Chácara Lane: Uma casa que sobrevive nos centros de São Paulo

Usado como museu, o lugar já abrigou um dos fundadores do Mackenzie

Por Daniela Nunes, Gabriel Santos, Giovanna Guelere, Giulia Famá e Paola Saltoratto

“Só de pensar que o fundador da escola de engenharia Mackenzie já morou aqui algum dia, me faz amar mais esse lugar” confessa Beatriz Pinheiro, 22. A estudante de história da arte trabalha no local como mediadora e apresenta a casa a todos os visitantes que tem vontade de conhecer o ambiente.

Em meio a edifícios e ao trânsito intenso da rua da Consolação, encontra-se a antiga casa de uma chácara construída no final do século XIX. Conhecida como “Chácara Lane”, a mansão teve como primeiro morador George Chamberlain, um norte-americano presbiteriano que veio ao Brasil com a ideia de construir um colégio de engenharia com as principais características de suas raízes estrangeiras, “uma das histórias conta que ele foi um dos principais criadores da Universidade Mackenzie” explica Beatriz.

Após o falecimento de Chamberlain, em 1906, a casa foi tomada pelo Dr. John Leny, cujo sobrenome origina o nome da morada. Além de residência, a casa também servia como local em que Leny atendia seus pacientes.

Com a morte dele na década de 1940, a prefeitura comprou o terreno: “eles queriam vender, mas perceberam o potencial da casa e acabaram fazendo da mesma alguns compartimentos da prefeitura” garante Beatriz. De 1954 até 1990, ela foi usada como Arquivo Histórico do Museu da Cidade de São Paulo (MCSP). De 1995 até 2008, ali residiu a biblioteca circulante Mário de Andrade. Depois disso, fechou para restauro e abriu novamente em 2012 como gabinete do desenho, encerrando as atividades em 2014.

No ano seguinte, a casa voltou com a proposta de ser um espaço expositivo de artes visuais, fazendo parte do MCSP.

“Às vezes não temos exposições apresentadas no museu, e quando isso acontece, temos que trabalhar com a casa em si, o que é muito bom, porque o conteúdo tanto histórico quanto arquitetônico da casa é muito valioso” relata a jovem. Muitas partes da casa foram conservadas até então, como o piso, rodapés e batentes das portas, fato que impressiona os visitantes.

“Muitas vezes o movimento de pessoas não é tão forte. Eu fico lá na frente chamando o pessoal para conhecer, mas a maioria não tem tempo, ou não se interessa” conta a estudante. Caio Moretti, jornalista e educador do museu, revela que a média de visitas por mês varia de 150 a 200 pessoas. “Esse número pode dobrar em períodos de início ou final de exposição, mas mesmo assim é uma quantia pequena comparada a outros museus da cidade. O Solar da Marquesa de Santos, por exemplo, recebe em média 3 mil visitantes no mês”.

Beatriz diz que muita gente que trabalha ou mora na região não faz nem ideia do valor que aquele lugar tem. Em uma entrevista com Jorge Vendramini, 20 anos, morador do bairro Higienópolis e estudante do Mackenzie, ele admite que não faz ideia do que se passa dentro daquele lugar: “Eu passo por aqui todos os dias e nunca notei uma casa tão grande. Não imaginava que em meio ao caos do centro da cidade pudesse existir uma chácara tão conservada. Minha mãe, que é professora de arquitetura no Mackenzie, nunca havia me contado da existência desse lugar.”

Produtor e curador das exposições que a casa abriga, Douglas de Freitas, 30 anos, conta como a casa se modificou em 10 anos (os quais ele acompanhou bem de perto). “O fato dela ser uma chácara é o que mantém ela preservada até hoje. Estive presente durante toda a época de restauro, o que é muito interessante.” O historiador ressalta os processos de mudança nas escadas e instalação de ar condicionado, ponto que para ele é essencial nos museus: “Como a casa é de madeira, o ar condicionado junto de uma luz apropriada para a exposição ajuda a manter o estado dela e das obras.”

“Estando aqui como educadora, a gente acha que tem muito a ensinar aos visitantes, mas na verdade o conhecimento vem da troca. Principalmente quando se trata de uma mostra de arte contemporânea, onde você pode ter uma visão a e eu uma b.”, finaliza a estudante Beatriz.

A exposição atual é da artista Carmela Gross — “Arte à mão armada” — feita em homenagem aos seus 50 anos de carreira. Com foco na vida urbana da grande cidade, a exposição apresenta diversas obras, além de uma grande documentação nunca exposta sobre o processo criativo e burocrático da artista.

Entre as obras que chamam mais atenção do público, “Eu sou Dolores”, produzida em 2002, ocupa grande parte do andar superior da casa. No mesmo piso, encontra-se a obra que leva o nome da exposição “Arte a mão armada” (2009). À primeira vista, ela aparenta ser uma estrutura compacta de madeira, no entanto, ao se aproximar, o visitante percebe que tratam-se de lambe-lambes que podem ser levados para casa gratuitamente.

“Comedor de Luz” (1999–2000), ao mesmo tempo que remete à fiação dos postes de luz da periferia na cidade de São Paulo pela quantidade de fios, é antagônico, uma vez que as luzes se encontram no chão e não no alto, como de costume. “Us cara Fugiu Correndo” (2000–2001) faz alusão ao piche nos muros das grandes metrópoles através da tipografia.

Em suas obras, Carmela traz elementos de referência ao funcionamento e construção da cidade desde a década de 1960, onde o visitante é convidado a refletir sobre a vida nos centros urbanos.

A casa fica na Rua da Consolação, 1024, aberta de terça a domingo das 9h às 17h, possui uma mudança constante das exposições com entrada franca.

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