Sobre aquela pessoa com quem você quis conversar, mas não conversou

Sempre fui uma pessoa reservada e sem muita iniciativa para puxar assuntos e conversar com pessoas que não me conhecem, ou me conhecem pouco. O receio de importuná-las, ou achar mesmo que elas não estão interessadas, me impediu de falar ou conversar com muita gente.

Já devem imaginar que minha adolescência não foi muito fácil com as garotas, e vocês tem razão, então vou pular essa fase da minha vida e não falar da menina do ônibus em 1990, nem a do Shopping em 1991 ou a ruiva do cursinho em 1995, tá bom, em 1995 eu não era mais adolescente.

Uma vez eu andava na FFLCH, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas na USP, e encontrei uma professora que apresentava um programa de história na TV Cultura quando eu ainda estava no colegial. Lembro que olhei-a bem nos olhos, lembrei do programa, ela percebeu que eu a estava encarando, e como eu quis dizer a ela que eu adorava aquele programa e vivia procurando para comprar no site da TV Cultura e nunca encontrava em qualquer lugar, mas não consegui falar.

Na mesma época, eu fui à FNAC, em Pinheiros, com o pessoal do mestrado. Enquanto eu olhava alguns livros, ouvi uma voz conhecida gritar, “Casão! Olha esse aqui!”, olhei para trás e vi o Milton Neves, e próximo a ele o Casagrande. Na hora me lembrei que aos oito anos eu pedi para o meu pai comprar o número nove para colocar na minha camisa do Corinthians porque era o número do Casagrande. Minha vontade, e impulso, era de ir lá falar com ele sobre o quanto ele foi importante para mim na minha infância, e um dos culpados por me fazer Corinthiano para sempre. Eu quis conversar, mas não conversei.

Minha maior frustração foi nunca ter falado com Paulo Francis. Nesse caso não posso dizer que eu perdi uma chance de falar com ele porque nunca o encontrei. Eu morava em São José dos Campos e Francis em Nova Iorque, e a chance dessa conversa acontecer era pequena. Minha intenção era escrever uma carta a ele e agradecer pelos textos e por um universo de coisas e assuntos que ele me mostrou em suas colunas e livros. Nunca o agradeci.

No dia 16 de junho, como todo mundo sabe, celebra-se o Bloomsday. Talvez um ou outro aqui não saiba, isso você, não, vocês não, o Bloomsday é a comemoração das narrativas do livro Ulisses, de James Joyce, cujo todo o enredo se passa em no dia de 16 de junho de 1904. O livro possui mais de 800 páginas e é cultuado no mundo inteiro.

Em 2003, fui ao meu primeiro Bloomsday, no Finnegan’s Pub em São Paulo, pub estilo obviamente de inspiração irlandesa ao retirar seu nome do último livro de James Joyce, Finnegans Wake.

A programação da comemoração naquele distante dia teve leitura de poesias, apresentação de um dicionário de termos utilizados por Joyce em Ulisses, show da banda Irish Dreams e distribuição de materiais promocionais… e teve Haroldo de Campos, poeta, tradutor e idealizador das comemorações do Bloomsday em São Paulo. A presença dele foi anunciada, o povo aplaudiu e ele acenou a todos. Durante todo o evento o poeta ficou sentando ao lado de uma mulher e apoiava as mãos em uma bengala.

Naquela época eu era estudante de mestrado, portanto nunca tinha dinheiro para nada, mas me lembro que bebi pelo menos duas canecas de cerveja, não comi nada e fiquei pagando a conta por meses no cartão. O ambiente estava amigável, conversei com um irlandês e com o pessoal da banda. Até hoje me lembro da conversa.

Quando o evento acabou, eu estava perto do Haroldo de Campos e vi que ele tentava se levantar. Fui ajudá-lo e tive que segurar o braço dele com as duas mãos para levantá-lo tal era a dificuldade dele de ficar em pé. Quando se levantou ele me agradeceu e saiu falando frases em latim. Eu não sei latim ao contrário de vocês, e igual a você, e fiquei lá em pé olhando ele sair pelos fundos do pub recitando em latim e querendo conversar com ele sobre o significado daquelas palavras, mas não conversei.

Um mês depois ele morreu.

Em 1992 fui a uma festa de rua com uns colegas. Sempre me sentia deslocado nessas situações com músicas que não gosto, lotadas de gente e sem poder conversar sem gritar tamanho o barulho. Não me lembro mais o porquê eu tive que atravessar a multidão sozinho, provavelmente eu estava procurando um lugar vazio e mais quieto, quando uma garota veio na direção contrária a minha na multidão, e ficamos uma parado na frente do outro. Quando eu já ia dar passagem, ela começou a fazer uns passinhos de dança na minha frente olhando nos meus olhos. Fiquei imóvel, como uma estátua, consegui apenas sorrir. Sorrindo e me olhando, ela seguiu o seu caminho e sumiu na multidão. Eu quis conversar com ela, mas não conversei.