérico, devidamente assustado por ter acabado de ver ele enfiar uma tesoura no olho de alguém e rodar, acabou de vez com a apresentação.

O que faz também eu pensar em quanta gente não morreu de câncer por minha causa.

Teve também as simpatias, inúmeras simpatias, uma mais bizarra e ridícula que a outra, mérito especial para a que envolvia pegar um pedaço de cactus, pregar e esperar ele secar.

Bom, alguém tem uma ideia de como caralhos se consegue um cactus em Pelotas? E outra coisa, CACTUS NÃO SECA. É UM CACTUS, PORRA! UMA PLANTA DESENHADA PARA SOBREVIVER AO DESERTO!

Desnecessário dizer que não deu certo. Eu realmente queria saber quem raios bola essas coisas. Outro clássico da minha infância era o chá de jambolão que tinha gosto de cueca de mendigo — não que eu já tenha tomado alguma cueca, mas certamente o gosto deve ser esse — que todo mundo falava que fazia maravilhas, regulava a glicose e o caralho a quatro. Nunca deu certo.

Teve também uma vez um médico asiático que fazia diagnósticos após enfiar uma lente em seu olho. Era assim, ele olhava seu olho com uma lupa e dava o diagnóstico, ó é lepra, é cistite, é cancro mole, é whorever, só com a lupa, sem nenhum exame. Confiável, não? Eu certamente compraria um carro usado desse chinês.

Ele disse para regular a glicose, eu deveria comer chumbinhos. Literalmente. Chumbinhos pretos. Vendidos em sua confiável — vá lá — farmácia chinesa.

É, chumbinhos.

Desnecessário dizer que não deu certo, e tive sorte por isso não me ativar nenhum tipo de câncer.

Bom, alternando o cômico e o dramático –e a situação tinha muito de ambos — esse tipo de vivência extrema e desencontrada, me moldou, como era de se esperar, me transformou em um adulto cético quanto a tudo, sempre meio pronto para ver o humor do trágico e a não esperar nada de nada, apenas fazer e ver se os dados finalmente favorecem. Quanto às doenças? Nunca tive mais nada. De fato, nem coisas altamente banais como dor de dente e dor de ouvido eu jamais tive. Dor de cabeça, tonturas, não sei se eu cheguei a ter dez vezes em toda minha vida. Eu devo ter queimado toda a minha cota de doenças na infância, pelo visto.

Rápido epílogo: quanto à alergia a pó. Ela teve fim. Um médico — visivelmente mais competente que o tal doutor chinês — disse que era para eu aproveitar que estava em fase de crescimento ainda e nadar para desenvolver melhor os pulmões. Foi o que fiz. Era melhor do que ter que passar o resto da vida lendo revistas usando máscaras e luvas.

Foi o único esporte onde me destaquei e ganhei alguma coisa. Três medalhas.

Pra ver como as coisas são.

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