Sobre os clássicos modernos

Por Fábio Ochôa

As prateleiras de filmes se estendem ao infinito. Ao longo de todo o caminho, Chico Bam e Chico Bum seguem reclamando. Tudo merda. Tudo. Tudo.

Para os dois, nada é tão bom quanto em sua época. Todas as ideias boas já foram usadas. Hoje tudo é reboot, quadrinhos, sequência de franquia velha. Nada presta. Nada.

Às vezes, acho que eles viveram na Atenas de Platão ou na Itália de Da Vinci, pelo modo como falam de sua época.

2001 — Steven Soderberg ressuscita o clima cool do Rat Pack com 11 Homens e Um Segredo, temos a fusão entre Kubrick e Spielberg com A.I. — Inteligência Artificial, Hayao Miyazaki entrega outra obra-prima A Viagem de Chihiro, Baz Luhrmann importa Bollywood para o cinemão americano com Moulin Rouge, na França, Jean Pierre-Jeunet e Marc Caro trazem O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, do lado dos independentes, Richard Kelly traz Donnie Darko, a Pixar lança Monstros S.A, no México Guillermo Del Toro faz um dos melhores filmes de terror de todos os tempos, A Espinha do Diabo.

2002 — Fernando Meirelles sacode o Brasil com Cidade de Deus, Roman Polanski volta a colocar sua carreira nos trilhos com O Pianista, um prolífico Steven Spielberg volta a investir na ficção com Minority Report — a Nova Lei e com o drama Pegue-me Se For Capaz, Homem-Aranha de Sam Raimi ajuda a fincar em definitivo a nova era dos super-heróis, na Coreia temos a tensão de Infernal Affairs e de O Quarto do Pânico, Danny Boyle reinventa os filmes de zumbis com Extermínio e Sam Mendes faz outra excelente adaptação de quadrinhos com Estrada para Perdição.

Chico Bam e Chico Bum seguem falando. Nenhuma ideia nova. Nada de bom. Nada de novo.

Do modo como eles falam parece que no tempo deles tinha um Os Pássaros por semana estreando no cinema…

2003 — Peter Jackson encerra a saga Senhor dos Anéis com O Retorno do Rei, na Coreia, Old Boy de Park Chan-Wook vira fenômeno mundial, a Pixar lança outro clássico para todas as idades, Procurando Nemo, Quentin Tarantino segue com seu cinema único em Kill Bill e Tim Burton lança um singelo filme atípico Peixe Grande.

2004 — Michel Gondry faz um dos filmes mais singulares de todos os tempos, O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, na Alemanha, A Queda relembra as últimas horas de Hitler, Clint Eastwood emociona sem pieguice com Menina de Ouro, a Pixar bate ponto novamente com Os Incríveis, Martin Scorsese realiza o ambicioso O Aviador e Steven Spielberg brinca de ser Blake Edwards com O Terminal.

É parte da velha tendência, a memória afetiva, quando você minimiza o que é ruim no passado e ressalta o que é bom. É um mecanismo de defesa. O novo sempre é o diferente. O novo sempre é a ameaça ao status, ao que você conhece como vida.

O novo sempre é o que tem que ser combatido, seja ele computadores em casa, games, Pokémon Go, a lista é infinita.

2005 — Christopher Nolan recupera as credenciais da franquia Batman com Batman Begins, os quadrinhos voltam às telas com Sin City, Steven Spielberg faz um de seus filmes mais densos Munique, Sam Mendes exorciza os traumas de guerra com Soldado Anônimo, Roman Polanski adapta o clássico de Charles Dickens em Oliver Twist, David Cronenberg faz Marcas da Violência, Ang Lee dirige O Segredo de Brokeback Mountain.

2006 — Martin Scorsese ganha com um grande atraso seu Oscar por Os Infiltrados, Christopher Nolan entrega a obra-prima O Grande Truque, a Alemanha comparece com A Vida dos Outros, Alfonso Cuarón traz Filhos da Esperança e Guillermo Del Toro realiza a fábula macabra O Labirinto do Fauno.

O novo é sempre a lembrança que você está ficando para trás.

É a insegurança, o lembrete de que nada é perpétuo e estável.

É a confirmação de que o tempo passa para todos.

Óbvio que Chico Bam e Chico Bum negariam tudo isso apresentado. Para eles é uma merda porque é uma merda, ponto final.

2007 — Os irmãos Coen finalmente alcançam a consagração tardia com Onde os Fracos Não Têm Vez, Paul Thomas Anderson coloca mais um alicerce em sua sólida filmografia com Sangue Negro, Sylvester Stallone recupera a dignidade perdida com Rock Balboa, Judd Apatow faz Superbad — É Hoje, o Brasil participa da febre Tropa de Elite, Zack Snyder consegue ser a sensação do verão com o feérico –e copiado — 300, David Cronenberg faz Senhores do Crime, David Fincher investiga a mente criminosa com Zodíaco, Ang Lee realiza o ótimo Perigo e Sedução e a Espanha aterroriza o mundo com Rec

2008- Christopher Nolan faz O Cavaleiro das Trevas, da Coreia vem O Hospedeiro, Frank Darabont faz O Nevoeiro, a Pixar faz a fábula Wall-E, Clint Eastwood faz o que talvez seja seu filme mais pungente, Gran Torino, Darren Aronovski apresenta O Lutador, tem também a ficção distópica A Estrada, o terror Pontypool. Danny Boyle importa Bollywood em Quem Quer ser um Milionário, Peter Jackson volta às câmeras com Um Olhar do Paraíso, Ron Howard mostra ser um diretor sutil com Frost/Nixon, Nicolas Winding Refn faz com Bronson e o documentário Dear Zachary parte seu coração.

2009 — Henry Sellick mostra que ainda existe espaço para as animações stop-motion com Coraline, Quentin Tarantino apresenta Bastardos Inglórios, Duncan Jones faz Lunar, da África do Sul vem Distrito 9, surge o filme de zumbis mais cool de todos os tempos Zumbilândia, a Argentina traz a obra-prima O Segredo de Seus Olhos, a Coreia faz bonito com Thrist e a Pixar faz Up.

2010 — Christopher Nolan fecha a ficção A Origem, Denis Villeneuve surge com Incêndios, Martin Scorsese retoma a parceria com Leonardo DiCaprio com A Ilha do Medo, no Brasil, Tropa de Elite 2, Darren Aronovski faz Cisne Negro, Edgar Wright faz Scott Pilgrim Contra o Mundo

Convenientemente se esquecem que não importa a época, o grosso da produção cultural sempre vai ser lixo puro.

2011 — A França emociona com Intocáveis, Nicolas Winding Refn faz Drive, Roman Polanski volta às câmeras com O Deus da Carnificina, os irmãos Coen fazem Bravura Indômita e o cinema é homenageado por Martin Scorsese em A Invenção de Hugo Cabret e no francês O Artista.

2012 — Os Vingadores consolida a era Marvel no cinema, James Bond protagoniza sua melhor aventura com Skyfall, Ang Lee explora o 3D ao máximo em Aventuras de Pi e Paolo Sorrentino apresenta Aqui é o Meu Lugar.

2013 — Martin Scorsese entrega O Lobo de Wall Street, Alfonso Cuarón faz Gravidade, Ron Howard entrega outro grande filme com Rush, Dennis Villeneuve faz O Suspeito, os irmãos Cohen voltam à carga com Inside Lewis Davis, Guillermo Del Toro faz o filme de monstros definitivo com Pacific Rim, Roman Polanski aposta no minimalismo de A Pele de Vênus e Joon Ho-Bong faz Snowpiercer.

2014 — Christopher Nolan faz Interestelar, Whiplash vai para Oscar, Birdman de Inarratu, a Argentina vem com Relatos Selvagens, a Marvel Filmes entrega Capitão América — o Soldado Invernal e Guardiões da Galáxia, o Jogo da Imitação, O Grande Hotel Budapeste. Babadook. Comunismo Vs Chuck Norris, Duna de Jodorowsky. O Abutre.

2015 — Divertidamente, da Pixar, J.J. Abrahams recupera a magia de Star Wars com o Episódio 7, Spotlight, Mad Max — A Estrada da Fúria, O Regresso. A Travessia. A Corrente do Mal…

Os filmes passam, Chico Bam e Chico Bum não prestam atenção. Apenas seguem falando, imersos demais, insistentes demais no pesado fardo de sempre ter razão.