Os Camaradas Fantásticos

Trecho do primeiro capítulo de “O Poeta e os Lunáticos”

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A estrada corria paralela ao rio através do vale; para além do vau, podia-se entrever, encosta acima, a esquecida via onde o arruinado portão que delimitava Westermaine Abbey recortava-se, negro, contra nuvens de uma palidez algo lúgubre, como se temperadas pela tormenta. No lado oposto do vale, contudo, o céu estava claro; o comecinho da tarde em nada perdia para a manhã na luminosidade e no frescor. Aí, neste lado, onde a estrada branca fazia uma curva por sobre uma colina, duas figuras vinham avançando.

Mesmo quando não mais do que pontinhos negros ao longe, via-se-lhes a discrepância. À medida em que se foram aproximando crescia o contraste, aliás acentuado pela familiaridade que entre ambos havia. De tão colados que estavam pareciam ter dado os braços. Um era atarracado e bojudo; o outro, mirabolante de tão alto e esgalgo. Eram bonitos os dois, mas os louros cabelos daquele estavam partidos ao meio e impecavelmente brilhantinados, enquanto a cabeleira deste despontava em fantásticos tufos erráticos.

O sujeito miúdo carregava um nariz pontudo que lhe marcava ainda mais o rosto quadrado, além d’olhos brilhosos que tinham algo de galinácio e faziam o seu nariz parecer um bico. A bem dizer, nele havia algo de quem gosta de cantar de galo, e galo da cidade e não do campo. Quanto às roupas, trazia-as tão engomadas e asseadas quanto as do mais excelente funcionário de escritório. Na mão, uma daquelas pequenas malas de negócio como se estivesse a dirigir-se para a cidade.

Já o seu esgrouviado associado carregava nos ombros uma bolsa de pano, toda molenga e improvisada, que deixava balançando às vistas as parafernálias de um pintor. Tinha um rosto comprido, cadavérico quase, e o que tinha de vago o seu olhar tinha de resoluto o seu queixo, que lhe despontava do rosto como se esporado por uma resolução inconsciente que escapava aos vazios olhos azuis.

Um e outro eram jovens; um e outro caminhavam sem chapéu, provável é que pelo calor da caminhada, já que na outra mão aquele segurava um chapéu de palha e este trazia um esfarrapado feltro cinza enfiado de algum modo na bolsa. Quando chegaram à frente da pousada, estacaram. Logo entrou a dizer, radiante, o baixinho para o seu associado:

— Seja como for, aqui está um campo para os seus esforços. — A seguir, com jovial civilidade chamou o estalajadeiro e pediu-lhe duas canecas de cerveja ale.

Sumido o lúgubre personagem dentro de seu lúgubre local de entretenimento, virou-se para o doutor e, com a mesma radiante loquacidade:

— Meu amigo aqui é um pintor, — explicou ele — mas um tipo bastante especial de pintor. Poderíamos dizer que ele é um pintor de casas, mas não aquele tipo de pintor em que as pessoas geralmente pensam. Meu senhor, pode ser que você fique surpreso com isto, mas ele é um R.A.*, e nada de ser engessado nem engomadinho como os outros. Um dos primeiros entre os jovens gênios, exibe mundo afora os seus trabalhos em galerias excêntricas que só. Mas a glória que ele almeja mesmo é repintar placas de estalagens. Veja bem, não é todo dia que a gente encontra um gênio com uma idéia assim, hein? Qual é o nome deste pub?

Pôs-se então na ponta do pés, esticou o quanto pôde o pescoço e mirou, muito de fito e com uma curiosidade extraordinariamente vivaz, a placa enegrecida.

O Sol Nascente — comentou, empolgadamente girando o corpo para olhar o silencioso amigo. — Isso que é um presságio! Depois de o que você veio dizendo esta manhã sobre reviver as estalagens e tudo o mais. Meu amigo aqui é muito poético, e disse que faria da Inglaterra inteira um nascer do Sol.

— Bem, dizem que o Sol nunca se põe no Império Britânico, — observou o doutor com uma risada.

— Não me importo muito com o Império, — respondeu, subitamente, o pintor, quebrando o silêncio como quem pensa alto e espontaneamente. — Afinal, não me parece que alguém imagine uma pousada inglesa no topo do Monte Everest ou em algum canto do Canal de Suez. Mas uma vida que fosse gasta no reviver de moribundas estalagens da Inglaterra, tornando-as inglesas e cristãs de novo, teria sido muito bem gasta. Se eu pudesse fazê-lo, não faria outra coisa até morrer.
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— É claro que você pode fazer isso — logo emendou, radiante, o seu companheiro de viagem. — Uma pintura, saída das mãos de um artista desses, a pender do lado de fora de uma pousada, quê! Por quilômetros afora as pessoas saberão que ali há coisa boa.

— É mesmo verdade, então, — sondou o Dr. Garth, — que você emprega as suas melhores habilidades em coisas como placas de pousadas?

— E há, por acaso, assuntos melhores, mesmo enquanto assuntos apenas? — disparou-lhe o pintor. Obviamente, estava agora às voltas com seu tema favorito, e era uma daquelas pessoas que são ou abstratamente silenciosas ou ardentemente argumentativas.

— Acaso seria mais digno pintar o retrato de um algum prefeito — esnobe, confortável — sentado numa cadeira de ouro, ou de alguma mulher coroada pelos diamantes fraudulentos de um milionário qualquer do que pintar as frontes de grandiosos almirantes ingleses, que dão vida a brindes sem conta com boa cerveja? Seria mesmo melhor pintar algum estúpido nepotista a ostentar o seu George and Garter** do que pincelar o próprio São Jorge no ato mesmo de matar o Dragão? Eu já repintei seis placas velhas de São Jorge e o Dragão, e mesmo outras deste sem aquele. A pessoas minimamente imaginosas um Dragão Verde é coisa perfeitamente sugestiva; podemos fazer dele um Espírito a aterrorizar as florestas tropicais. Ora essa, de sugestivo até um Javali Azul tem muita coisa: algo de noturno e estrelado qual o Grande Urso; como aquele sombrio e monstruoso javali que simbolizava o Caos e a Treva Primal na mitologia céltica.

Ao que pegou a sua caneca de cerveja e, absorto, mortalmente concentrado, aplicou-lhe uma enorme golada.

— Veja, ele é poeta também, além de pintor, — explicou o homem menor, ainda a tratar o companheiro com ares absurdos de proprietário, como se fosse o guardador e showman de algum espécime raríssimo de animal selvagem; — Com certeza você já ouviu falar dos poemas de Gabriel Gale? Ilustrados pelo próprio? Posso arranjar-lhe uma cópia se você se interessar por essas coisas. Eu sou o agente e homem de negócios dele; meu nome é Hurrel . . . James Hurrel. As pessoas fazem piadas conosco, sabe? De tão inseparáveis que somos, apelidaram-nos de Os Gêmeos Angélicos. É que eu nunca o deixo sair de vista. Tenho de cuidar dele. Excentricidades de gênio… sabe como é.

Aqui, o pintor desafogou a cabeça da cerveja; olhos e bochechas inflamados pela controvérsia:

— Gênio? O gênio não deve ser excêntrico! — bradou, aceso. — O gênio tem de ser cêntrico. Tem de estar no centro mesmo do cosmo, e não em suas beiradas movediças. Hoje em dia, parece ser elogioso tachar alguém de estranho e coisa muito inteligente tagarelar sobre as excentricidades do gênio. O que pensariam se eu lhes dissesse que a Deus só peço uma coisa: as centricidades do gênio?

— Acho que lhe diriam que foi culpa da cerveja, — replicou o Dr. Garth, — A confusão com as sílabas e tal. Bem, pode ser mesmo uma idéia romântica reviver as velhas placas, como você diz. O romance não é lá muito a minha praia.

Sr. Hurrel, o agente, todo afobado correu a interrompê-lo:

— Mas não é só uma idéia romântica, — explicou ele, — é, também, idéia extremamente realista e prática. Eu sou um homem de negócios. Pode acreditar em mim quando lhe digo que a coisa é, na verdade, uma proposição de negócios. Não só para nós, mas também para as outras pessoas. . . para os estalajadeiros e os aldeões e os squires***, e para todo mundo, na verdade. Se todos trabalhassem em conjunto poderíamos, num ano, fazer este buraco aqui formigar de gente. Bastava o squire abrir a velha estrada e deixar as pessoas visitarem as ruínas; bastava ele construir uma ponte que viesse até a pousada e nesta pendurasse uma placa pintada por Gabriel Gale. Pronto! Não haveria um só turista em toda a Europa que perderia a chance de parar aqui e almoçar.

— Oh! — exclamou o doutor. — Parece que alguém já vem vindo para o almoço. Olha, a julgar pelo pessimismo de nosso amigo lá dentro, este lugar era uma ruína perdida em meio ao deserto. Mas eu estou começando a acreditar que, nos negócios, não perde em nada para a Saboia.

Até ali, haviam todos estado de costas para a estrada, olhos voltados para a fúnebre taverna de que falavam. Gabriel Gale, porém, pintor e poeta, curiosamente já havia notado, antes de médico ou qualquer outro, que alguém mais vinha chegando. Quem sabe não fora porque as alongadas sombras de um cavalo e duas figuras humanas repousavam, há alguns segundos, na ensolarada estrada ao seu lado. Volveu a cabeça por cima do ombro e ficou a olhar, muito de fito, o que vira.

Um cabriolé estacionara no outro lado da estrada. Às rédeas, as enluvadas mãos de uma jovem senhorita. Alta e de cabelos pretos, trajava um alfaiatado vestido azul-marinho que, se por certo elegante, já vira dias melhores. Ao seu lado, um homem, por volta de dez anos mais velho, aparentava, pela expressão adoentada e o olhar apreensivo, ter uns quantos a mais.

No momentâneo silêncio que caíra veio a límpida voz da garota, como se um eco da frase do doutor, dizendo:

— Tenho certeza de que aqui conseguiremos almoçar. — Ligeira, escorregou para o chão e deixou-se estar ao lado da cabeça do cavalo.

Já o cavalheiro desapeou todo acanhado, com trejeitos receosos. Vestia um tweed leve que algo de incongruente tinha com o seu ar inválido e, sorriso nervoso nos lábios, dirigiu-se a Hurrel:

— Espero que não me tome por um intrometido, senhor; mas não parecia falar como quem está a segredar.

E Hurrel — verdade seja dita — vinha mesmo a berrar como um feirante. Sorrindo sempre, amável que só, respondeu-lhe:

— Estava apenas verbalizando o que todos estavam pensando, sobre o que um squire poderia fazer com uma propriedade dessas. A mim não há nada de mal em alguém — e especialmente alguém que esteja interessado — ouvir-me.

— Ocorre que eu estou interessado, — disse-lhe o homem de tweeds, — já que, se resta algum squire hoje em dia, eu calho de ser ele.

— Peço-lhe as minhas sinceras desculpas, — o agente retrucou, sem largar o sorriso, — mas se você quiser interpretar Harun Al Rashid…”

— Oh, não estou nem um pouco ofendido — , respondeu o outro. — A falar a verdade, estou cá a pensar com meus botões se o senhor não está certo.

Entrementes, Gabriel Gale já havia extrapolado, de muito, o tempo ditado pelos bons modos quando o assunto é enfitar damas. Pintores, contudo, como se sabe são sujeitos meio avoados e, portanto, desculpáveis em tais casos. E se Hurrel poderia muito bem ter-lhe dado nos nervos ao dizer que a coisa era mais uma de suas excentricidades de gênio, a verdade é que seria no mínimo discutível tachar-lhe a admiração de excêntrica.

Lady Diana Westermaine daria uma excelentíssima placa de estalagem . . . um ramo digno da melhor vinha . . . ou poderia mesmo ter aumentado o valor de uma academy picture****, se bem que já corriam longe os dias em que a sua desventurosa família tinha condições de pagar por um. Seus cabelos lhe caíam dos ombros num curioso castanho escuro que se ia transfigurando ao sabor da iluminação: tanto mais negro sob a sombra, e tanto mais avermelhado quanto mais luz o banhava. Em suas sobrancelhas entrevia-se qualquer coisa de temperamental, nos sentidos bom e ruim da palavra; seus olhos eram ainda maiores e mais acizentados dos que o de seu irmão, porém com menos daquela preocupação e mais de uma fadiga espiritual. A Gale lhe parecia que a sua alma tinha mais fome do que o seu corpo. Logo pensou em como só fica faminto quem tem saúde.

Tudo isso lhe passou pela cabeça durante aqueles momentos fugazes em que se havia esquecido das boas-maneiras. Ao se lembrar delas, virou-se para considerar o outro grupo.

Quando ele desviou o olhar, ela lhe cravou o dela, com uma curiosidade no entanto mais comedida.

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Enquanto isso, o Sr. James Hurrel vinha fazendo sinais e maravilhas. Com a pertinácia de um vendedor de carros e a eloquência de um diplomata, o homem já havia enrodilhado o squire em toda uma enorme teia de sugestões e propostas e possibilidades. Ele realmente tinha, a bem dizer, algo daquele imaginoso homem de negócios de quem ouvimos falar às pencas mas ver, que é bom, nada. Imbróglios que para um sujeito como Westermaine só poderiam ser resolvidos com pilhas burocráticas de longas cartas de advogados esticando-se e proliferando-se ao longo de meses a fio pareciam, como num passe de mágica, desfazer-se perante os seus olhos. Uma nova ponte, artisticamente talhada na madeira, já parecia apontar por sobre o rio para a estrada aberta; novos e mais finos locatários pareciam estar a pontear o vale com caprichosas e impecáveis vilas; e uma nova e dourada placa do Sol Nascente, assinada por Gabriel Gale, já resplendia acima de suas cabeças, símbolo de que o Sol havia mesmo nascido.

Sem tempo ou chance de saber onde estavam, o clube foi impelido estalagem adentro por um alvoroço de afabilidades até que se sentaram, enfim, para um almoço que mais parecia um comitê, ao redor de uma mesa no melancólico jardim contíguo ao rio. Hurrel, cada vez mais radiante e alvoroçado, estava a rabiscar planos na madeira da mesa e fazer cálculos frenéticos em pedaços de papel enquanto sem suar conjurava números no ar e respondia a objeções de toda a sorte. Na manga, uma carta para fazê-los crer — o fato de ele mesmo evidentemente crer. O squire, que nunca havia encontrado alguém assim antes, não tinha armas com as quais rechaçá-lo, mesmo se quisesse.

Em meio a todo o turbilhão, a toda a zorra, Lady Diana foi buscar com os olhos Gale, que estava sentado ao canto oposto da mesa, só e sonhoso.

— O que você acha disso tudo, Sr. Gale? — disse ela, apenas para ser respondida não pelo Sr. Gale mas pelo Sr. Hurrel, que aliás respondia a tudo e por todos:

— Oh, nem adianta fazer-lhe perguntas sobre negócios, — gritou o espalhafatoso businessman. — Ele é apenas um dos ativos; traz a bordo todas as pessoas artísticas. É um grande pintor, sem dúvida, mas pintores têm de pintar só e mais nada. Deus o abençoe, a ele pouco se lhe dá que eu esteja dizendo isso. Ele nunca liga para o que eu digo. Na verdade, não liga para o que ninguém diz. Via de regra, leva mais ou menos uma meia hora para responder a uma pergunta qualquer.

Não obstante, o pintor respondeu à pergunta da senhora antes do tempo especificado. Mas tudo o que disse foi:

— Eu acho que nós deveríamos consultar o estalajadeiro.

— É pra já, — esgoelou o resiliente Hurrel, saltando da cadeira. — Farei isso agora, se você quiser. Só um minuto. — E desapareceu, de novo, no escuro interior da pousada.

— Nosso amigo ali é bastante ávido, — notou o squire, sorrindo; — mas, afinal de contas, são pessoas assim que põem a mão na massa e fazem as coisas acontecerem. Digo, coisas práticas.

De novo, a senhora estava a observar o pintor. As sobrancelhas levemente cerradas, parecia sentir quase pena do artista, engolfado em seu eclipse mental. Mas ele apenas sorriu e disse:

— Não, eu não sou bom com coisas práticas.

Gabriel e Diana ainda irão passar por alguns sustos na estalagem do Sol Nascente. Quer ler essa e outras aventuras do poeta e pintor?

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*Royal Academician: um membro, eleito por votos, da Royal Academy of Arts de Londres.

** Símbolo da Mais Nobre Ordem de Garter, ordem de cavalaria fundada em 1348 por Eduardo III. Atualmente, é o terceiro mais prestigioso título honorífico da Inglaterra, perdendo apenas para a Victoria Cross e a George Cross. Ordem dedicada à imagem e às armas de São Jorge. Daí Chesterton citá-la.

***Um nobre que vive no campo, e sobretudo o maior proprietário de terras num distrito

****Academy picture: pinturas, não raro encomendadas por famílias abastadas e por isso mesmo elogiosas, de membros da família.