Prefácio para “Hereges”

por Ives Gandra Martins Filhos

Um jurista chestertoniano

Se você está deprimido por alguma circunstância, chateado com alguém ou pessimista em relação à vida e suas perspectivas, pode lançar mão de diferentes expedientes para recuperar a alegria de viver ou então afogar as mágoas e esquecer os problemas: tomar um ansiolítico ou uns tragos com os amigos, descontar nos outros as próprias frustrações ou… ter um bom livro à mão, que mude o modo de ver o mundo, as pessoas e a existência.

Um desses autores que tem a capacidade de resgate do élan vital, uma vez que seus livros, sem serem de auto-ajuda — pois sequer esse conceito existia na época em que escreveu –, transbordam de otimismo, é o jornalista inglês Gilbert Keith Chesterton, que se notabilizou no início do século XX como polemista e verdadeiro cultor da arte dialética, que esgrimia com rara destreza, sendo conhecido pelo freqüente uso do paradoxo para desmontar falsos argumentos e apresentar verdades incômodas ou aparentemente incompreensíveis. Sua figura grande e redonda, seu sorriso cândido e sincero, sua distraída postura a esconder uma fulgurante vivacidade de raciocínio lembravam o inigualável Doutor Angélico medieval, ambos gigantes do realismo filosófico, que mostra a vida como ela é, em todas as suas grandezas e misérias, mas apontando para um saldo altamente positivo. Para isso, faz-se necessário mostrar o erro daqueles que a encaram com desprezo, desespero ou pessimismo.

Há um paralelismo entre as duas grandes obras de Santo Tomás de Aquino e duas das obras-primas de Chesterton. Na Summa Theologiae, o Doutor Angélico, partindo da Revelação e utilizando a Filosofia como ferramenta, vai aprofundando e explicando a fé cristã, naturalmente para um público de cristãos familiarizados com as Escrituras e a própria filosofia aristotélica. No entanto, em sua Summa contra Gentiles, Santo Tomás parte de uma perspectiva distinta, qual seja, a do leitor pagão, muçulmano ou judeu, que não comunga da mesma fé. Daí que vá argumentando a partir dos eventuais preconceitos existentes, para, desfazendo-os, poder mostrar que a fé cristã não repugna à razão nem corresponde a muitas falsas idéias que se têm dela. Em ‘suma’, começa por destruir preconceitos infundados para depois construir os conceitos corretos.

Da mesma forma, há uma ligação estreita entre Hereges e Ortodoxia de Chesterton. Ao escrever o primeiro livro, atacando com firmeza e destreza as doutrinas filosóficas em voga na Inglaterra de seu tempo, foi contestado por um tal Sr G.S. Street. Assim o refere a iniciar o Ortodoxia:

A única desculpa possível para este livro é o fato de ser ele a resposta a um desafio. Um atirador, por pior que seja, torna-se digno de respeito quando aceita um duelo. Quando, há algum tempo, publiquei, sob o título de Hereges, uma série de ensaios escritos apressadamente porém com sinceridade, alguns críticos, cuja inteligência admiro (refiro-me especialmente ao Sr G.S. Street), declararam que eu incitava todos a tornarem públicas suas teorias sobre os problemas cósmicos, mas evitava, cautelosamente, apoiar meus preceitos com o exemplo. “Começarei a me inquietar com minha filosofia” — disse, nessa ocasião, o Sr Street — “quando o Sr Chesterton nos tiver apresentado a sua”. Era, talvez, uma imprudente sugestão feita a quem está sempre preparado para escrever um livro à mais leve provocação. Apesar de tudo, embora o Sr Street tenha inspirado e criado este livro, não é necessário que ele o leia. No entanto, se o fizer, terá a oportunidade de verificar que me esforcei por apresentar nestas páginas, de forma vaga e pessoal — por intermédio de uma série de imagens mentais mais do que por uma seqüência de deduções –, aquela filosofia na qual acabei por acreditar. Não a chamarei de minha filosofia, porque não fui eu quem a fez. Deus e a Humanidade a fizeram; ela me fez a mim.

(…)

Nascido em Londres a 29 de maio de 1874, filho de Edward Chesterton e Marie Louise Keith, Gilbert teve uma infância marcada pela alegria constante do meio familiar: uma casa sempre cheia de primos e amigos, povoada de fadas, gnomos e duendes do teatro de marionetes com que seu pai, aposentado precocemente por uma doença cardíaca, divertia as crianças, a ponto de a mãe de Chesterton chegar a dizer que tinha, na verdade, três filhos. Essa alegria infantil é contrastada com o ambiente severo e formal do colégio, onde se destacou como polemista no ‘Junior Debating Club’ (1890), e acabou por dar lugar ao agnosticismo, talvez nascente na Escola de Arte na qual ingressou em 1892, mas certamente maturado durante os anos de trabalho de revisor em editoras londrinas, nos quais chegou a ler mais de 10.000 originais de romances e ensaios, angariando uma cultura enciclopédica, graças à sua prodigiosa memória, mas, concomitantemente, uma descrença no racionalismo vigente.

Em 1896, conhece, através de um amigo, a sua futura esposa, Frances Blogg, pela qual se apaixona já no primeiro encontro, esquecendo todos os demais que estão à sua volta. As disparidades entre os dois não poderiam ser maiores: ele com 22 e ela com 27 anos; ele com 1,96 e gordo, ela com 1,56 m e magra; ele idealista e distraído e ela prática e de fortes convicções religiosas. Apesar de os temperamentos serem tão distintos, a afinidade literária foi o elemento de união.

Chesterton ganhou sua notoriedade inicial durante a Guerra dos Bôeres na África do Sul, entre ingleses e holandeses, pelos seus corajosos artigos no semanário liberal The Speaker, condenando o conflito, o que sacudiu a opinião pública, imbuída de fervor patriótico em favor da guerra. Acabou por ser convidado como jornalista do Daily News, obtendo a fonte de renda fixa para poder se casar com Frances Blogg em 1901. Com o casamento, os debates passaram a ser tanto públicos quanto domésticos.

Em casa, as dificuldades iniciais do jovem casal se faziam notar: enquanto Frances era ordenada, comedida e pontual, Gilbert era o típico gênio distraído, pródigo, desleixado com a aparência pessoal e sem ter idéia do tempo. Em 1906 tiveram um duro golpe: mesmo depois de uma operação cirúrgica, verificou-se que Frances não poderia ter filhos. Para quem amava as crianças como Chesterton, foi uma verdadeira provação, que, no entanto, levaria com garbo e bom humor. A publicação de Hereges em 1905, seu primeiro grande livro (fora os ensaios que já havia trazido a lume), traz a Chesterton fama e convites para conferências nos mais distantes pontos da Inglaterra, com a aquisição de novos e importantes amigos, além de Hilaire Belloc, provenientes de distintos círculos literários, como Joseph Conrad, Henry James, Baden Powell, Winston Churchill e Thomas Hardy.

Esse prefácio faz parte de Hereges. Adquira o livro aqui

Agnóstico em sua juventude, Chesterton começa a se revoltar com o racionalismo de sua época, que, cheio de si, não lhe dá as respostas que busca para muitos dos problemas que assolam o mundo e a sua própria alma. Daí ter brandido a espada do senso comum para derrubar os ídolos intelectuais de sua época. Ao menos os caseiros, da velha Inglaterra. Esse é o livro que temos em mãos e o começo da trilogia, pelo trabalho de desmitificação da filosofia racionalista, idealista e niilista do final do século XIX e começo do XX. Em 1908, além de O Homem que Foi Quinta-Feira, Chesterton publica Ortodoxia, em que descreve seu próprio processo de conversão para o Cristianismo, partindo de uma perspectiva realista da filosofia. Alerta, já na introdução, que não será original — apesar de todo o livro ser uma apresentação originalíssima das verdades que procura expor — porque não foi ele que criou essa filosofia, mas a descobriu, justamente ao tentar ser original:

Por diversas vezes, imaginei escrever um romance sobre a aventura de um navegador inglês que, em virtude de ter cometido um ligeiro erro de cálculo em sua rota, veio a descobrir a Inglaterra, pensando tratar-se de uma nova ilha nos mares do Sul. […] Provavelmente, a impressão que se teria de um homem que desembarcasse (armado até os dentes e falando por sinais) para fincar a bandeira inglesa nesse barbaresco templo, que depois seria o Pavilhão de Brighton, é a de que ele se sentisse um tanto tolo. […]. É preciso, porém, mencionar que tive uma razão particular para me referir ao navegador que descobriu a Inglaterra. Eu sou aquele homem: fui eu quem descobriu a Inglaterra. […] Sou eu o homem que, com a maior ousadia, descobriu aquilo que já fora descoberto muito antes. Se há alguma farsa no que se vai seguir, tal farsa se deve a mim, pois este livro vai explicar como me convenci de que tinha sido o primeiro homem a pôr o pé em Brighton, para finalmente descobrir que fui o último a lá chegar. Aqui se narram as minhas elefantescas aventuras em busca do óbvio. […] Com todo o ardor juvenil, exauri a voz a proclamar as minhas verdades, mas fui castigado pela maneira mais singular e mais justa: guardei como minhas tais verdades, depois descobri, não que elas não eram verdades, mas, simplesmente, que não eram minhas. Quando pensava estar sozinho, vi-me na ridícula situação de ter todo o Cristianismo à minha volta. É possível — e Deus me perdoe — que eu tenha tentado ser original, mas a verdade é que consegui apenas engendrar, por mim mesmo, uma cópia inferior das já existentes tradições da religião civilizada. O navegador pensou ter sido o primeiro a encontrar a Inglaterra, e eu pensei ter sido o primeiro a encontrar a Europa. Tentei encontrar uma heresia para mim e, quando já lhe tinha dado os últimos retoques, descobri que se tratava da ortodoxia.

Nessa sua 2ª obra prima, Chesterton traça os parâmetros de suas mais arraigadas crenças e dá testemunho de seu próprio processo interior de conversão. Brotam, assim, algumas de suas idéias chave:

  1. o racionalismo exacerbado, separado do senso comum, conduz ao suicídio do pensamento;
  2. o reconhecimento do caráter democrático da tradição (dar o direito de voto aos nossos antepassados);
  3. a teoria da felicidade condicional (moral do país das fadas, onde tudo é permitido, em troca de uma pequena coisa que é negada);
  4. o acerto paradoxal da doutrina cristã (o ponto de equilíbrio entre virtudes contrárias).

Esse processo interior de conversão, que culminará com seu ingresso na Igreja Católica em 30 de julho de 1922, será lento e meditado, marcado por obras nas quais já vai explicitando romanescamente sua admiração pelo catolicismo: “A Esfera e a Cruz” (1909), novela de fantástica imaginação, e a série de romances policiais que tem o Pe John O’Connor, sacerdote irlandês, amigo de Chesterton, como inspirador, que são A Inocência do Padre Brown (1911), A Sabedoria do Padre Brown (1914), A Incredulidade do Padre Brown (1926), O Segredo do Padre Brown (1927) e O Escândalo do Padre Brown (1935).

Chesterton dará a notícia de sua conversão ao catolicismo ao amigo Belloc numa carta em que dirá:

‘A Igreja Católica é o lar natural do espírito humano. A estranha perspectiva da vida, que ao princípio parece um quebra-cabeça sem sentido, tomada sob esse ponto de vista, adquire ordem e sentido’.

Nesse mesmo ano escreverá São Francisco de Assis. Finalmente, Chesterton, como fruto maduro de seu processo de conversão, completa sua trilogia filosófico-teológica em 1925 (mesmo ano de A Volta de Dom Quixote) com O Homem Eterno, no qual fala do desenvolvimento da Humanidade à luz da figura d’O Homem, que é Jesus Cristo, o Deus Encarnado. É um verdadeiro tratado, ao estilo chestertoniano desordenado, de Antropologia Filosófica. O ser humano só se entende perfeitamente, conforme nos deixou registrado o Papa João Paulo II, no começo de seu pontificado, conhecendo a figura de Cristo, que mostra o homem ao próprio homem. Nessa esteira, escreve de um supetão, em 1933, uma biografia de Santo Tomás de Aquino que será tida por Étienne Gilson como definitiva. Falando de suas biografias de santos, Chesterton dirá que cada uma delas é para um século concreto: para o racionalista e cético século XIX, a humildade de São Francisco, e para o sentimentalista e desarvorado século XX, a luz intelectual de Santo Tomás.

Sua última obra será sua Autobiografia (1936) — talvez a biografia para o século XXI –, ditada a Dorothy, cujo último parágrafo recolhe sua exclamação de resumo de vida:

‘Para mim, meu final é meu princípio’

Suas últimas palavras, após receber a extrema unção, são dirigidas a sua mulher Frances (‘Olá, carinho!’) e a sua secretária Dorothy (‘Olá, querida!’) nos momentos em que acorda do coma no qual se encontrava. Termina a vida com a mesma alegria com que a começou.

Percorrendo rapidamente a vida de G.K. (como gostava de assinar) podemos dizer que a trilogia chestertoniana iniciada por Hereges constitui um verdadeiro itinerário filosófico-literário-espiritual que nos conduz ao encontro de nós mesmos com o melhor do nosso ser, que é aquele permeado do otimismo existencial de conhecermos a nossa origem e o nosso destino. O mesmo otimismo que Chesterton coloca, em sua biografia de Santo Tomás de Aquino, em contraste com a angústia do existencialismo moderno, de raízes mais profundas e antigas:

‘Enquanto o intelectual renascentista se perguntava ‘Ser ou não ser, eis a questão’, o pesado doutor medieval respondia com voz de trovão: ‘Ser, eis a resposta’’.

Hereges será, portanto, o retrato dos defeitos dessa filosofia de raízes renascentistas que, autodenominando-se Humanista, desumaniza o homem. Saber por que a filosofia moderna tem conduzido ao pessimismo é razão suficiente para enfrentar o livro e os que se lhe seguem, que conduzem a um otimismo essencial”.

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