Sobre Nossa Geração

Eu uso futebol como referência pra muita coisa. Por exemplo, cheguei num ponto da vida em que a seleção brasileira não tem nenhum jogador com a minha idade — mas algum treinador pode até aparecer. O que está longe, bem longe de ser uma coisa ruim (ou boa). Simplesmente é. Tudo tem seu tempo, tudo cumpre seu ciclo e segue o jogo. Mas a constatação de como as coisas mudam, ainda que óbvia, guarda surpresas que precisam ser observadas com um pouco mais do que mera curiosidade ou, principalmente, crítica.

Minha filha tem cinco anos, e tem acesso a tecnologias que seriam consideradas coisa de ficção científica quando eu tinha a idade dela. Todo mundo já deve ter visto aqueles memes sobre o principal problema da juventude de hoje ser não ter mais merthiolate que arde. Engraçado, mas a gente precisa pensar também que a minha geração não precisava plantar ou caçar pra se alimentar e isso não foi, necessariamente, um problema. Eu ainda lembro a TV que tinha aqui em casa quando eu era criança, um modelo comum de tubo em caixa de madeira, com meia dúzia de canais. Vc ligava e ela fazia TLECK, vc mexia no seletor de canais e, enquanto decidia entre TV Manchete ou TVS, ela fazia TLECK TLECK TLECK. E era simplesmente ligar que a imagem estava na tela, imediatamente, com seus “chuviscos” e distorções.

Minha filha não vai lembrar qual televisor tinha aqui na infância dela, pois ele é trocado com mais frequência. Você liga silenciosamente e ela precisa de uns cinco segundos pra mostrar a imagem e depois é preciso escolher entre mais de 30 canais (e isso porque não assino TV a cabo), boa parte deles com imagem digital em alta definição. Mas ela também pode acessar programas pelo aparelho de blu-ray, por um pen drive ou assistir algo pelo Youtube ou Netflix, bastando ter uma conexão com a internet. Não dá pra dizer que isso é ruim, principalmente se pensarmos que podemos carregar aparelhos com a mesma capacidade no bolso, em nossos telefones celulares. Acessar qualquer livro já escrito, filme já produzido, série, estudar qualquer ramo de conhecimento humano ou visitar museus de toda parte do mundo, acionados pelo comando de voz do Google.

(Embora a gente prefira ver vídeos de gatos levando sustos ou pessoas caindo.)

Como isso vai impactar a geração da minha filha?

Minha cidade elegeu um prefeito mais novo que eu. Parece promissor alguém com ideias novas e não do manjado círculo político. Mas, ao mesmo tempo, pessoas da minha faixa etária já estão no Senado e na Câmara dos Deputados, fazendo… Seja lá o que for. Sempre aparece um projeto de lei absurdo, coisa que no meu tempo de segundo grau falaríamos em tom de brincadeira mas que é levada a sério por alguém lá em Brasília. A geração dos memes. E essa geração é a intermediária, a que cresceu vendo uma explosão de avanços tecnológicos que deveria ser impossível de acompanhar. Mas nos adaptamos, aprendemos a usar smartphones e aparelhos de GPS (não aprendemos a votar, contudo). Nossos filhos vão crescer tendo esses aparelhos como parte do seu dia-a-dia (e esses políticos também).

Que diferença isso vai fazer na percepção de mundo dos jovens? Se eu quisesse saber algo sobre um filósofo da antiguidade, eu tinha que ir até a biblioteca. Pesquisar, selecionar o melhor material. Hoje, nos damos por satisfeitos com o primeiro link que aparece, é onde a pesquisa acaba. A incrível quantidade de boatos e golpes que circulam pela internet nos dá a noção exata da preguiça de pensar que assola o mundo todo. “Vi no facebook” é toda referência que um assunto precisa pra ser tratado como verdadeiro. Se a geração que está vindo vai perder coisas como brincadeiras de rua e esperar pra assistir algum programa, a geração (que vou chamar aqui de “nossa”) se adaptou rápido demais a toda essa praticidade. Estamos o tempo todo postando textões sobre como a tecnologia afasta as pessoas, aguardando ansiosamente uma curtida pra levantar nossa auto-estima. Tratamos a educação de nossos filhos como um castelo de cartas psicológico, onde o menor erro fará toda a vida da criança desmoronar sob traumas e incompreensão — de modo geral ,baseados em tudo que lemos na Wikipedia (se muito).

Eu gosto de apresentar coisas da minha infância pra minha filha. Gibis, desenhos animados, o prazer de fazer brinquedos. Mas quando vejo aquele pendrive com 200 episódios do desenho do Pica-Pau baixados da internet, fica claro que essa não é a experiência que tive na infância. Eu assistia um desenho do Pica Pau por dia, não tinha como dar pausa pra ir no banheiro, não tinha como deixar pra ver “outra hora”. Era ali, quando a TV decidia. Espectador passivo. Hoje quantas crianças criam seus próprios canais no Youtube? Quem nunca montou uma playlist?

(Pra minha geração, todo o conceito de “montar uma playlist” veio do hábito de reunir o maior número possível de discos de vinil e gravar cuidadosamente em fitas k7 as músicas que mais gostava, o que só era possível ouvindo a música. Hoje eu jogo 300 músicas no cartão de memória em questão de minutos, boa parte delas nem chego a ouvir.)

Como vai ser pra essa geração que não precisa esperar pra nada? Claro, eventualmente eles vão ter que encarar uma fila de banco e isso nunca vai mudar, mas boa parte das operações bancárias já pode ser feita pela internet. Sala de espera de consultório médico? Tudo bem, não dá pra escapar. Mas cada um com seu smartphone tentando pegar Pokemon.

Qual vai ser o “limite de espera” pra baixar um filme pra alguém que não conheceu conexão discada? Eu conheci o Napster nos seus primórdios, era fã e defensor, fiquei contra o Metallica na época do processo e hoje é justamente o Metallica que tenta fazer o melhor uso de tecnologia para distribuição de música. Hoje temos serviços de streaming muito eficazes e — surpresa! — você pode editar suas próprias playlists, interagir com usuários do mundo todo e conhecer o trabalho de artistas em países que nunca tinha ouvido falar.

Sem falar na possibilidade de reencontrar velhos amigos, dos tempos de escola e empregos anteriores, pelas redes sociais. Poder acompanhar o crescimento dos filhos desses amigos, estabelecer uma rede de contatos mais forte e valorosa, não deixar que as escolhas pessoais e profissionais criem muros. Eu mesmo usei as redes pra reencontrar dezenas de pessoas. A próxima geração já nasce inserida nelas.

O mundo ficou grande demais, e pequeno demais. Tudo é muito rápido, o acesso é instantâneo, tudo precisa ser em tempo real. Um programa estreia na Inglaterra às 13:00 e, antes das 16:00, já vai estar disponível via torrent. Tudo que é produzido no mundo inteiro, trilhões de terabytes de informação, a apenas um clique de distância.

Minha impressão não é que o impacto disso possa ser negativo nas futuras gerações, mas que a nossa não soube lidar com isso. Conhecimento demais, e tudo que fazemos com ele é reciclável e descartável. Se para os jovens tudo acaba parecendo rápido e cômodo, nós também estamos sem paciência até para esperar um gif carregar.

Com essa percepção de tempo, qual vai ser a nossa percepção de uma “próxima geração”? Vamos esperar ela crescer até atingir seu potencial completo ou vamos passar para o próximo vídeo de gatinho? Só espero que a gente possa, ao menos, usar toda essa tecnologia pra armazenar boas lembranças, da mesma maneira que armazenamos páginas salvas — que nunca mais vamos visitar. Nem tudo são espinhos, claro. Afinal, nossa geração é a que fez a transição, a que se adaptou e precisou aprender, bem alguma coisa sobre tecnologia.

O grande alento é pensar que a próxima geração também vai conviver com avanços tecnológicos fascinantes e não vamos entregar o futuro de bandeja para eles. Aprender e se adaptar, coisas que nunca saem de moda. A capacidade de processamento e armazenamento aumenta exponencialmente, mas a curiosidade humana também e, quanto mais cedo os jovens aprendem, mais eles buscam entender. Talvez esse seja o maior legado que nossa geração vá deixar para a próxima: a oportunidade de buscar os desenhos animados, filmes, livros, músicas, enfim, as experiências que lentamente deixamos para trás enquanto os cartões de memória ficavam menores e mais potentes.

Não parece um futuro tão ruim assim, afinal.

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