leãozinho

ana rosa egidio
Nov 3 · 21 min read

Para ler com:

FIRST DAY OF MY LIFE, Bright Eyes.

O LEÃOZINHO, Caetano.

***

— Ele vai pedir para você comer alguns cookies, mas não aceita. Ele cozinhou na semana passada e ainda tenta passar para as pessoas.

— Ele cozinha?! — Minha voz saiu sem fôlego por causa dos degraus, o que fez Lisa olhar para trás e me lançar um sorriso. Uma criança de sete anos não deveria fazer desenhos em palitos e gostar de carrinhos de plástico? Eu deveria ter pesquisado mais sobre crianças de sete anos. Meu sobrinho definitivamente não fazia bolos para passar o tempo. Quantos anos meu sobrinho tinha? Agora vou ter que ligar para minha irmã para perguntar o que vai levar a perguntas sobre meu interesse atípico por crianças.

— Ele não cozinha, ele inventa, digamos… Ele fica muito tempo com a Monica.

— E por que os cookies tem uma semana?

— Porque são horríveis. — Ela sacudiu os ombros com simplicidade, virando-se para a esquerda.

O corredor era pouco iluminado, com quadros de flores brancas e sem contraste nas paredes. Minhas mãos contornaram meu vestido e percebi que eu também estava de branco e aquilo ficou muito claro para mim: todo o branco que havia em minha roupa e nos quadros bregas desse corredor e nas paredes de solteiro do meu apartamento. Será que Caio gosta de todas as cores ou ele tem alguma espécie de alergia caleidoscópica?

Branco. Tinha branco por todo o lugar.

Eu estava tentando lembrar das cores dos móveis da minha sala, mas Lisa parou em frente a uma porta com o número 42 e apertou as mãos ao redor da sua cintura, como que por hábito. Não tinha um tapete de boas vindas embaixo de nossos pés.

— Eu me dou bem com crianças. — Senti as palavras saindo da minha boca, sem comando.

— Gio, segura minha mão.

— A gente vai entrar de mãos dadas? — Soou mais desesperado do que eu imaginei, mas Elisa apenas riu e fez um sinal para que eu falasse baixo.

— Não, ainda não. Anda, segura aqui. — Ela estendeu a mão e segurou meus dedos de maneira firme. Senti seus anéis finos acariciando minha pele ao mesmo tempo que seu polegar fazia seu caminho costumeiro pela cicatriz na palma da minha mão. Observei suas unhas gastas por um tempo, até respirar fundo e virar para seus olhos. Escuros, calmos.

— Eu sei. — Suspirei.

— Sabe?

— Sei. Mas eu tô nervosa, Lis.

— Por que?

— Por todos os motivos óbvios, eu acho. Por algo. Não sei. — Deixei que a risada dela me acalmasse um pouco, mas o sorriso logo morreu.

Ela olhou para baixo por um tempo e vi seu peito subir e descer. Ela se aproximou em um movimento rápido, encostando seu nariz com leveza por todo meu rosto. Era uma de suas manias estranhas, como se reconhecesse meus traços como um filhotinho. Fez isso desde a primeira noite que ficamos juntas.

— Caio é bastante inofensivo, Giovana.

— Não é por isso, eu só… nunca passei dessa fase.

— Qual fase?

— De conhecer alguém. Eu geralmente fico na parte em que a gente desliga o telefone e finge que nada aconteceu.

Minha namorada arregalou os olhos e me deu um beliscão na barriga.

— Eu sabia!

Ai! Mas eu liguei depois!

— Agora quebrou a magia. — Ri quando suas covinhas apareceram. A velocidade que o sorriso dela levava para me acalmar me assustava. Era um dos motivos de eu ter aceito estar aqui hoje, depois de tantos meses. Ela contornou seus dedos pela minha corrente de prata e a arrumou em volta do meu pescoço, traçando um caminho da nuca até o meio do meu peito. Seus dedos se perderam no grande “H” em prata, mas seus lábios me seguiram e ela deixou um beijo curto no meu rosto.

— Caio também nunca passou nessa fase.

Acenei para ela e voltei a desamassar o tecido do meu vestido.

— Ele gosta de branco?

— O que?

— Esquece. — Abanei a cabeça e virei para a porta — Tudo bem, Lis, eu me dou bem com crianças.

E aquilo era verdade, mas aparentemente Caio não era uma criança qualquer. Seus olhos azuis e seu cabelo arrepiado até podiam se disfarçar no meio dos pequenos babões do ensino infantil, mas aquele garoto magricela ia muito além de competições por bolinhas de gude. Assim que entrei na casa, ele correu em direção da mãe, jogando-se em seu colo e envolvendo os braços em seu pescoço. Quando ela lhe disse meu nome, apontando para minha figura patética e pequena no corredor de entrada, percebi que ele não entendia porque precisava dividir sua melhor amiga com outra pessoa.

Sua mão soltou Elisa pelas próximas duas horas.

Dois meses depois e Caio ainda finge que não sabe meu nome. Minha irmã já tentou me convencer que não faria diferença, mas nunca mais usei branco perto dele.

II

— Mãe, sua amiga dormiu aqui duas vezes essa semana. Ela não tem casa?

— Caio!

A faca de margarina bateu na mesa e sujou a toalha quadriculada de vermelho. Eram bonitas, as variações de cores. Uma toalha grande e nova, que me separava de um garoto de cabelos arrepiados e uma namorada com o rosto tão vermelho quanto os quadrados em nossa frente e eu no meio, como sempre.

— Mas você perguntou isso quando o Miguel quis ficar para dormir.

Em vez de responder o filho, Elisa me encarou com os olhos arregalados. Ela precisava de ajuda, mas eu só conseguia pensar se capas de invisibilidade poderiam realmente existir. Talvez eu precisasse, porque Caio começou a me encarar por cima do seu copo de achocolatado.

— A diferença, Caio, é que sou sua mãe e posso convidar quem eu quiser para dormir aqui.

— É injusto.

— Caio.

— Só disse que é injusto, não que estou reclamando. Muitas coisas na vida são injustas. — O garoto voltou a nos ignorar para tirar as casquinhas do pão e me perguntei qual a idade mínima para aprender a ser cínico.

— Mãe, que necessidades a senhora tem?

Aparentemente, Caio ainda tinha ótimas perguntas.

— Necessidades?

— É. A Tia Monica disse que essa moça está aqui porque você tem necessidades.

Foi assim que o café que estava na minha xícara foi parar na mesa e minha namorada não se importou em limpar, porque estava mais preocupada em parar de tossir. Crianças são seres cruéis.

— E não é uma moça, Caio. É Giovana. — Foi tudo que a Elisa conseguiu responder, e de alguma forma, nunca tão poucas palavras pareciam tão erradas.

Ele virou para mim com a mesma expressão de quando acordou e me viu saindo do quarto de sua mãe. Percebi, então, que Giovana era um péssimo nome. Era o pior nome do mundo, ele nunca iria gostar!

— Giovane.

— Giovana. — Elisa repetiu.

— Giona.

— Caio.

— Lis, deixa. — Minha voz não saiu alta, pelo contrário, parecia nem querer estar ali, mas Caio ouviu e se virou com um olhar sério. Não era castanho como a mãe, mas eu reconheci o que significava.

— Elisa. — Sua voz saiu diferente, como quem está explicando a alguém como desarmar uma bomba e quer voltar para casa ainda no jantar.

— Elydia. — Respondi em automático.

— Elisa.

— Lisie.

Caio apertou as mãos na mesa e encheu o pulmão, mas antes que ele voltasse a falar, eu já estava rindo. Sua mãe também. Ele evitou olhar para nós e voltou a tomar o achocolatado, mas tive certeza que seus lábios estavam comprimidos ao redor de uma covinha que era muito parecida com a da mulher ao meu lado. Ele não fez mais perguntas até sairmos da mesa.

A campainha tocou e, para testar minha sorte, pedi licença até o banheiro. Enquanto Elisa recebia sua amiga e pedia para Caio terminar de se arrumar, pensei em todas as formas que eu poderia ter evitado esse café da manhã se tivesse ouvido o alarme essa manhã. Mas não ouvi, e agora um garoto que batia na minha cintura me lançava olhares de tédio enquanto eu me encolhia no sofá da sala. Monica, a amiga, escolheu um lugar que pudesse observar nós dois ao mesmo tempo, cruzado suas pernas e sorrindo. Pelo menos alguém estava se divertindo.

— Amor, você já deu comida para o Federico?

A voz de Elisa veio da cozinha, enquanto a morena descascava uma banana e sentava ao meu lado no sofá. Ele viu o corpo da mãe encostar em mim e eu não esperei para ver sua reação antes de desviar o olhar para a janela.

— Não, mãe. Eu sempre espero você.

A voz saiu tediosa de dentro da sua roupa bem arrumada. Monica iria levá-lo para uma volta no circo que estava na cidade. Eu ainda não sabia quem era Federico. O garoto sentou no tapete do meio da sala e vi seus dedos brincarem com o tecido grosso e chamativo embaixo dos seus pés. Ele também não usava chinelos, mas nunca o vi doente. Talvez Elisa o fizesse tomar vitaminas. Minha mãe com certeza faria assim que o conhecesse. Mas Caio não parecia uma criança fraca, pelo contrário, era mais alto do que o normal para a idade e tinha poucos traços de sua mãe, além da personalidade. Ali, no meio do apartamento pequeno que os dois moravam, ele parecia ainda maior. Estava por tudo: quadros, pantufas no banheiro e desenhos coloridos na geladeira.

— Gio pode te ajudar, filho.

Prendi a respiração quando voltei a escutar meu nome. Eu realmente estava pensando em um novo apelido agora. Ele havia virado em minha direção, olhando para mim como os garotos inteligentes da turma costumavam olhar, quando a professora os obrigava a me colocarem em seu grupo. Quando ele levantou e foi para a cozinha, olhei para Elisa tentando fazer ela entender através da falta de ar em meus pulmões o claro questionamento de: por que diabos você quer que eu morra hoje?

Enquanto Caio não voltava, minha namorada fazia sinais frenéticos para que eu fosse até o meio da sala. Levantei do sofá com o máximo de maturidade que pude e sentei no meio do lugar, olhando para a porta e escondendo o buraco em minha meia com a dobra da camisa de Elisa.

A criança voltou da cozinha andando devagar, como se tivesse uma bomba nuclear nas mãos. Entre seus dedos finos estava um pequeno aquário, com um beta violeta dentro. O menino colocou Federico no meio da sala e, antes que Elisa me agredisse, fiz alguns barulhos com a garganta, mas Caio passou por mim e foi até a mesa central, do lado da TV, pegando um pote pequeno nas mãos.

— Como você faz isso?

— Fazendo.

Ele era adorável.

— Caio. — A voz cansada de Elisa fez o menino se virar e olhar a mãe e encolher os ombros.

— Você nunca teve um bichinho? — Ele me perguntou, mostrando as rações miúdas dentro do pote.

— Não.

— Você tem alergia?

— Não. — Passei as mãos nas costas sem que Caio visse.

— Porque nunca teve um bichinho? — Ele questionou mais uma vez. Minhas pernas doíam da posição errada em que sentei, mas não consegui me arrumar.

— Minha mãe nunca deixou. Ela dizia que eu não saberia como cuidar.

— Você não sabe? — Caio afastou a ração e vi sua outra mão indo para o lado do aquário.

— Não, quer dizer, sim, eu acho que sei… Por que você não me ensina do seu jeito?

Ele ainda me olhava sério e não parecia querer fazer qualquer coisa que fosse comigo, mas a possibilidade de eu andar matando animais inocentes por aí o assustou um pouco.

— Pode ser. — Me aproximei mais, para mostrar que estava prestando atenção — É só colocar três desse. É uma vez por dia e só, se não ele morre.

— Ele não sabe a hora de parar de comer?

— Claro que não, o cérebro dele é desse tamanho! — Caio juntou os dedos, quase os encostando.

— Igual o do meu irmão.

Escutei Elisa rindo comigo, mas o garoto ainda me olhava sério, então fingi uma tosse para disfarçar. Ficamos observando Federico desviar das plantas artificiais em busca dos papeizinhos molhados na água. O garoto acariciou o vidro com cuidado, sem realmente tocá-lo. Percebi uma pintinha na ponta do seu indicador. Elisa tinha uma igual e meu peito apertou de uma forma estranha. Lembrei quando senti aquilo pela primeira vez, com meus próprios dedos discando os números da mulher sentada atrás de nós.

Eu não tinha a intenção de me lembrar do telefone, muito menos da pintinha, mas Elisa tinha algo que conseguia me fazer voltar para seu redor e aceitar qualquer coisa que ela me pedisse. Foi assim que me tirou da boate em que nos conhecemos e foi assim que eu a deixei pagar o motel, no dia seguinte, me impedindo também de recusar um café da manhã ao seu lado. Nos primeiros trinta minutos eu não disse nada. Elisa falava como se nada pudesse a perturbar, nem minha impaciência e nem os pedidos errados do garçom. Ela contou seus tempos de escola, os problemas com os pais e até o corte de cabelo de suas amigas, mas não pareceu encontrar brecha qualquer, espacinho que fosse, para me falar do ex-namorado de colegial que a engravidou e mudou de país, deixando um pequeno garoto de cabelos claros e olhos azuis para trás.

Não mencionou Caio nem quando nos despedimos no carro e ela se voltou para meu pescoço com seu nariz gelado, traçando minha pele. Parecia reconhecer o lugar como se fosse dela. Não sabia meu nome e já estava deixando marcas. Eu lembro mais desse dia do que quando ela me contou sobre seu filho. Até porque, era tarde demais. Eu já gostava de achar que minhas marcas pertenciam a ela.

A voz de Caio me despertou a atenção.

— Seu nome não começa com G?

— O que?

— Seu nome. — Ele havia tirado a mão do aquário e olhava para mim.

— É Giovana, filho, você sabe.

— Eu sei, mãe. — Ele respondeu rápido e se virou para nós. — Eu quero saber porque ela tem uma corrente com H. Você tem um namorado com a letra H?

— Não, Caio, eu não tenho um namorado. — O resto da frase ele já sabia, mas decidi mudar de assunto, porque gostava o som de sua voz quando não parecia querer me jogar coisas. — O H vem do meu pai. O nome dele é Harry.

— Quem nem Harry Potter?

— Isso, que nem Harry Potter. Mas é Harry Thiago Martelli.

— Então não é que nem Harry Potter.

— Não, eu acho que não. — Gaguejei — Mas a família dele era do Reino Unido, que nem o Harry dos livros.

O garoto continuava me observando e eu vi seus olhos mirarem meu rosto e voltarem para a corrente. Ele parecia se decidir entre a curiosidade e o número de palavras que já trocara comigo hoje.

— Por que você tem a corrente dele?

— Porque eu sinto falta dele. — Repeti em automático, como se aquela resposta sempre estivesse preparada, mas não estava. Eu não falava aquilo para as pessoas.

Os olhos de Caio se demoraram um pouco mais por ali.

— Eu gostei.

— Você pode ter uma também. — Respondi, passando o dedo pelos formatos cortados do pingente prata.

— Mas eu não sinto falta do meu pai.

Minhas bochechas ficaram frias e meu pescoço travou. Elisa deve ter visto meu corpo tremer em algum momento, porque se aproximou de nós com delicadeza. Antes que sua mãe sentasse ao seu lado, Caio tocou no desenho encostado em meu peito.

— Você pode colocar o nome de quem quiser. — Respondi, de repente.

— Pode? — A voz dele era firme, melhor que a minha, mesmo que também viesse baixinha.

— Pode. — Foi Elisa quem respondeu agora. Suas pernas esticaram-se ao redor do corpo do menino, como se o abraçasse pelos pés. Os dois de meias vermelhas.

— Mesmo que a pessoa esteja aqui? — Caio continuou, ainda olhando para a corrente.

— Vai ser ainda melhor.

Dessa vez minha voz saiu alto. Elisa sorriu e seus braços contornaram Caio, puxando-o para seu colo.

— Você prefere um F de Federico ou um M de Melhor Mãe do Mundo? — Minha namorada perguntou, arrepiando os cabelos loiros do filho, mas ele não riu com ela.

Olhava para mim e eu sabia o porquê. Fazíamos parte de um clube que não pedimos para entrar, mesmo que de maneiras diferentes.

Com mais alguns apertos, Elisa o deixou pronto para sair. Não poderia comer besteiras ou tomar refrigerante. Nem incomodar sua tia Monica. Ele revirava os olhos escondido dela.

Tentei não rir e guardei a vontade súbita de pedir para Monica que me deixasse ir com eles.

III

Elisa ficava bem com roupas largas. O moletom manchado ia até metade de sua barriga quando ela se espreguiçava no sofá e o sol fazia caminhos amarelos pelas suas coxas. Eu gostava de ver seu corpo iluminado pelo dia. Era raro. Mesmo que sua vida não tivesse espaços, ela fazia eu me encaixar nas arestas. Vi seu esforço hoje em conseguir um tempo só para nós, mas não quis fazer nada além de deitar no sofá e escutar seu peito subir e descer embaixo de mim. Ela tentou mudar de posição ou conversar sobre o último filme que vimos, mas não consegui falar muito. Sua respiração me acalmava no silêncio. Subia, descia, cada vez mais devagar.

A estante em minha frente parecia desfocada daqui. Entre os vários livros de enfermagem, espalhavam-se quadros com uma criança gordinha e sem dentes. Elisa e Caio estavam na primeira prateleira brincando em uma piscina, e depois na segunda, ao lado dos livros de culinária, cobertos de enfeites de natal. Juntos por todo o lugar. Fechei os olhos contra a pele de Elisa.

A conversa com Caio não saía da minha cabeça. Ele era uma parte tão grande dela que era inevitável me sentir acuada diante dos dois. Eles eram melhores amigos. Completavam-se como uma pequena balança. Quando ela estava irritada, ele era doce. Quando ele era teimoso, ela o perturbava com piadas. Lembrei da vez que meu irmão me levou escondida para um show de rock no porão de uma casa velha e saímos de lá com cheiro de cigarro, roucos de tanto gritar. Dez anos depois, a risada bêbada do meu irmão ainda existia dentro de mim, mesmo que não conversássemos mais.

Eu queria que Caio tivesse isso: queria que lembrasse da forma como Elisa o olhava e que guardasse todas as primeiras sensações da vida, coisas que voltam pela memória quando você não é mais pequeno, como pedacinhos quente de um mundo que realmente existiu. Queria que ele sentisse o que era ter alguém que para si. Não queria tirar o espaço das coisas que ele iria lembrar, mas hoje, mais do que qualquer dia, quis que Caio lembrasse de mim. Mesmo que um dia eu não exista mais para sua mãe, mesmo que meu rosto não esteja ao seu lado nos quadros dessa sala, quis ser o nome que apareceria em sua cabeça quando ele estivesse sozinho e precisasse lembrar o que ser a pessoa mais amada do quarto.

— Você não fala muito da sua família.

Senti o peito de Elisa ronronar embaixo de mim. Pensei que ela havia dormido. Sua voz preguiçosa me fez abrir os olhos. Ela se mexeu e abracei seu corpo, trocando nossas posições. Agora ela parecia um filhote de labrador dormindo no meu colo, com seus cabelos bagunçados e o nariz se escondido em minha camisa. Percorri suas costas com a palma da mão.

— Eu não sabia que seu pai se chamava Harry.

— É um nome estranho para um brasileiro. — Justifiquei, sem respondê-la.

— Não acho estranho.

— Você gosta de Harry Potter também?

Ela riu. Seu rosto virou, seus olhos estavam inchados de sono. Sorri em reflexo.

— Tudo bem não falar deles.

Eu não tinha o que falar. Não sabia. Ela parou de me olhar, mas seu toque continuou descendo e subindo pela minha pele.

— Eu sinto falta dele. — Respondi depois de um tempo.

— Por que?

— Por que eu sinto falta?

— Sim.

Ela agora se apoiava melhor no sofá, esperando uma resposta. Existiam vários motivos. Poderia lhe falar da briga com meu irmão na cozinha de sua casa ou como minha mãe encontrou um namorado rápido demais depois da morte do meu pai. Mas eu não sentia falta disso, sentia? Ou das outras coisas, de tudo que eu não poderia falar, porque se falasse, então seriam verdades grandes demais e não acho que teria espaço dentro de mim para elas.

— Liguei para minha irmã ontem. Ian fez oito anos semana passada. Pareço ter idade para ter um sobrinho assim grande?

Respondi Elisa o que pude, mas ela pareceu entender. Sorriu. Nossas cinturas se apertaram conforme ela se aproximou para beijar meu rosto. Tive impressão que ela tentava me ler através dos espaços que eu deixava. Mas não haviam mais espaços. Desde que Caio surgira e desde que ela me deixou sentar na mesa em que ele tomava café, cada fresta ou saída daquela relação havia sido fechada.

Os olhos dela eram parecidos com os dele. Ela me olhava e seus cílios fechavam com preguiça, e mesmo que fossem escuros e calmos e os dele azuis e esquivos, eram iguais e aquilo começou a apertar em meu peito. Tentei ser delicada e levantar para ir a cozinha sem acordá-la por completo, mas aquela mulher já tinha uma criança em casa e sabia ler movimentos de fuga.

Enquanto eu tomava um segundo copo de água, com a geladeira ainda aberta, escutei o barulho da vitrola na sala. Uma porta de correr de vidro dividia os dois espaços eu podia ver as formas da minha namorada dançando com os braços em círculo. Andei até a parede e me encostei, vendo sua o tecido fino de sua calcinha aparecer entre um giro e outro. Suas pernas douradas refletiam a luz do poste na rua. Estava escuro, amarelo, quente. Ela me olhou e me sorriu de volta, mudando a direção até uma caixa de discos no canto da sala, embaixo da janela. Enquanto seus dedos batucavam o piso, me abaixei atrás dela e a abracei por inteiro. Braços, ombros e mão. Ela respirou fundo e se encostou em mim, fazendo-nos sentar juntas.

— Lembra quando você disse que não sabia dançar forró?

— Elisa, por favor… — A capa do disco em suas mãos parecia ser de uma novela dos anos 80. A música já começava a tocar. — Eu não vou dançar forró em pleno sábado a noite.

— O que mais você poderia estar fazendo? — Minha namorada respondeu. Sua voz tinha gosto de sorriso leve, me puxando junto de si. A conversa no sofá começava a ficar pequena. Pequena o suficiente para se encaixar entre as frestas.

— Eu poderia estar fazendo muitas coisas. — Minha resposta soaria mais sincera se suas mãos não tivessem circulado minha cintura naquele instante.

— Não, não poderia. — Respondeu. Por alguns segundos seu rosto ficou ainda mais parecido com o de Caio.

Elisa cansou do esforço de fazer meus pés dançarem no ritmo certo e decidiu apenas encostar seu corpo no meu e nos balançar pela sala. Ela tomava cuidado para desviar das revistas coloridas de Caio no chão, enquanto eu me preocupava em não esbarrar no balcão em que Federico estava. A música mudou para um dedilhado de violão e reconheci a voz de Arnaldo Antunes, em Grão de Amor. Ela não tinha como saber, mas passei a infância escutando isso no rádio do carro de Harry.

Todas as coisas que eu não conseguia lidar estavam subindo pelos meus pés como oceano. As histórias ganharam forma, nos pedacinhos do menino, que agora eu tentava desviar enquanto seguia a música. Percebi que minhas pernas seguiam seu eu pensar, seguindo Elisa.

— Você estava certa.

— Sobre?

— Eu não poderia estar fazendo outra coisa.

IV

Um Caio suado e de cabelos amassados entrou correndo pela sala, fazendo pequenas cambalhotas no sofá. Elisa estava na cozinha acabando de arrumar as louças do jantar, mas foi rápida em colocar a mão na cintura. Minha mãe se orgulharia dela.

— A gente tinha combinado sem açúcar!

— Ele é seu filho. Você sabe como ele é insistente. — Monica colocou a mão nos bolsos de trás da calça, mas não se aproximou de Elisa.

Minha namorada até tentou manter a cara irritada, mas o garoto começou a pular ao seu redor contando sobre narizes vermelhos e trapézios gigantes e ela não conseguiu disfarçar mais. Quando Monica fechou o zíper do casaco, na saída da sala, a trovoada de fora parecia ter dobrado. Elisa não quis deixá-la ir de ônibus e então eu olhei para Caio. Ele também me encarou, porque era uma criança estranha e já havia entendido o que eu queria. Ficamos assim por um tempo enquanto Elisa se arrumava ao nosso redor, fingindo ser natural, mas eu vi ela colocando a chave do carro em todos os bolsos da calça.

Eu poderia ficar com ele por alguns minutos, não? Monica morava perto. Lis havia dito isso, três vezes. Caio abanou os ombros e correu para o banheiro.

— A toalha dele é a do Mickey. — Minha namorada me deu um selinho e fechou a porta sem esperar resposta.

Duas horas depois e ela ainda não havia voltado. Nem eu e nem o menino conseguíamos mais disfarçar. Sentei na ponta esquerda do sofá, porque sabia que Lis gostava de deitar a cabeça no canto direito para ver TV e era bem ali que Caio estava, como se eu não existisse. O telefone tocou no meu bolso e era Elisa me dizendo que não conseguiria voltar. Estava presa por uma rua alagada, ficaria por lá até de manhã, provavelmente. Eu precisaria colocar o menino para dormir e, se tomar café que nem uma pessoa normal ao seu lado já havia sido um desafio e tanto, aquele segundo passo parecia um teste de sobrevivência genuíno.

— É só colocar ele para dormir onde humanos geralmente dormem, Giovana. Na cama.

— Eu sei que humanos dormem em uma cama! — Sibilei, enquanto Caio fingia observar Federico nadando no meio da sala.

— Ele dorme rápido, eu prometo. — Ficamos em silêncio e voltei a sentir a casa pequena demais ao meu redor. — Deixa eu dar boa noite pra ele.

Estendi o celular para Caio e ele ajeitou o aparelho em seu ouvido. Suas mãos eram pequenas demais para o aparelho.

— Sim, mãe, eu vou. Não, mãe… Mas, mãe! Tá. Eu não posso prometer nada. Porque eu não posso. Mas é sua amiga, não minha.

Ele nem abaixou a voz para falar isso.

— Tá bom, mãe, desculpa. Tá, eu também. Tá. Beijo.

O garoto desligou o aparelho e o devolveu para mim. Coloquei no bolso e esperei que ele tivesse alguma reação por si só, mas ele não fez mais nada. O sofá, o telefone, a TV ligada, um garoto de sete anos de pijama de dinossauros e eu, que há 10 meses estava transando com pessoas no banheiro de uma boate. Eu, que não era amiga de crianças nem quando era uma. Eu que olhava para Caio que me olhava também e lia tudo isso. Um peixe beta e um leão albino e gigante.

— Caio, vamos dormir?

— Você vai dormir aqui mesmo? — Desliguei a TV, mas ele apenas levantou os pés no sofá.

— E você pode dormir sozinho?

— Eu sou um menino grande. — Suas mãos arrumaram o pijama, como se mostrasse que sabia do que estava falando.

— Eu sei disso.

— Pode ir, se quiser. Eu não vou contar para mãe.

Pensando bem, até uma peneira de plástico consegue tirar um peixe beta da água e o colocar em um copo plástico vagabundo.

— Mas eu não gosto de dormir sozinha. — Tentei. Vi seus olhos mais calmos em mim, indo do meu cabelo até a corrente prata em meu pescoço.

— Por isso que você vem dormir com a mãe?

— É.. Sim. Por isso também.

— E o outro também?

— Qual outro?

— O outro motivo do também. — Ele revirou os olhos, o que estranhamente o fez ainda mais parecido com Elisa.

— Ah, sim. Também… porque sua mãe é cheirosa.

Caio rompeu em uma risada. Foi a primeira vez que vi o espaço faltando entre seus dentes. Tentei rir com ele, mas o barulho que eu fiz foi como uma tosse rouca de um fumante crônico, então apenas disfarcei e caminhei até o quarto dele, o chamando. Vi o garoto virar de costas na cama sem falar mais nada. Apaguei as luzes, mas esperei minha visão se acostumar com o escuro, vendo seu peito subir e descer.

A cama de Elisa ficava estranha sem ela. Eu, em cobertas que não eram minhas, rodeada por um cheiro que não era meu, com uma criança que tampouco parecia querer ficar perto de mim. A casa estava em silêncio e eu escutava cachorros de longe. Nunca os escutei antes. Nunca vi as rachaduras no teto também. Estive preocupada com outras coisas, enquanto elas cresciam gigantescas e tomavam forma, puxando e soltando ar.

Quando tirei a coberta do meu corpo para respirar melhor, um trovão forte estourou do lado de fora e a luz do poste apagou. Eu não enxergava nada e prendi a respiração por reflexo. Pequenos barulhos abafados vieram do corredor, como formigas gigantes e rápidas. No escuro, percebi a porta se abrindo e um corpo pequeno passando por ela. A cama se mexeu e os pés gelados de Caio tocaram os meus meus.

— Giovana?

— Oi?

— Está chovendo. — Sua voz estava rouca e baixa, como se esperasse para ver se eu estava mesmo acordada.

— Você tem medo de trovoada?

— Não. — Ele estava dividido entre o irritado e educado. Levantei meu corpo, sentando mais perto de seu corpo amontoado no final da cama. — Você tem?

— Um pouco. Você quer ficar aqui comigo?

— Quando a mãe volta? — Ele se mexeu desconfortável.

— Amanhã só.

Meus olhos voltaram a se acostumar no escuro. Seu peito descia e subia rápido dessa vez. Suas mãos estava na barra de frente da camisa, apertando o tecido. Antes que Caio voltasse a falar, me estiquei e abracei seu corpo, puxando-o para perto de mim. Usei seu peso para o encostar em meu peito e cair para trás, deitando-nos na cama. Deixe que ele ficasse com o rosto no travesseiro da mãe, na mesma altura que eu. Não soltei sua cintura e não deixei que ele fosse para longe. Ele não tentou. Em vez disso, começou a apertar a barra da minha camisa velha.

— Minha mãe disse que meninos grandes também tem medo.

Já ouvi essa frase antes. Diversas vezes, deitada em minha própria cama, com Harry e minha mãe dormindo no quarto ao lado. Segurei os dedos de Caio entre minhas mãos e ele deixou. Cheirei seu cabelo e ele deixou. Eu estava na cama de sua mãe, e ele deixou.

— Sim. Os inteligentes, pelo menos. — Respondi.

Era isso que minha mãe falava para Thomas, quando nossa irmã ria do seu medo por borboletas. Eu sempre ficava do seu lado, porque meu irmão deixava eu dormir com ele quando eu tinha pesadelos. Ele também me deixou ficar do seu lado enquanto o caixão de Harry descia em nossa frente. Mesmo sem nos falar, ele segurou meus dedos entre sua mão e eu deixei, porque era ele. Na época, pensei que o medo era mais forte que o amor, mas talvez não. Talvez seja o contrário.

— Os inteligentes, pelo menos. — Caio resmungou.

Foi a última coisa que ouvi antes de dormir ao seu lado. Quando acordei, o sol pós tempestade deixava o quarto quente e o cheiro do shampoo de Elisa estava por todo o lugar. Seus braços caiam por cima dos meus e sua cabeça deitava no peito do filho. Observei a luz entrar entre as frestas até voltar a dormir.

***

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contador de histórias e rocketman. http://www.garagemdeluxo.com

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