Sobre chuva de verão

Como você deve estar sabendo, caso contrário não estaria aqui, no Sobre… cinco cronistas sorteiam temas aleatórios para desenvolver uma crônica a partir daí.

No meu sorteio dessa semana, caiu chuva de verão. Ok, não é um grande tópico, mas a gente faz o que dá.

O que tenho para falar sobre chuvas de verão é apenas uma história bem pequena. Não é uma grande história, não tem grandes lições de moral, nem grandes recompensas por chegar até o final, é apenas curiosa. Como a vida.

Eu tinha meus oito, nove anos e estava andando pela rua e na quadra seguinte estava chovendo. Ah, sim, era verão, convém lembrar para não ferrar a crônica.

Era uma chuva impossível, explico: era torrencial e demarcada, ela acabava reta, na quadra, parecia uma parede de água. Dois passos, você estava dentro da chuva. Dois passos para trás, estava fora dela.

Eu nunca havia visto nada nem remotamente parecido. Nunca vi depois também.

Fiquei um bom tempo — pelo que me lembro — entrando e saindo daquela chuva, testando os limites dela, até inevitavelmente me entediar e ir lá fazer o que quer que eu tivesse que fazer.

Foi uma das coisas mais incríveis que me vi. Até hoje me bate um certo sentimento quando ativo a memória. Não é muito comum eu pensar a respeito. Quem diabos se lembra de chuvas? Ainda mais chuvas onde nenhuma história tenha ocorrido?

Era uma chuva de desenho animado, uma literal parede de água. Não achava que algo assim fosse possível. Até hoje me recusaria a acreditar se não houvesse passado por isso, num feliz acaso em uma rua deserta (anos 80, quem deixava crianças vagarem por aí sem ninguém?). Essas coisas acontecem. Como na vez que voltando do trabalho à noite, fui atravessar a rua e vi um Herbie parado. Um sósia, evidentemente, mas valeu pelos dois segundos de improbabilidade e maravilhamento que a experiência acarretou. Pequeno e sem preço.

E é isso, é o que temos para hoje: uma historinha pequena, vivida por apenas uma pessoa, agora compartilhada com quem tiver interesse, sem grandes lições ou sentidos além dos que você queira extrair dela.

Assim como a vida.