Sobre snipers na ComicCon

Aqui estou eu, mais um dia. Sob o olhar sanguinário do vigia.

Bem-vindos a Paranoia, 2016.

Uma terra em que todos são culpados até prova em contrário — onde cabe, então, um singelo pedido de desculpas. “Ops, acabamos de notar, seu filho não era terrorista. Mals aê”. Onde os seus direitos civis são cassados, extintos, anulados ou ignorados, de acordo com a legislação vigente em nome de um suposto “bem maior”. Imagine como é, ser tirado de sua casa, sem direito a julgamento ou mesmo uma acusação formal, levado para longe de sua família e ser torturado, preso, humilhado, perder seus bens e todo e qualquer direito que, porventura, você tivesse. Ah, sim: sua família não ia ter informação nenhuma a seu respeito. Tinham que esperar até o corpo ser devolvido, junto com a conta da bala.

Exagero? Talvez. O fato de ler gibis de super-heróis desde, bom, desde que me entendo por gente, me deu uma visão do mundo onde algumas leis podem, sim, e até devem ser quebradas. Mas não temos pessoas de moral íntegra e retidão de caráter no nível de um Batman ou Superman no mundo em número suficiente pra confiar que alguém faça isso pelos motivos corretos. Pessoas são fracas, facilmente corrompidas, gananciosas, estúpidas e covardes o bastante pra tentar se manter numa posição de poder a qualquer custo. Pra isso, basta eleger um inimigo, apontar um número suficiente de dedos para ele e deixar que as massas façam o trabalho de odiar.

O fato de eu gostar tanto de histórias em quadrinhos, dos super-heróis fantasiados e sua idoneidade sobre-humana, sempre me fez enxergar que pessoas que gostam de gibis têm uma tendência maior a serem mais tolerantes, respeitosas e amistosas, especialmente entre si. A verdade é um pouco mais cruel que isso, mas já fui em eventos com pessoas falando animadamente sobre histórias, filmes, animações, comprando revistas, pôsters, DVDs e até, vejam vocês, fazendo cosplay. Acho que alguém que faz cosplay se sente muito seguro de si e está encontrando um meio de manifestar justamente essa tolerância para com o próximo. Aí a gente pega um evento como a San Diego Comic Con, a maior convenção de quadrinhos do mundo (bom, hoje ela é bem mais do que uma “convenção de quadrinhos”: os grandes estúdios de Hollywood escolhem justamente a SDCC para apresentar trailers e entrevistas com o elenco de suas produções multimilionárias, séries são anunciadas, grandes artistas são assediados, etc) e lá tem aquele verdadeiro exército de gente fantasiada como seu personagem favorito.

Lembrem-se, moramos no mundo fictício de Paranoia, o ano é 2016 e estamos falando de um lugar cheio de gente, de todas as classes sociais, e é liberada a entrada de pessoas fantasiadas, o que dificulta a identificação.

Resultado? Botaram um sniper no telhado.

Não, não era cosplay. Botaram MESMO um sniper no telhado. Um atirador de elite, mirando pra multidão que fazia fila na porta do evento, pronto pra mandar headshots em qualquer suspeito que… Humm…

Bom, vejamos.

Se eu fosse um atirador de elite, nunca, por nada, ninguém, motivo ou dinheiro nesse mundo, atiraria no Batman. Tudo bem, é um cara FANTASIADO de Batman, fazendo COSPLAY de Batman, mas e se o VERDADEIRO Batman, o MALDITO Batman, quisesse se infiltrar no evento sem ser notado pra, sei lá, negociar gibis raros? Vai saber. Aí você olha praquele Ben Affleck, fica desconfiado que ele seja um terrorista e, quando PENSA em atirar, blá! Levou um batarangue na cara, vai ser espancado pelo Cavaleiro das Trevas e entregue todo amarrado pro Comissário Gordon.

Estou num momento da minha vida em que, definitivamente, não preciso passar por isso.

Eu também nunca atiraria no Superman. Seria inútil (se fosse o verdadeiro). Wolverine, idem. Fator de cura. Mulher Maravilha tem os braceletes pra desviar os disparos, também não tentaria. Magneto, outro que não tem medo de bala. Homem-Aranha tem reflexos ampliados pelo “sentido de aranha”, então sem chance. Flash? Hah! Hulk? Pfff. Coringa? Não, por medo. Se eu errasse, estava tão ferrado que era melhor pular do prédio com a arma dentro da boca. Motoqueiro Fantasma? Ah, nesse eu atirava. No Pinguim eu também atirava, até porque ia demorar pra alguém sentir falta. Aquaman, não, em consideração a um amigo meu que é fã dele, mas no Namor eu atirava. Um tiro em cada joelho. E depois diria “agora corre que o próximo é no saco”.

O que? O Namor é invulnerável? Ah, então esquece.

É meio difícil ser sniper e fã de quadrinhos num evento desses. Fico me perguntando se passa pela cabeça do nobre oficial em cumprimento do dever esse tipo de coisa. Talvez o meu personagem favorito na Marvel atualmente, o Justiceiro é bastante popular por sua, digamos assim, carência de recursos dialéticos no trato com a bandidagem. Não tem coré-coré, é tiro, porrada e explosão. Aí tá lá o sniper, no alto do prédio e “olha o Dr Destino. Fdp, toma essa!” Se a gente for considerar as versões para o cinema do Dr Destino, seria até um ato de misericórdia. Lex Luthor? Ah, lelexlexlex. Sem comentários. Duende Verde? Bang! Carnificina? Bang! Dentes de Sabre? Bang! Duas-Caras? Bang! Bang!

O que fica bem claro quando a gente lê esse tipo de notícia é o quanto as pessoas estão vulneráveis. Ninguém é à prova de balas. Havia, mesmo, um atirador de elite em uma convenção de quadrinhos com centenas de fãs fantasiados. Alguns usando fantasias que exigiam uma parafernália facilmente confundida com armas, porque eram pra parecer armas mesmo. Imagine o quanto os fãs de Deadpool sofreram (se bem que esses merecem). Não sei se estavam alheios ao fato. Talvez as autoridades estivessem imaginando que, horas mais tarde, iam capturar um cara que quis matar o Jason Momoa por não concordar com o casting pra Aquaman, ou o Dan Didio porque, oras, DC, ou o Joe Quesada pelo Mefisto, Josh Trank pelo Quarteto Fantástico, J M Straczinsky por tudo ou quem sabe até Jennifer Lawrence pela falta de Mística e excesso de Jennifer Lawrence nos filmes dos X-Men. Lembrem-se: há celebridades sendo ameaçadas de morte a todo instante e há muitas sub-celebridades querendo um lugar ao sol, a qualquer custo. Os grandes painéis, como o Facebook, deixam claro que aceitar o diferente, definitivamente, não é um atributo da nossa civilização.

É de se pensar. Nesses tempos onde pessoas atiram em outras simplesmente por discordarem, temos um sniper no telhado.

Te cuida, Zack Snyder.

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