Chesterton no século XXI

Por Carlos Ramalhete

Em pleno Século XXI, um escritor do primeiro terço do Século XX vem ganhando popularidade. Com seus livros, felizmente, mais acessíveis, Gilbert Keith Chesterton e seu apostolado do senso comum vêm conquistando cada vez mais fãs. São muitos os níveis de leitura de Chesterton, e agora ainda mais que em seu tempo é possível perceber isto.

O primeiro, e mais evidente, é o de polemista, atacando e acusando coisas que para os menos versados em História podem hoje parecer perfeitamente irrelevantes. O segundo, que levou não pouca gente a desprezá-lo ainda quando vivia e escrevia, é o de poeta: o que ele escreve sempre é guiado pelo som das palavras, com a aliteração fácil e a prosa leve e poética. Este é infelizmente totalmente perdido em tradução. O terceiro, mais enriquecedor, é fruto deste segundo: é o de frasista, com bordões de fácil memorização que resumem perfeitamente situações muito complexas (“provar que a grama é verde”, por exemplo; em inglês, grass is green: uma aliteração). O quarto, finalmente, é o de filósofo, filósofo do bom-senso. É deste que trataremos, e de sua importância para os tempos atuais.

Subjacente a tudo o que Chesterton escreveu há uma visão de mundo extremamente coerente e nem um pouco datada. Podem parecer datadas algumas de suas polêmicas, mais por terem mudado os rótulos que os fenômenos essenciais que apontavam; é o caso, por exemplo, do que escreveu sobre as sufragetes em O que há de errado com o mundo, que hoje cabe como uma luva em suas bisnetas feministas. A concepção do universo que estrutura e forma todo o seu raciocínio, contudo, é sempre atual. Um amigo antropólogo, ao lê-lo pela primeira vez, me disse que havia demasiada “antropologia do Século XIX” nele; é um engano compreensível, como o seria o de alguém que visse em Chesterton apenas um inimigo do direito a voto das mulheres, hoje tão evidente que a ninguém ocorreria negá-lo.

O que interessa está abaixo da ciência do seu tempo e das polêmicas em que ele se enfiava com alegria e sofreguidão; o que persiste em seus textos, em pleno Século XXI, é uma percepção risonha do Universo Criado e do papel do homem nele que consegue fazer jus à sempre difícil missão de considerar ao mesmo tempo idéias tão díspares e aparentemente paradoxais quanto o chamado do homem à santidade, à Eternidade, à Glória, e sua concupiscência que o faz arrastar-se pelo chão em busca de coisas indignas. O próprio Chesterton disse que quando o homem age bem, põe-se acima dos anjos, e quando age mal põe-se abaixo dos animais. Esta visão está presente o tempo todo em cada um de seus escritos. É uma tensão recorrente, que resume, a meu ver, o ponto central do que ele tinha a dizer. E como tinha coisas a dizer! Dezenas de livros e centenas ou mesmo milhares de artigos, ditados e nunca revisados pelo autor, numa fartura espantosa de produção. Todos com as mesmas quatro camadas: a polêmica que salta aos olhos de início, a poesia e a sonoridade musical das aliterações, as frases e bordões de gênio que vêm da junção dessa poesia com seu intelecto formidável e, finalmente, a estrutura intelectual de percepção do mundo e do homem que pode ser apreciada aos pedacinhos, em cada um de seus escritos, demorando para que se consiga ter uma visão do todo.

Aristóteles e São Tomás de Aquino, ao contrário dos filósofos modernos e mesmo dos platônicos, nos apontam a verdade das coisas. Nas coisas está a sua própria verdade, e o que elas são é algo delas. Parece evidente, mas quando uma sociedade se vê às voltas, como as nossas, com ficções como as “transgenéricas”, que magicamente fariam de um homem uma mulher ou de uma mulher um homem, como se os sexos não fossem perfeitamente distintos e complementares, é hora de se beliscar para vermos se nosso braço é de verdade.

Descartes diria que não poderia ter certeza. Chesterton retrucaria, ligeiro, “então deixe-me beliscá-lo eu, para ver se o senhor não adquire a certeza rapidamente”.
Leia a biografia de Santo Tomás que Chesterton escreveu e conheça mais dessa sua visão de mundo

Crucial nos escritos chestertonianos é este senso de pão-pão queijo-queijo com que ele explora as diferenças entre os sexos, o valor da arte, as biografias dos santos, a doutrina católica, ou o que mais tenha vindo a cair debaixo do seu poderoso microscópio mental.

Ele segue o homem caído em sua busca de asas com que voltar ao Paraíso, e percebe com ternura o que há de angelical nele, sem jamais deixar de perceber-lhe os calcanhares sujos e mesmo o mau hálito de um estômago que passou tempo demais sem ver comida. Seu olhar sobre todo o mundo, toda a Criação, é igualmente carinhoso e implacável: ele lida com coisas que existem de verdade, imbuído da mais plena e completa certeza de que essas coisas existem e podem ser conhecidas, pelo menos em alguma medida. Para nosso tempo dificilmente poderia haver apóstolo melhor. Ele nos força a olhar as pessoas e vê-las ao mesmo tempo em seu potencial para o bem e em seu potencial para o mal, e mesmo as sociedades humanas — compostas que são de pessoas — em todos os seus riquíssimos potenciais. Suas acusações ao nazismo nascente, por exemplo, foram comprovadas prescientes e verdadeiras pela triste História do Século XX. O mesmo pode ser dito de suas acusações ao comunismo e ao capitalismo, que com o nazifascismo completam o triunvirato de ideologias que arrasaram o mundo no século passado.

Ele viveu em tempos ideológicos, quando parecia que as ideologias seriam eternas e a Ciência — ó alta e vazia expressão! — resolveria todos os problemas da humanidade. Tomou então em mãos a Doutrina Social da Igreja e encetou o árduo e fadado ao fracasso esforço de tentar fazer dela uma ideologia para facilitar sua propagação. A DSI é a anti-ideologia por excelência, mas lá foi nosso bom autor, na melhor das intenções, tentar cravar uma estaca quadrada em um buraco redondo. E daí surgiu o distributismo, em que surpreendentemente sobrou muitíssimo da doutrina original. Até hoje, para muitos efeitos, o distributismo pode ser considerado uma introdução de modo ideológico à DSI.

Para entender mais sobre as ideias distributistas leia “Um Esboço de Sanidade”

Vale notar que, enquanto o distributismo é ideológico, o próprio Chesterton nunca foi ideológico a respeito dele. Sua criação foi um esforço de pensamento único, perfeitamente compreensível naquele tempo, num bravo afã de propagar o que ele, em sua afiada compreensão do mundo, percebia como o reto caminho a tomar em um mundo que parecia enlouquecido.

É muito difícil, em nossos tempos pós-modernos, imaginar o que era então o ambiente intelectual, em que socialistas, capitalistas e fascistas se digladiavam verbalmente, cada qual perfeita e completamente convencido de ter em mãos o mapa da mina, as instruções completas para fazer a vida na Terra um paraíso. E ao mesmo tempo a ciência — ou melhor, a Ciência, com “c” maiúsculo para adequar-se a seu senso de importância — parecia ser capaz de tudo mudar, tudo fazer novo. A Ciência dizia que os negros eram inferiores aos brancos e as mulheres inferiores aos homens. As ideologias subordinavam à economia todos os aspectos da existência humana.

E, no meio desse circo de horrores, no meio de tantas loucuras sendo expostas como se fossem a verdade mais cristalina, levantava-se o colosso que foi Chesterton.

Apontando o que o bom-senso aponta, acreditando piamente que se vemos um par de braços e conseguimos nos beliscar com eles, é porque eles existem, e escrevendo como boxearia mais tarde Cassius Clay: “voejando como uma borboleta e mordendo como uma abelha”.

Hoje, em que se diz que as grandes narrativas ideológicas perderam sua capacidade de gerar adeptos, mas loucuras ainda mais delirantes não deixam de surgir dos laboratórios de comportamento, a mensagem de Chesterton continua plenamente válida e necessária. Quase cem anos depois, temos muito a aprender se nos voltarmos para este grande homem do século passado.

Leia Chesterton; vale a pena.

www.sociedadechestertonbrasil.org