Sobre pessoas com quem converso — mas nunca vi

Se você é novo aqui, deixe-me apresentá-lo às regras da casa. No Sobre, quatro excelentes cronistas e eu nos reunimos semanalmente para debater temas aleatórios. Depois que cada um dos co-conspiradores* apresenta o seu tema, eles são sorteados e distribuídos entre nós. Por ironia do destino, me coube, essa semana, escrever sobre isso aí: pessoas com quem converso. Mas nunca vi.

De imediato, me vieram três situações à mente:

Trabalhei alguns anos com telecomunicações e, em duas empresas, na seccionalização de falhas em circuitos de clientes fora do Brasil. O cliente tinha algum problema, eu fazia uma análise para descobrir onde tinha acontecido. O problema podia estar num par metálico, rádio, satélite, cabo submarino… Assim que eu descobria (eu sempre torcia pro problema ser no satélite ou no cabo submarino), eu ligava pra empresa contratada para a manutenção (que podia ficar em qualquer lugar do mundo) e solicitava reparos.

Eu queria ligar pra alguma dessas empresas no exterior e falar: “Olá, amigo. Desculpe incomodá-lo a essa hora, mas parece que houve um problema no link do satélite. Você pode mandar uma equipe de astronautas pra lá? Ah, ok. Quando sai o foguete? Ótimo, ótimo. Obrigado.” Ou então, poder dizer: “Saudações, colega. Preciso de um reparo urgente num cabo submarino que está na Fossa das Marianas. É, bem lá no fundo. Pode mandar uma equipe de mergulhadores pra fazer uma emenda? Não, não… Dessa vez, parece que não foram tubarões… Se meus instrumentos estão corretos, quem cortou o cabo foi o Kthulhu.”

Tinha um técnico na Holanda com quem eu falava esporadicamente. Na primeira vez que conversamos, tentei explicar que havia um defeito e…

— Qual a temperatura aí?

— Como é?

— Qual a temperatura aí? No Brasil? Tá muito quente aí hoje? Vocês já estão no verão, certo?

— Bom… Não tá tão quente hoje, tá 22º…

— CARA, COMO EU AMO O BRASIL, EU ODEIO MORAR NA HOLANDA, AQUI TÁ FAZENDO OITO GRAUS, EU JÁ FUI SURFAR EM SALVADOR, EU AMO SEU PAÍS E QUERO VOLTAR…

Conversamos mais algumas vezes e ele sempre me contava sobre suas viagens ao Nordeste e o quanto ele ama esse país que a gente tanto maltrata. Infelizmente, perdi o contato com ele. Mas tinha gente com quem eu conversava com frequência, tanto do call-center em Goiânia quanto das empresas parceiras, especialmente na Argentina.

Sim, eu gostava de conversar com os argentinos. Hail, Hydra.

Outra situação que lembrei são os amigos da internet que jamais encontrei. Muitos deles são bons amigos, grandes amigos, desenvolvemos um relacionamento bacana, nos falamos com frequência mas chego a pensar que, se eu passasse por um deles na rua, não reconheceria. Em alguns casos, meus amigos da internet viraram amigos do mundo “real”, rimos juntos, choramos juntos, fui até padrinho de casamento de alguns deles.

Mas ainda há aqueles que nunca encontrei. Que me pedem conselhos, que me ouvem quando preciso. Dividimos histórias, músicas, livros, textos — até crônicas. Eu fico com a sensação de que estou em débito com eles, que eles não podem ser apenas aquela fotinha quadrada no canto da página. São pessoas com quem eu deveria sentar calmamente e conversar por horas, mas continuo sem saber qual o timbre de voz delas, como elas riem, como elas gritam quando eu passo dos limites. Ah, sim. Já tive um amor platônico, ainda que eu não saiba exatamente a definição de “platônico”, mas sei muito bem qual a definição de “amor”. Como diria Alice Cooper, “o amor faz a gente fazer coisas engraçadas”, mas a internet também.

A terceira situação que pensei são aquelas conversas realmente divertidas, os diálogos que acontecem exclusivamente dentro da nossa cabeça. Eu já entrevistei Axl Rose após um show do AC/DC, já pedi pro Carmine Infantino desenhar personagens da Marvel pra mim, já rascunhei uma história com Kurt Vonnegut, já dividi o palco com David Bowie, já interpretei uma peça de Shakespeare para o próprio, tive aulas de esgrima com Christopher Lee, fui uma encarnação de Dr Who que ninguém lembra, exceto o primeiro Doctor, já comprei originais do Jack Kirby que ninguém viu, estive num bar esfumaçado com todos os jogadores do time do Torino de 1949…

Em voz alta.

Em lugares públicos.

Isso contribui para que metade dos meus amigos me diagnostique com todo tipo de distúrbio possível e imaginável, mas essa metade dos meus amigos não tem formação adequada para isso. Então, quem se importa?

Já a outra metade, só eu ouço. Eles me têm em melhor conta.

A maior parte do tempo, pelo menos.

  • - sobre o uso da expressão “co-conspirador”, ela parece extremamente equivocada, apesar de eu já ter esbarrado nela por aí. Se é “conspirador”, acho que já está implícito aí que essa pessoa está associada a alguém. Então, um “co-conspirador”, estaria, o que?, associado em dobro? É como dizer co-irmão. Se é irmão, como pode ser “co”? Existe irmão em segundo grau? Então a expressão não diz nada, é redundante ou completamente errônea. Mas achei que ela podia ficar lá em cima, enquanto essa nota a justifica aqui em baixo. É praticamente um diálogo comigo mesmo. Achei pertinente.
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.