O Pai e as Religiões de G.K. Chesterton

Edward Chesterton não era católico, mas sem ele não haveria a conversão de seu filho, Gilbert

por Pedro Erik Carneiro

À esquerda um retrato do jovem Chesterton aos 17. À direita, o clube de debates que cultivou com seus amigos (ele é o mais alto ao fundo)

Recentemente eu li sobre uma pesquisa feita pelo governo da Suíça, que mostra que o pai é o fator-chave para a fé dos filhos. A mãe não tem tanta ou quase nenhuma influência. A pesquisa foi divulgada pelo site Roman Catholic Man. Aqui vão alguns resultados da pesquisa:

1. Não importa quão devota é a mãe, se o pai não frequenta a Igreja, apenas 1 criança em 50 será um fiel que vai à Igreja regularmente;

2. Se o pai vai regularmente à Igreja, não importa se a mãe frequenta ou não a Igreja, a participação dos filhos que serão fiéis frequentadores pode chegar a 75%; e

3. Se o pai não vai à Igreja e a mãe é fiel regular, apenas 2% dos filhos serão fiéis regulares, 37% serão irregulares e 60% deixarão a Igreja.

Ao ler sobre a pesquisa, eu concluo que:

· A Igreja precisa muito de pais para manter a fé de seus filhos;

· Os homens deveriam saber da responsabilidade deles sobre a alma de seus filhos; e

· As mulheres que desejassem filhos católicos deveriam procurar homens bem católicos.

Claro que a presença do pai não é tudo, há muitos santos cujos pais lutaram contra a fé dos filhos, como, por exemplo, São Francisco de Assis. E há mães santas que foram as principais incentivadoras da fé dos filhos, como Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho. Mas a ausência dos pais na vida das crianças pode explicar muito a falta de fé no mundo de hoje.

Se for assim, se a presença do pai tem essa relevância sobre a fé do filho, será que foi o pai de Chesterton que incutiu no filho a fé católica?

Não, o pai de Chesterton, por um período, incutiu foi o ódio ao catolicismo no filho. Mas a história não é tão simples assim. Avida não é simples.

O pai, Edward Chesterton, teve forte presença na vida de Chesterton, especialmente porque era um pai muito dedicado e carinhoso com os filhos. Chesterton diz que a primeira memória de sua vida era de um homem com bigode com uma coroa dourada segurando uma chave enorme. Era a lembrança de um teatro de bonecos feito pelo próprio pai para brincar com os filhos. O homem de bigode era feito de papelão.

Chesterton ressaltou que seu pai sabia a literatura inglesa clássica de cor e que vivia recitando partes dela, o que fez o próprio Chesterton ainda muito criança recitar partes de Shakespeare que tinha decorado de ouvir seu pai, sem nem mesmo saber o significado das palavras.

Edward escreveu e ilustrou livros infantis, para consumo doméstico, e presenteou seus filhos com muitos livros infantis que preencheram a imaginação deles. Joseph Pearce, autor de uma biografia de GK Chesterton, lembra que o pai guardava os primeiros desenhos do filho e colocava as datas. O único assunto que Chesterton não tratava com o pai era sobre a morte da irmã mais velha de Chesterton, quando ela tinha oito anos, pois isso causou muito sofrimento ao pai e a toda família.

A presença do pai é marcante na Autobiografia de Chesterton, enquanto a mãe é praticamente ausente. Em sua Autobiografia, Chesterton descreve o pai como “sereno, cheio de humor e hobbies”, como o hobby de escrever e ilustrar livros, que ele era “muito universal em seus interesses e muito moderado em suas opiniões”, um dos poucos homens que “realmente ouvia uma argumentação”, que “gostava de coisas antigas, tinha especial interesse em catedrais francesas e arquitetura gótica”, que acreditava na propriedade privada “como todas as pessoas sãs”, e era um corretor de imóveis que liderava um negócio de gerações da família.

Edward Chesterton batizou seu filho em uma igreja anglicana, mas Joseph Pearce diz que ele fez isso apenas por conveniência social. Edward Chesterton era unitarista, seita cristã deísta, que não acredita na Trindade e diminui a importância de Jesus Cristo. Cristo seria apenas alguém inspirado por Deus e não o próprio Deus, como acreditam os cristãos. O unitarismo também rejeita a noção de pecado original. Edward levava seus filhos regularmente para cultos unitaristas.

Como pode ter surgido um escritor católico tão inspirador, como Chesterton, a partir da base religiosa de seu pai? Talvez mais do que uma religião específica, o pai de Chesterton o entregou felicidade, paz em casa, muito amor, o conhecimento do bem e do mal (tão presente em livros infantis) e imaginação. Edward Chesterton entregou um lar tradicional, que acreditava e vivia as tradições, e ensinou a seu filho o que é a beleza, a verdadeira beleza construída pelo homem na literatura, nas artes e na arquitetura.

Recentemente, eu li o excepcional livro de Anthony Esolen chamado Dez Maneiras de Destruir a Imaginação do seu Filho, publicado no Brasil pela Vide Editorial. Esolen escreveu sobre como a educação e a vida “modernas” são devastadoras para a imaginação infantil. Na época da infância de Chesterton, a educação “moderna”, com todas suas tentativas de ser institucional, “científica”, compartimentalizada e pró-mercado já avançava na Inglaterra. Tanto é verdade que Chesterton disse que aos seis anos era mais sábio e tinha mente mais aberta do que quando tinha dezesseis, depois de passar pela escola.

A infância de Chesterton o protegeu das amarras cortantes da educação escolar. Muito por conta de seu pai, Chesterton teve tudo que a infância de hoje não tem: felicidade e segurança em casa e literatura imaginativa ampla para que a criança seja criança, e veja o mundo de diversas formas.

O pai de Chesterton deu memória e imaginação aos seus filhos. Esolen condena o atual ensino disseminado em todo mundo que abomina a memória e a imaginação, em favor de um “pensamento crítico”. De forma sarcástica, Esolen diz que a memória e a imaginação são mesmo muito “perigosas” para o mundo compartimentalizado dos nossos dias e que “dispor de tamanha e tão rica poesia em memória”, como Chesterton recebeu de seu pai, “é estar armado contra vendedores e engenheiros sociais”. GK Chesterton sempre esteve armado contra vendedores e engenheiros sociais, sejam eles políticos, acadêmicos ou artistas.

Chesterton não teve um caminho retilíneo e rápido em direção ao catolicismo. Mas quem foi que disse que a vida de pessoas magníficas ou de santos é retilínea em direção à fé? Como acontece com a gente, a vida de santos também é por linhas tortas, por isso mesmo que eles são santos, pois são humanos com todos os defeitos e limites, mas se dedicaram para derrotar seus pecados e limites para a glória de Deus, inspirando a todos e merecendo devoção. Basta lembrar que São Pedro não esteve aos pés da Cruz e negou Cristo.

O caminho religioso de Chesterton foi um caminho acidentado, passando inclusive por momentos que o fizeram nas suas palavras “conhecer o Diabo”. E esse conhecimento do Diabo tem muito a ver com o Brasil. Veremos.

Chesterton, em sua Autobiografia, escrita apenas meses antes de falecer, quase não menciona o unitarismo de seu pai. E quando o faz é em tom de crítica. Ele chega a comparar os unitaristas com os muçulmanos. Disse que certa vez estava dando uma palestra para uma “Sociedade Ética” e viu o retrato de Joseph Priestley na parede, um dos fundadores do unitarismo na Inglaterra. Uma pessoa lhe disse que o prédio anteriormente foi uma capela unitarista. Chesterton disse que ficou intrigado com a permanência do retrato na parede, pois “os antigos unitaristas eram tão dogmáticos quanto os muçulmanos na defesa do Deus Único, e que o grupo ético daquela sociedade era tão não dogmático quanto qualquer agnóstico sobre esse dogma particular.”

O primeiro capítulo da biografia de Chesterton escrita por Joseph Pearce se chama “O Pai do Homem”, e descreve de maneira muito clara a influência de Edward no filho. Pearce relata que a família de Chesterton frequentava a capela unitarista Bedford, no qual pregava um pastor chamado Stopford Brooke, que tinha deixado a Igreja Anglicana porque não acreditava em milagres.

Edward, apesar de não ser anglicano, era totalmente aderente da visão inglesa (vitoriana) da história, ao ponto de exaltar Henrique VIII, o rei inglês que se declarou líder da religião em seu país, roubou e destruiu as posses e mosteiros da Igreja Católica e matou duas de suas esposas, das seis que casou. Além de Henrique VIII, Edward exaltava todos que tinham golpeado a Igreja Católica, como a Rainha Elizabeth I.

Esse ódio à Igreja Católica passou a GK Chesterton, que chegou a escrever poemas contra a Igreja Católica, afirmando com orgulho a derrota do Papa na Inglaterra.

Durante seu período da escola, Chesterton chegou a defender o socialismo e Pearce diz que sua “atitude em relação à religião era ambígua e ambivalente”. Apesar de ter escrito um poema dedicado a São Francisco Xavier (com o qual ganhou um prêmio escolar) e outro sobre Nossa Senhora, Chesterton não era um cristão convicto.

Escreveu também um poema dedicado a um “Deus ou Deusa desconhecido”. Chesterton parecia passear pelo ateísmo e paganismo, mas havia uma busca religiosa imensa dentro dele. Chesterton confessou no seu livro Ortodoxia que ele era “um pagão aos doze anos, e um completo agnóstico aos dezesseis”.

Aos dezenove anos, em 1894, Chesterton não estava convencido de que havia um Deus e disse que conheceu o diabo.

Chesterton encontrou o diabo no espiritismo, essa fé “meio cristã” tão comum no Brasil. Ele encontrou o demônio especialmente naquelas sessões que são tão corriqueiras no Brasil, que tentam encontrar respostas usando espíritos, por meio de copos virados em que todos de uma mesa colocam levemente o dedo sobre o copo e fazem perguntas. No caso de Chesterton, as sessões usavam a chamada “prancha de ouija” que tem o mesmo método, em que se usa um tabuleiro com letras e números, se chama os espíritos e perguntas são feitas.

Chesterton entrou no espiritismo junto de seu irmão Cecil Chesterton. No final, ele concluiu que:

“A única coisa que direi com completa confiança sobre aquele poder místico e invisível é que ele conta mentiras. As mentiras podem ser gracejos ou podem ser armadilhas para uma alma em perigo, ou podem ser mil outras coisas; mas sejam o que forem, não são verdades sobre o outro mundo — e nem sobre este, a propósito”.

Pearce argumenta que o que tirou Chesterton do pessimismo religioso e da defesa da decadência, como forma de arte, foram as lembranças felizes da infância. A realidade da infância preservada na memória contradizia a ilusão do pessimismo. A infância foi “a luz no final e no começo do túnel” da escuridão em que Chesterton havia se metido.

Quando saiu do túnel, Chesterton teve um caminho bem mais retilíneo em direção ao catolicismo, a partir da gratidão que passou a ter de Deus pela vida que encontrava em tudo e em todos.

Mesmo antes de se tornar católico, coisa que só ocorreu em 1922, (coincidentemente ou não, no mesmo ano de morte de pai), Chesterton já era um escritor “católico”, seus livros antes de sua conversão inspiraram muitos a conversão ao catolicismo. Depois de sua conversão, tivemos três de seus mais fantásticos livros, que emanam Cristo: O Homem Eterno, São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino.

A história de conversão de Chesterton, a partir da influência de seu pai, nos traz muitas lições, como sobre:

· A importância de um pai na memória, na imaginação e na alma dos filhos;

· A importância de uma infância feliz para a formação de um adulto;

· Os erros do ensino “moderno”;

· O livre arbítrio junto com a graça divina para destruir influências ruins, mesmo aquelas que vêm do pai amado; e

· O impacto destrutivo e mentiroso do espiritismo.

Para mim, é muito fascinante o amor de um pai por um filho que por vezes produz resultados que extrapolam esse amor, ensinando amor aos outros.

Por exemplo, certa vez eu fui a um seminário sobre o grande filósofo alemão Dietrich von Hildebrand, nos Estados Unidos. Nessa conferência, tive o enorme prazer de conhecer o Prof. John Crosby, talvez o maior especialista em Hildebrand do mundo, e seu filho John Henry Crosby, que era o organizador do seminário e dirige o Hildebrand Project. A união, o respeito e o amor entre o pai e filho iluminaram a todos no seminário.

Rezemos por aqueles que não tiveram e não têm pais tão dedicados e amáveis como foi o pai de Chesterton e como é o pai de John Henry. Eu mesmo não tive essa graça que G.K. Chesterton teve e que John Henry tem. Mas, como pai, tento me espelhar nos pais deles.

Edward não levou Chesterton diretamente ao catolicismo. Mas, eu diria que ele inspirou uma bem-aventurança em seu filho, aquela que diz que “bem-aventurados são os puros de coração, porque eles verão a Deus”. Chesterton sempre teve um coração puro, como o de uma criança. Edward deu a clareza do certo e errado a seu filho, clareza que é encontrada em livros infantis (pelo menos nos livros infantis de antigamente), e assim G.K. Chesterton conseguiu ver a Deus de forma muito profunda.

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