Balcão

Ensaio sobre o alcoolismo

Fim de tarde e o ser desfalecido decide encontrar o homem, seus propósitos, sua virtude. A vida desnutrida não é capaz de nutrir a alma daquele que já não quer se alimentar de ilusões.

Dessa forma, ele se dirige ao local que lhe possa servir em copos a máscara da vida, que seja capaz de esconder o rosto derretido da falsa alegria como parafina pelo amargor da vida que não lhe serve mais. Vida vazia, vil, de propósito suicida, assim, o ébrio se vê diante do balcão, indeciso por não acreditar naquilo que é óbvio, prestes a afanar os minutos finais de sua consciência diária.

Então, ele entende que o Balcão é uma jaula, que aprisiona a ternura e o sofrimento da a vida, por ele tanto adiado. Momento de espera, indecisão, purgatório moral que se vislumbra diante de uma vista incognitiva, de uma miragem da vida. Ele suspira, não pelo vício, mas pela falta de alternativa, toma ar e passa as mãos em sua cabeça em gesto de apavoramento, até pensa em clamar por ajuda de alguém que talvez consiga lhe enganar com propósitos mundanos, contudo, a vida já o surrou demais para que se converta em algo mais límpido, então, ele roga por uma dose de vida. Afinal, para ele, tais doses são as únicas que o afasta da morte.

Assim, de dose em dose, trago em trago, gole em gole, ele retarda o suicídio iminente, mas o toma em conta gotas para que o chorume humano corra pelas sarjetas da vida e seu masoquismo seja atendido, o ébrio, então, passa a se sentir homem, pois sabe que a morte é certa por esse meio, mesmo que tirada em parcelas, a virtude da consciência passa a ser maior que a moral negra do cotidiano.

Os tragos de morte são vida para quem deseja estar morto.

Solavancos estomacais o fazem se lembrar da realidade árdua da vida lunática do dia a dia, antes de pensar em se levantar é preciso se aceitar de volta. As pernas tremem de pensar em ter de se aturar, de se explicar, de justificar o injustificável.

As portas da jaula se abrem para que seja consumido pelo monstro social que degusta a vida. O ébrio se levanta, o homem continua sentado, se recusando a deixar aquilo que lhe concede virtude, o balcão.


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