A Amazônia é uma questão de todos

Máquina em punho durante expedição no meio da selva amazônica

O sol ainda esquentava quando raiava a nossa jornada diária para desbravar a RDS do Uatumã, reserva natural que barbudos de todo o Brasil ajudam a recuperar. Eu, pela Bambalaio, e meus parceiros Hermano e Ju, da DoRio Filmes, fomos a convite da Sobrebarba à Amazônia para conhecer de perto e documentar em vídeo e foto as comunidades beneficiadas pelo projeto Carbono Neutro, do IDESAM. Foi a nossa primeira experiência amazônica. E logo numa missão incrível com esta marca que não estava com foco em produzir um conteúdo institucional tradicional, mas que nos incentivou a explorar o potencial emotivo na narrativa documental para sensibilizar o público sobre uma questão trata de um “problema” de todos nós: o desmatamento neste bioma que é tido como o pulmão do planeta.

Junto com o Daniel da Sobrebarba, que reverte parte da receita das vendas para transformar áreas degradadas em agroflorestas produtivas, ficamos muito bem impressionados com os resultados cativantes obtidos até aqui, fruto de um trabalho de formiguinha feito com bastante compromisso e seriedade pela equipe da ONG.

Ju, Daniel e Hermano, Ramon

Nossa expedição, que contou com a companhia da SEMA (Secretaria de Meio Ambiento do Estado do Amazonas) a partir de Manaus durou apenas dois dias, mas buscamos multiplicar as horas do dia com diversas baterias extras e muita energia para captar a alma dos moradores locais que abraçaram a iniciativa do IDESAM, que transforma pastos em agroflorestas, recuperando os mananciais do Uatumã e gerando renda para seus beneficiários. Além disso, conseguem neutralizar e minimizar as emissões de carbono de empresas brasileiras devolvendo o verde à floresta.

Depois de percorrer 4h de avião do Rio para Manaus, 5h carro e 2h de voadeira para alcançar as belas margens do rio, numa reserva de 424.300 hectares parceira do IDESAM deste 2011, conhecemos alguns dos moradores locais beneficiados pela iniciativa. O projeto tem como objetivo recuperar áreas que foram degradadas (principalmente pela pecuária) através da implementação de SAFs (Sistemas Agroflorestais), que consistem no plantio de árvores nativas em meio a frutíferas, tubérculos, leguminosas, entre outras, para que as comunidades possam além de tirar o sustento através da subsistência, incrementar suas rendas enquanto recuperam suas florestas. E para nosso orgulho, está dando certo!

Durante nosso período por lá, ficamos entre as plantações, florestas e jornadas de barco entre uma comunidade e outra, buscando entender a dinâmica do reflorestamento, desde o cultivo de mudas nos viveiros até o plantio em si, passando pelo principal: de que forma aquilo tudo estava melhorando a vida daquelas pessoas.

Nosso anfitrião foi o Ramom Morato, figura gente fina que é coordenador de Agroecologia do IDESAM, destacou a importância desta iniciativa para os moradores locais que estão conseguindo mudar suas práticas através da implementação deste sistema.

“A ideia é promover modelo para que as famílias transmitam entre elas o conceito, sugiram o SAF uns aos outros e incentivem suas participações. Eles são muito determinantes inclusive na hora de aprimorar o projeto, que se adapta às necessidades de cada agente local”, explicou Ramom. Como é o caso do José Monteiro, o “Papa”, que através da implementação do SAF viu no turismo e na pesca esportiva um caminho para a recuperação de suas áreas e hoje é um dos influenciadores do projeto que propaga o conceito do SAF de forma mais abrangente e efetiva. Até o esterco criado por suas pequenas criações de galinhas caipiras e cabras é usado como adubo na plantação.

Um caminho parecido está seguindo o Seu Aldemir (foto abaixo), vizinho e amigo do Papa. Ele também quer começar a receber visitantes de fora interessados em viver uma experiência do turismo de base comunitária, além de ciceroneá-los em trilhas e matas que cercam sua propriedade. Ele, que já trabalhou no passado para o “lado negro da força”, extraindo ilegalmente o Pau Rosa (óleo usado como fixador em perfumes famosos do mundo), hoje ele é um protetor da árvore, investindo na plantação de indivíduos em seu SAF num sistema sustentável.

Nossa experiência foi inesquecível. Deu para ver de perto como uma iniciativa que parte do escritório de um centro urbano pode, de fato, impactar positivamente a qualidade de vida pessoas que vivem de forma simples à beira de um rio na Amazônia profunda. Isso me fez refletir sobre aquelas vezes que temos o desejo de apoiar causas nobres, mas não sabemos como. E que existem organizações e empresas de pequeno porte que se unem para fazer a parte delas. Ou seja, qualquer grande transformação começa com um importante primeiro passo.

Nestes seis anos de ação na reserva, o projeto Carbono Neutro já beneficiou 30 famílias e existe pela frente uma lista vasta de outras comunidades potenciais. O objetivo de longo prazo é que todas as áreas degradadas da reserva sejam recuperadas com o SAF. E saber que muita gente de todo o Brasil ajuda este sono a se tornar realidade, algo muito gratificante. A Amazônia é uma questão de todos nós e precisamos tratá-la com carinho. Até agora, 20 hectares já foram implementados. Que venham os próximos. E já queremos voltar para ver os resultados.