A vila inglesa de São Paulo

Por Gabriel dos Santos

Na descida da extensa rodovia, a bordo de um antigo e barulhento ônibus intermunicipal da EMTU, já é possível sentir o friozinho da Serra, que faz os passageiros tirarem seus casacos da bolsa e vestirem. O orvalho da manhã grudado na janela dos ônibus “azuizinhos” se mistura com a neblina, o que prejudica muito a visibilidade. A viagem torna-se mais perigosa. O cheiro gostoso e puro da Mata Atlântica é coberto pela fetidez do salgadinho de queijo que uma passageira comia logo às 8 horas da manhã.

Ao desembarcar do ônibus, a primeira coisa que se vê é o cemitério, o que causa medo nos visitantes. A lenda do balanço que se move sozinho, do quadro da mulher que mexe os olhos e dos gritos vindos do castelo na madrugada colaboram para a fama de “cidade fantasma”. É um ambiente tranquilo, frio e silencioso. A sensação é de estar no século XVIII, em Londres. Parece um âmbito totalmente distante da agitação da Grande São Paulo, mas não não é tão afastado assim. Essa é a histórica, charmosa e surpreendente vila de Paranapiacaba. Distrito da cidade de Santo André, que está distante cerca de 50 quilômetros de SP.

Turistas são atraídos por essa tranquilidade que a vila possui. A ausência de carros transitando pelas ruas a faz muito semelhante às pequenas e remotas cidades do interior. É o que confirma Márcio Vilela, um homem de 48 anos, estatura média, um pouco acima do peso e de cabelos pretos e ondulados, já com alguns fios grisalhos. Ele é morador do bairro Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo e sempre que pode vai à Paranapiacaba para aliviar a rotina estressante que leva com a sua empresa. Tem a vila como um refúgio e lugar onde encontra paz.

É preciso ter cuidado ao caminhar pelas ruas de paralelepípedo. Por causa da garoa fina, o chão fica muito escorregadio. Apesar do frio, as calçadas são cama para cachorros que parecem estar abandonados. É impossível não reparar. Dona Zilda, proprietária do bar que leva o seu nome, confirma o abandono dos cães. De acordo com ela, muitas pessoas vêm para Paranapiacaba para abandoná-los, porque o distrito não tem um rígido policiamento nas ruas.

No alto da estreita escadaria, avista-se a tradicional e majestosa Paróquia Senhor Bom Jesus, mais conhecida como “igrejinha de Paranapiacaba”. A torre com o sino é possível ser avistada por vários pontos da Vila, por causa da sua cor amarela muito marcante. A construção é simples. Uma característica comum das pequenas igrejas brasileiras. Ao entrar na paróquia a sensação é de estar no sul de Minas Gerais. As paredes amarelas, tais como do lado de fora, contrastam com o piso alternado entre flores e losangos pretos e brancos. O sacristão, um senhor baixinho e dos cabelos brancos, já caminha com dificuldades devido a sua idade avançada. Ele deve ter lá pelos seus oitenta e poucos anos. Mas a idade não o impede de limpar bem os bancos e deixar as imagens dos santos impecáveis. Seu sorriso cativante me leva a crer no amor que ele tem por seu trabalho.

15 minutos depois paróquia, chega-se no Clube União Lyra Serrano. Um antigo casarão amarelo com coqueiros na entrada, que chama a atenção de quem passa. É a sede da união de dois clubes do distrito, a Sociedade Recreativa Lira da Serra e o Serrano Atlético Clube. Foi construído na década de 1930, em madeira com telhado de telhas francesas, muito bem conservadas até hoje e impressiona a todos que visitam a vila.

O cheiro perfumado de produto de limpeza e o chão brilhoso, encerado há pouco tempo, mostram que o local é muito bem cuidado pela dona Lídia, uma mato-grossense de 57 anos, bem magrinha e com muitas marcas de expressão e manchas queimadas pelo sol no rosto. Ela cuida do clube há 21 anos. Hoje o local é muito usado nos festivais que são realizados na vila, como o Festival de Inverno e a Feira Literária. As cortinas de cor vinho um tanto empoeiradas, marcam a entrada do palco.

Subindo as escadas muito bem conservadas, chega-se ao segundo andar do prédio e é possível visitar uma espécie de “minimuseu”, que abriga os troféus e fotos antigas do Serrano Atlético Clube, primeiro time de futebol da região. Da época em que o time era formado por ingleses e brasileiros que trabalhavam na ferrovia. Quem é apaixonado por esportes fica fascinado pelo acervo, assim como o bancário Alexandre Soares de 36 anos. um moreno de sorriso largo, que devia ter volta de 1,90m de altura, com porte de atleta e assumidamente fã de futebol. Morador de Osasco, viajou cerca de 90 quilômetros só para conhecer o “minimuseu”. Para ele, é muito importante ter espaços como esse em um país onde a maioria é fã de futebol.

Ao fim da tarde, a neblina já toma conta das ruas de Paranapiacaba. Só é possível enxergar a ponta do “Big Ben Paranapiacabano”. Um imponente relógio marrom feito pela Johnny Walker Benson, de Londres, parecido com o Big Ben original. A temperatura cai. A subida até o “museu castelinho”, fica mais complicada. O lugar é uma residência construída no final do século XIX, bem no alto da colina. Ali morava o engenheiro-chefe Frederic Mens, que era responsável por toda a ferrovia, circulação dos trens, oficinas e também dos funcionários. Por isso a residência foi construída lá no alto, pois o engenheiro tinha o controle de tudo através da vista da sua casa.

A construção é tão alta que é possível enxergá-la de qualquer ponto da vila inglesa. De grandes janelas brancas e varanda larga, parece que está se visitando a casa de um importante fazendeiro que atravessa gerações. Andando pelos cômodos vê-se um grande acervo histórico de documentos e fotos. O odor de naftalina toma conta. O piso de madeira maciça range cada vez mais alto com os passos dos visitantes. Por vezes, o barulho assusta quem está observando o quadro “que mexe os olhos sozinho”. O museu abriga ainda equipamentos ferroviários e móveis preservados do engenheiro Mens, a maioria dos equipamentos é de madeira importada da Inglaterra, símbolo de grande riqueza da época. Não é para menos que são considerados relíquias pelos moradores locais. São de grande durabilidade. Os móveis, em sua maioria, estão intactos, mesmo depois de vários anos.

Outro turismo que vem crescendo em Paranapiacaba, é o das trilhas que estão espalhadas por toda vila. Somente no Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba são encontradas seis trilhas, em meio aos seus 426 hectares de Mata Atlântica preservada. A vontade é de respirar fundo a todo momento só para sentir o ar puro que vem da serra. Ao fechar os olhos, uma paz interior toma conta, só se ouve o barulho da cachoeira e o canto dos pássaros.

A Trilha do Mirante é a mais procurada pelos turistas. Há uma certa dificuldade em caminhar. Por conta da chuva, a terra fica molhada e escorregadia. O contato com a natureza é muito próximo. Animais por toda parte, diversas espécies de árvores, plantas e flores de cores exuberantes. No fim do trajeto, cerca de 1180 metros depois, encontra-se um mirante com uma vista privilegiada. Pode-se avistar a baixada Santista, o polo industrial de Cubatão e o complexo rodoviário Anchieta-Imigrantes. Cláudio, um jovem de 21 anos, conhecido pelos seus dreads, é morador do local e trabalha como guia turístico. É apaixonado pela vila onde nasceu. Ama seu trabalho. Para ele é um privilégio mostrar para as pessoas os locais que tanto o encantam desde a sua infância. Ele conta que há muitas outras trilhas em Paranapiacaba que são muito procuradas pelos turistas, mas todas são consideradas como clandestinas pela prefeitura de Santo André, que faz constantes fiscalizações no local para proibir a frequentação nessas trilhas que são consideradas muito perigosas, principalmente por quem não conhece o local.