Quem foi Chesterton?

Polemista? Apologista? Filósofo? Romancista?

Um bom jeito de começar a descobrir é conferindo nossa livraria

Ao ouvir “Chesterton” a imagem que nos surge na cachola é um gordo de bochechas abrilhantadas, capa preta a cobrir-lhe a circunferência, guarda-chuva à mão e papéis vários nos sovacos, a rolar pela Londres acinzentada aleatório como uma daquelas bolas de poeira em desertos de faroeste, feliz como um vira-lata. Temos a idéia de um elfo obeso dançante saído sabe-se lá de qual toca mágica de coelho; de um poema nonsense ambulante; de um vendaval ribombante da natureza a gargalhar e soprar onde quer.

E, veja só você: a imagem não está errada.

Mas está incompleta.

Alguém, então, correrá a emendar, cachimbo a pender dos lábios, o rosto imberbe de neo-conservador afogueado de afobação:

“Sim, meu caro. Era também um polemista nato. Basta olhar os seus debates acalorados com Bernard Shaw, Clarence Darrow e Bertrand Russell.”

Sim, era também polemista — por certo o maior polemista da Inglaterra de sua época. Talvez do mundo inteiro. Mas a imagem ainda não está completa.

“Era também romancista!” Arriscará um segundo, mais empolgado, “o Pe. Brown é muito melhor do que o Sherlock Holmes!”

É, verdade. Jorge Luis Borges era um fã incondicional. Mas ainda está faltando algo…

Outro, então, a fim de bater o último prego no caixão que determinará enfim a forma da personalidade do gordo: “Era, como se sabe, poeta. Já leu a sua Balada do Cavalo Branco? Fantástica.”

Poeta? Sim, bote poeta nisso. C. S. Lewis sabia-lhe poemas de cor. Segundo W. H. Auden, jamais saiu de sua pena um poema nonsense que não fosse digno de uma antologia.

“E teólo…”

Teólogo, sim. Foi teólogo. Mas vamos apressar as coisas, sim?

Chesterton foi teólogo, filósofo, escritor de histórias de detetive, escritor de guias de viagem, dramaturgo, biógrafo, palestrante de rádio, historiador, ensaísta, jornalista, poeta, crítico literário, crítico de arte, caricaturista, apologista, romancista, polemista, elfo obeso dançante saído sabe-se lá de qual toca mágica de coelho…

(toma fôlego)

… foi desenhista não profissional de papéis de parede com giz; foi fazedor de personagens de papelão para teatros infantis; foi o esposo mais romântico que já vi na vida, o homem mais gentil que muita gente já viu na vida. Foi presidente de sociedades literárias infindas; foi o anfitrião amável, o piadista incansável, o preguiçoso contumaz. Foi avoado que só ele, atrapalhado que só ele, risonho que só ele, tagarela que só ele. Falava sozinho. Ria sozinho. Gargalhava de si mesmo.

Foi um patriota anti-imperialista. Socialista demais para os capitalistas e capitalista demais para os socialistas, com ele pau que batia no grande governo batia também nos grandes negócios. Demasiado místico para os racionalistas, era lógico demais para todo o resto. Mal saía de uma crítica ao paganismo já entrava a descer a lenha no puritanismo. Defendia a liberdade e a boa e velha breja; as mulheres e os bebês; a santidade e as guerras.

O amor que tinha pela Verdade era tão desinteressado quanto o amor que tinha pelo próximo. Papas não as tinha nem a sua língua nem o seu espírito. Polemizava para converter, para reconciliar e não para afastar de vez, fazendo questão de bater os pregos do caixão do morto enquanto se gabava de estar certo. Se não tinha nada de bom a dizer, ficava quieto; como jamais ocorreu de não ter coisas boas para dizer, nunca ficava quieto.

Não sabia o endereço de seu trabalho de cor; sabia páginas inteiras de Shakespeare de cor. Não sabia colocar a gravata sem Frances; não raro dava palestras de mais de hora com apenas algumas anotações rabiscadas dentro do táxi. Se aéreo como os gênios, excêntrico, não. O gênio tem de ser cêntrico, dizia ele. Nada de ficar nas movediças beiradas do cosmo como faziam os filósofos modernos.

Era — por falar em filosofia — em tudo o que escrevia sempre filosófico no mais elevado grau da palavra. É fácil falar de ismos e tagarelar horas sem fim noite adentro sobre escolas e ideias de nomes adjetivados. Até eu faço isso. Chesterton, não: para falar de uma ideia, eram no máximo duas ou três frases de definição abstrata (que, no geral, iam logo na jugular da questão) para, depois, uma enxurrada de exemplos práticos. O jornalista fazia o trabalho duro dos filósofos: converter os conceitos gerais em experiência concreta e vice-versa.

Ufa! Mas quem foi G. K. Chesterton mesmo?
Se quiser saber sobre a vida do autor, leia a biografia escrita por Joseph Pearce

Foi não apenas um dos homens mais sábios que conheço; foi um dos homens mais sábios que já pisaram na terra. Não perde em nada para um Sócrates, um Salomão um Confúcio ou um Blaise Pascal. Não havendo destes em sua época, foi o maior homem de sua geração, um dos melhores que já existiram. Uma das mentes mais profundas na história do mundo, cérebro enorme além de toda a decência. Colossal em corpo e gênio, tudo o que dizia parecia ser uma revelação intelectual: dono de uma intuição do ser extraordinariamente compreensiva, possuía certa afinidade automática com todo tipo de razoabilidade. No espaço entre as orelhas acomodava, além do pince-nez e os olhos ágeis e brilhosos, mais bom senso que todos os escritores contemporâneos seus juntos.

Homem enormemente bom, parecia ter encontrado Deus, a que aliás andara procurando desde menino. Deste parece ter recebido alguma graça peculiar, que dele fez algo de um místico, com certeza algo de um santo. Como não bastasse, lê-lo é uma das alegrias da vida, e ninguém me poderia ter dado mais horas de alegria genuína que os livros desse gordo. Não há como ignorá-lo se queremos entrar em contato com as realidades mais significativas da cultura universal, nem há como rejeitar a montanha de coisas que escreveu — em muito ultrapassando o que a maioria de nós jamais conseguiria ler ao longo de duas existências — sem se perder um universo inteiro de coisas interessantes, divertidas e profundas.

Quê? Exagero? Pode até ser. Mas não é meu.

Quer discutir o suposto exagero? Vá discutir com C. S. Lewis, com Peter Kreeft, com o Dave Armstrong e o Olavo de Carvalho; vá bater boca com o André Gide, com Etienne Gilson, com James Schall. Vá dizer impropérios a George Bernard Shaw, a Gustavo Corção e a Jorge Luis Borges; vá torrar a paciência de Ernest Hemingway, de Maisie Ward e do Robert Wild.

Afinal, os dois últimos parágrafos aí acima só foram escritos por mim. Foram afirmados por eles.

Quem foi, leitor, afinal de contas, G. K. Chesterton?

As críticas amontoam-se a ponto de fazer sumir o criticado; as explicações antes confundem que esclarecem. Chesterton continua a escapar das definições, continua a vencer os reducionismos pela força bruta da enormidade que é sua inabarcável personalidade. Larger than life, dizem os gringos e eu não sei como traduzir.

Era largo mesmo. De tão largo e variado que foi o seu gênio saiu este texto aqui, todo confuso e atropelado.

É que Chesterton era coisas demais. E meu amor por ele é grande demais. O que era pra ser um ensaio saiu uma carta de amor. E carta de amor é tudo bagunçado mesmo.

Quem foi G. K. Chesterton?

À la Chicó respondo-lhe, enfim: não sei, só sei que foi assim.

www.sociedadechestertonbrasil.org