Sobre grandes cidades

Eu moro em uma grande cidade. Ou pelo menos é assim que me refiro a ela. Suzano fica na Zona Leste da Região Metropolitana da Grande São Paulo — um nome longo, que não faz muito sentido se você para pra pensar. Era melhor dizer “fica ali do lado”. Mas meu papel como embaixador municipal me força a dizer que São Paulo é que fica na Região Metropolitana do Glorioso Principado de Suzano, a Joia da Zona Leste, a Dubai do Ocidente, a Los Angeles do Alto Tietê — ou qualquer outra coisa que me venha à cabeça na hora.

Alguns anos atrás, diversos amigos meus começaram a sofrer os efeitos do meu trabalho como relações públicas da cidade. Pode ter certeza, de cada três pessoas que já ouviram falar em Suzano, duas devem isso a mim. Eu me lembro de quando meu amigo André Faccas e eu estávamos trocando SMSs (SMS é uma tecnologia antiga, da qual você não deve se lembrar) e ele quase foi atropelado por um carro com placa de Suzano. André mora em Santos.

- Mundo pequeno — disse ele.

- Suzano que é grande — corrigi.

Eventualmente, ele se casou com uma garota que tem parentes aqui.

O engraçado de viver numa cidade tão majestosa — ou não tão engraçado assim, pra falar a verdade — é voltar pra casa, quando termina o expediente no escritório. Costumo pegar condução bem cheia, com dezenas, centenas, milhares, talvez milhões de pessoas voltando pra casa cansadas, com aquela cara de quem está voltando de um jogo de futebol depois de seu time ter perdido por, sei lá, sete a um. Só que sem os memes. A população se espalha como piolho de manhã, e se reúne como um grande rebanho no final da tarde. Me pergunto com que propósito tanta gente se reúne no mesmo lugar. Aparentemente, é pra que possam ficar sozinhas. Ninguém olha na cara de ninguém. Todos ficam enfiados no mundinho do telefone celular, seja pra não dar lugar pra alguém que precise mais, seja porque não quer socializar com gente tão triste e miserável quanto elas mesmas.

Exceto meu amigo Alexandre. Esses dias, ele disputou lugar no trem como um jogador de rúgbi e, ao ver uma jovem senhora em pé, perguntou:

- A senhora tá grávida?

- Não, não estou.

- Então não vou dar lugar. Se quiser, pede pra uma moça novinha levantar porque aqui nem é assento preferencial. A propósito, de que igreja a senhora é?

Nos tempos da Bíblia, quando alguém queria um pouco de paz, ficar sem ser notado, não ser incomodado, ia pro deserto. Hoje em dia, o único deserto que as pessoas conhecem são as metrópoles, onde todos estão apressados demais, preocupados demais, cínicos demais. Você sente que pode fazer o que quiser. Pode ser quem quiser e, no máximo, alguém vai olhar de soslaio pra você. As grandes cidades não são mais selvas de pedra e sim zoológicos urbanos — com uma fauna bastante peculiar.

Há muitos artistas de rua fazendo suas performances bizarras, mas o que eu gosto mesmo são os flash mobs do pessoal do GreenPeace. Quando eles deitam no meio da rua por, bem, motivos. Dá vontade de trazer um cobertor pra eles, ou um despertador. Ou deitar também. Mas eu fico com medo de ser acusado de estar “desrespeitando a causa” pela qual eles estão se mobilizando, seja ela qual for.

Vou ser honesto, eu não presto muita atenção. Estou sempre com pressa demais, preocupado demais e, devo admitir,cínico demais. Eu perdi um pouco do senso de encantamento com os detalhes. Eles se perdem na confusão, no tumulto, na correria, no empurra-empurra. Você só quer chegar em casa, mas sempre volta pra cá. Pro deserto de milhões de pessoas. Onde ninguém te vê, ninguém se importa e você pode, finalmente, lembrar-se de quem realmente é, mostrar quem você realmente é. Afinal, sua reputação depende muito de como as pessoas o enxergam.

Mas seu caráter é como você se comporta em meio a milhões de pessoas e nenhuma delas está olhando pra você. É quando reconhecemos cada um dos animais aqui. Gente que coloca a mão na frente da boca pra espirrar e, logo em seguida, a limpa na barra do metrô (onde todos têm que segurar); gente que corta a fila do caixa eletrônico no banco com a desculpa de que “ninguém se mexeu, então eu fui”; gente que vai reclamar do atropelo, do tumulto e do empurra-empurra — atropelando, tumultuando e empurrando.

Engraçado é pensar que, em algum lugar da cidade, tem alguém que se parece muito com você — em vários aspectos, mesmo sendo totalmente diferente — em muitos outros. Imagine só, duas pessoas muitos semelhantes fisicamente se esbarram, uma pede desculpas, a outra é estúpida, uma elegantemente vestida, a outra, nem desodorante usa… Seria um diálogo interessante. Com certeza, eles morariam em lados opostos da cidade.

Mas é claro que um seria suzanense.