Crônica: Um rolê de busão
Vidas que passam pela janela.

Já fazia algum tempo que não utilizava o transporte público da minha cidade — público não no sentido de ser DO povo, mas público no sentido de PARA o povo.
Me adentrei ao ônibus e tomei uma posição ao fundo que pudesse me fornecer um ponto de vista completo do ambiente, dali eu via os passageiros, parte do motorista e o cobrador, parecia o lugar ideal para um observador.
Estava curioso para reviver minha adolescência, as paqueras, os papos vagos, até mesmo a paisagem urbana de um roteiro repetido, queria saber como era o ônibus no dia a dia, ver as pessoas e suas relações e interações, e foi aí que me enganei: Vi passageiros, simples pessoas e pessoas simples. Caladas.
O tempo mudou e as pessoas também.
Pessoas estas que não são clientes, pois não exigem. Que não são usuárias, pois não se satisfazem. Que não são indicadores, pois não trazem mudanças.
Na real, para o ônibus, aquele das 19:59, tais pessoas são somente parte do percurso, assim como os sinais e placas. Afinal, sempre às vê, mas nunca emprega razão, não põe sentido, não permite que te afete, que faça que você se encontre em uma dessas pessoas.... Não me encontrei naqueles rostos cansados, calados, não me identifiquei com a ternura do fim do dia daquelas pessoas.
Ali, ninguém se identifica com alguém.
Cada um ali é um Zé qualquer. Não há imitação, não há humanização, empatia não sobe no busão.
Vi muito celular, poucas vozes, muita introspecção, concentração e solidão. Cochilos. Pensamento longe. Parecia que, para aquelas pessoas o momento do ônibus era o da reflexão, do suspiro do fim do dia, do cigarro que amarra a boca, psicoterapia talvez, que relaxa a mente com o balançar e ranger das molas, que tomam a concentração como em um culto de uma ceita qualquer. Yoga do povo! Meditação, momento de se encontrar em si mesmo, reviver o dia ruim que se foi e retomar a noite passada com a família, ou seja, descontinuar a angústia e eternizar o prazer, de ir para casa, só sua, seu lar, sair da psicoterapia e se encontrar novamente em seu Eu, sozinho.
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