Sobre Mobilidade Urbana

Agora que o “Sobre” entrou em nova fase, acabei ganhando um bônus inesperado. Se antes quatro temas eram sorteados, um para cada autor, agora apenas um tema é discutido por todos os autores. Isso nos dá a oportunidade de fazer os textos interagirem, dialogarem — o que é muito divertido, considerando que são escritores muito inteligentes, com pontos de vista bastante peculiares e, principalmente, estão entre os meus melhores amigos.

Pra começar o “all-new, all-different”, sugeri o tema “mobilidade urbana”, o que me deu a chance de ler o texto do Fábio Ochoa antes de escrever o meu. A descrição dele de sua natal Pelotas é bastante interessante, por se tratar de uma cidade planejada. Suzano é bastante parecida.

(Não que ela, ou qualquer coisa num raio de cinquenta quilômetros, tenha sido remotamente planejado. A cidade é desgraçadamente pequena mesmo, não em área, mas o centro e bairros próximos.)

Suzano tem, basicamente, duas ruas: uma vai e a outra voa, com duas praças as interligando. Quando o shopping foi construído, o centro da cidade expandiu um pouco e as obras da praça no novo prédio da prefeitura “puxaram” o centro para outro lado. Mas ela é parecida com Pelotas: quarteirões quadrados, com ruas muito bem definidas. Se ela realmente foi planejada, dá pra atribuir sua autoria a alguém bastante preguiçoso. A cidade é bem plana, só em volta do centro tem alguns morros e elevações, então caminhar por aqui acaba sendo muito fácil — o fato de não ter ônibus suficiente para todos os bairros é um incentivo.

Claro, o problema do transporte coletivo nem deveria ser um problema. A verdade é que as ruas não são suficientemente largas para comportar os ônibus de maneira “orgânica”, todo o trânsito na região central fica muito embolado. Alguns anos atrás, o transporte público era monopólio da Visul (Viação Suzano Ltda, só descobri o que era esse L no final pesquisando pra escrever agora). O monopólio foi quebrado, ônibus foram incendiados e as vans de lotação começaram a tomar conta do centro. Nada contra, elas até ajudam bastante na fluidez do transporte, indo a bairros que os ônibus não atendem. O problema é a concentração dos trabalhadores de vans em frente à estação de trens de Suzano. A impressão que dá em horários de pico é que há quatro fiscais pra cada van, todos eles se reúnem em uma rodinha (“só a diretoria, aqui é só pra diretoria”) e ficam gritando uns para os outros coisas como “faz o seu trabalho bem feito”, “é só você fazer a sua parte” e “cuida do seu”. Não estou bem certo como essas reuniões ajudam a manter a ordem e os horários, já que as vans continuam chegando e saindo alheias a essas discussões.

Os táxis daqui chegaram a fazer um serviço bastante parecido alguns anos atrás: percorriam os bairros e cobravam o valor de uma passagem de ônibus, com até sete pessoas dentro. Cheguei a arriscar algumas vezes, era bastante emocionante e desconfortável. Mas, para os bairros afastados em que trabalhei, realmente era uma opção viável.

Eu me acostumei a fazer muita coisa a pé, o que me deixou em maus lençóis com pessoas de fora algumas vezes. “Vamos ao shopping?” “Claro, mas a pé?” “Sim, é pertinho.” Eu sou alto e ando rápido, então costumava deixar as pessoas com língua de fora enquanto tentavam me acompanhar no que, pra mim, era uma caminhadinha de nada. Como eu disse, o centro é, basicamente, duas ruas ligadas pelas praças e eu moro num bairro do lado do centro.

Em favor dos políticos locais, é bom que se digam que eles reduziram as opções de transporte público aqui e isso foi um grande progresso. Explico: eu moro perto de um rio e, durante minha infância, era comum ele encher durante as chuvas de verão. Não o suficiente para inundar minha casa, mas era o bastante para algumas pessoas usarem botes ou canoas para se locomover. Há um reservatório de água em Suzano que costuma liberar seu conteúdo para este rio quando o nível está perigosamente alto. Felizmente, depois de muita gente perder, seguidas vezes, tudo que tinha, os poderes competentes alargaram o rio e o limparam da incrível quantidade de lixo. Eu já cheguei a ver pneus, sofás e colchões lá dentro, mas isso era comum. De incomum, um porco (estava morto, ou conseguia prender a respiração por realmente MUITO tempo) e um guarda-roupa — com roupas dentro.

Recentemente, chegando em casa, vi duas capivaras se alimentando na margem do rio. Os bichos são grandes, parecem uns hipopótamos hippies, e ficam encarando a gente de um jeito bastante ameaçador. Eu pensei em tirar uma foto, mas já era noite e a câmera do meu telefone não é lá muito boa — mas eu também fiquei com medo das capivaras me enquadrarem e soltarem um “perdeu, playboy”. Não sei se a topologia ou a infra-estrutura, mas Suzano acabou se tornando uma cidade atraente para capivaras. Também não sei se isso é bom ou ruim.

Fico me perguntando se projetos políticos megalomaníacos como o aerotrem teriam vez em Suzano. Seria divertido você embarcar no último vagão e, antes do trem sair, ir andando até o primeiro vagão, desembarcar e estar nos limites da cidade. A geografia da cidade permite isso já que, mesmo sendo bem maior que as cidades vizinhas, Suzano “está na vertical”, o que torna muito fácil ir de uma cidade a outra a pé.

Isto é, se você já está acostumado a fazer caminhadas comigo.

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