Sobre saudades do que não vivi

Eu gosto de História. Desde pequeno, sempre gostei. Eu era criança no final da Guerra Fria, aquela era pré-apocalíptica da paranoia e do medo de um holocausto nuclear. Hoje os noticiários são tomados pelos escândalos políticos, mas até o final dos anos 80, meus amigos…

É o único período da história que eu gostaria de ter vivido, testemunhado in loco. Mas é claro que, durante a minha infância, a Guerra Fria já era meio que um presunto, digamos assim. Aqui no Brasil, de modo geral, as pessoas não tinham noção do que era o horror de viver sob a ameaça de um inimigo distante, mas terrível e implacável. Isso porque só conhecemos o medo dos americanos, por influência de Hollywood. Não sabemos do que os soviéticos tinham medo. Eles viraram robôs para a nossa percepção, ou zumbis. Frios pedaços de pedra, sem emoção ou sonhos.

Outra coisa que a gente não sabia, e nem fica sabendo totalmente hoje em dia, são aquelas histórias da Guerra Fria que foram enterradas sob toneladas de protocolos, documentos oficiosos, mentiras e negações. Claro, a gente tende a imaginar que os governos sempre vão mentir em situações como essa, mas sejamos honestos: naquela época, era melhor esconder tudo.

A Guerra Fria estava longe de ser uma operação estratégica bem planejada. Na verdade, quando a gente para pra analisar a coisa toda, era como se aqueles nossos dois velhos vizinhos rabugentos tivessem o controle de todo arsenal nuclear do planeta. O que os impede de explodir a casa um do outro — e o mundo inteiro no processo? A ciência não explica. Nem a filosofia, antropologia, ou a psicologia. Provavelmente, nós apenas demos sorte.

Em 3 de junho de 1980, por exemplo, o comando de defesa aeroespacial (NORAD, na sigla em inglês) detectou “2 mísseis vindo pra cá”, às duas da manhã. Como se isso não fosse ruim o bastante, em poucos segundos o painel de radares detectou “220 FUCKIN’ MÍSSEIS VINDO PRA CÁ”.

Alarmes dispararam, soldados entraram de prontidão, bases militares começaram os procedimentos para o holocausto que viria dos céus (rezar, talvez). Felizmente, antes que as contra-medidas fossem acionadas, alguém percebeu que nenhum dos radares mostrava os mísseis. Alarmes foram cancelados, soldados voltaram a dormir e bases militares entraram em modo de “ah, dane-se”. Levou três dias para descobrirem que a falha foi causada pelo mal funcionamento de um chip que custava 46 centavos. O mundo podia ter acabado por causa de 46 centavos.

Que. Época.

No começo dos anos 50, a CIA usava balões meteorológicos pra mandar propaganda capitalista pra dentro dos territórios comunistas. Eram milhares de balões cheios de panfletos desmascarando as farsas do socialismo e mostrando como o modo de vida americano era superior. Aí um agente da CIA teve a ideia mais quinta série da história da Guerra Fria — e olha que esse é um feito e tanto.

Ele resolveu mandar preservativos extra-ultra-mega-blaster-grandes para os soviéticos, mas nas embalagens estava escrito “pequeno” ou “médio”. O plano, claro, era convencer os soviéticos de que os americanos eram não apenas intelectualmente bem dotados. Por algum motivo (bom senso?) a ideia foi vetada.

Como foi vetado também o projeto A119, um plano ardiloso para mandar um míssil para a Lua, no exato ponto em que o lado escuro e o lado claro de nosso satélite se encontram.

Sim, é isso mesmo. O plano era mandar um míssil para a LUA.

Explodir uma bomba atômica nesse ponto específico ia colocar o Sol atrás de um cogumelo atômico, o que tornaria a explosão visível a olho nu aqui da Terra. Felizmente, por razões ainda não totalmente explicadas pela ciência, os americanos desistiram desse plano. Talvez porque resolveram se concentrar em… outros projetos.

Durante 20 anos, os americanos gastaram cerca de 20 milhões de dólares com… telepatas.

Tudo começou quando a inteligência americana (pronuncie essa expressão com ironia) conseguiu a informação de que a inteligência soviética (mais ironia) estava empregando telepatas. Então resolveram começar um projeto similar. A ideia era usar algo chamado “visão remota”, que consistia em ver telepaticamente lugares distantes. Os militares colocavam os “telepatas” em uma sala e davam a eles uma série de coordenadas. Os telepatas diziam o que tinha naquelas coordenadas, os militares confirmavam a informação com o uso de satélites e, se os telepatas acertassem, bingo! Carteira assinada, férias, décimo-terceiro… Você ainda tem algo a dizer sobre o funcionalismo público? Esses telepatas ficaram empregados por vinte anos!

Claro que estou idealizando tudo. A maior parte dessa informação era confidencial e não veio a público até recentemente. Então eu teria que ser um oficial da CIA pra ter acesso a um mínimo que fosse de todos esses dados. Ou o próprio presidente. O público comum era inundado por propaganda sobre os perigos das armas nucleares do inimigo e de como as próprias armas eram eficientes e letais, apenas quando usadas contra a “ameaça vermelha”.

Continua sendo um dos períodos mais fascinantes da história da humanidade. Se sobrevivemos à Guerra Fria, então é bom que as raças alienígenas que querem invadir nosso planeta saibam que podemos sobreviver a qualquer coisa. Exceto, claro, se eles adaptarem o plano dos preservativos pra abalar nosso moral. O que é, basicamente, a explicação para todo o desenvolvimento da Guerra Fria: um loooongo “o meu é maior que o seu” com bombas atômicas. Uma longa quinta série, da qual, felizmente, parece que conseguimos tirar algumas lições e garantir a continuidade de nossa civilização.

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