Sobre relógios de pulso

Antes de começar, quero mostrar algo à vocês:

“Instruções para dar Corda no Relógio
Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as velas do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte, se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada.”

Pois bem, esse texto é de um argentino chamado Julio Cortázar, um dos grandes do Realismo Fantástico. A primeira vez que entrei em contato com os textos dele confesso que foi uma revolução na minha mente. É mágico olhar o Mundo pelas lentes -ou palavras nesse caso- de Cortázar.

É engraçado perceber que sim, no fundo, todo relógio sem corda carrega a morte. Sua única função na vida, seu único propósito, não está sendo realizado.

Comprado, achado, roubado, construido, bonito, feio, comum, incomum, caro, barato, um brinde de imobiliária… Que seja! A única função da pequena peça que você vai amarrar ao pulso e carregar por ai é contar o tempo e se não o fizer, ele carrega a morte consigo.

Pessimista? Não, só explorando a realidade que, por vezes, deixa de se revelar aos olhares apressados que não percebem que a pecinha que carregam é, justamente, para evitar que se apressem.

Relógios de pulso não marcam o tempo que virá. Eles são uma lembrança constante do tempo que passou e não nos demos conta. Não indicam o que virá, mas sim o que se foi, o que perdemos.

Os ponteiros não indicam somente o tempo. Eles indicam o que não nos pertence mais, que passou, que não nos esperou e nem vai esperar.

Eu lembro do relógio que eu mais gostei: um de metal, bordô fosco, quadrado, com dois mostradores de horas -um digital e um analógico. Ganhei quando completei 17, talvez 16 anos… Não lembro direito. Um presente de minha mãe que sempre me fazia lembrar do quanto ela me conhecia, afinal, só ela pra saber que eu não conseguia ver as horas em relógios analógicos na época.

Lembro de como esse relógio aguentou firme ao meu lado. Todas as batidas, arranhões, lascadas em quinas… Bom, depois de me acompanhar por muito tempo ele deixou de cumprir sua função. O tempo que lhe garantia a vida não pertencia mais a ele.

E aí eu descobri outra função dos relógios de pulso: marcar memórias.

Quem registrou a hora que você conheceu aquela pessoa especial? E aquela apresentação que definiria os rumos, onde foi que você olhou pra saber se era o momento certo? E aquela prova que você não podia se atrasar?

Os relógios sempre estão conosco nos lembrando de coisas óbvias. Lembrando que o tempo não nos pertence, lembrando que o que tem pela frente não é o que falta, mas sim o que resta e ajudando nos registros dos momentos que fazem diferença. Mesmo que não percebamos isso, eles são os abre-alas de grandes mudanças.

O relógio que ganhei de minha mãe descansa na primeira gaveta do meu criado mudo, funcionando como a chave que destranca velhas lembranças. O livro com o conto do Cortázar, no momento, está jogado na minha mesa de trabalho enquanto a frase de seu texto ocupa minha mente:

“E lá bem no fundo está a morte, se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada.”

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