Essa sua flexibilidade toda

Eu fico só imaginando o que essa sua flexibilidade toda pode fazer por mim.

Pronto. A frase-chave. Determinante. A partir daquela frase, Pina pode decifrar uma série de situações que pareciam tortas, pareciam fora do eixo, mas não havia nada palpável, ou melhor, nada causal: foi isso porque aquilo. Eram situações sutis. O estranhamento do silêncio quando ela passava por um grupo de rapazes na rua; o desconforto ao ouvir elogios de alguns membros da equipe, especialmente os locais, que vestido lindo, onde você vai assim, como você está crescendo; o bloqueio em executar os movimentos novos que a mãe preparou para aquela temporada.

Faz uns dois anos, desde que Pina começou a desenvolver curvas mais acentuadas, peitos, bunda, que a mãe vem ensaiando com ela algumas coreografias diferentes. Essa é a sua primeira performance solo fora do número dos palhaços. Até então, usava o contorcionismo para números de comédia, malabares e pequenos sketches entre uma atração e outra.

A mãe insistiu numa sequência sensual. Não há nada mais bonito do que uma mulher no auge do seu potencial, diz, sempre que Pina reclama por algo mais grotesco. Por que não pode ser um demônio ou um bicho peçonhento?

Eu fico só imaginando o que essa sua flexibilidade toda pode fazer por mim.

Pina é capaz de visualizar todo o cenário como se estivesse fora do próprio corpo, a lanchonete não muito lotada, o chão de azulejos embarrados, o balcão de alumínio tomado de riscos que embaçavam seu reflexo, a atendente atrás do balcão reclamando do cheiro de gordura promovido pela coifa.

E o cabelo da gente, como é que fica?, a atendente disse e deu uma piscadela na sua direção, tem de haver uma conexão entre elas, duas mulheres, as únicas duas do lugar, as únicas pessoas que precisam se preocupar com o perfume dos cabelos. Se fossem amigas, talvez Pina tivesse de atender a sessões de manicure, idas combinadas ao salão, como a mãe tentara fazer com ela diversas vezes, Vamos ao salão ficar lindas.

Pedira um café enquanto esperava os baurus encomendados pela equipe ficarem prontos. Trazia o cabelo solto, um abrigo largo, o casaco fechado protegendo do frio e da chuva. Trazia a certeza de que pouquíssimas pessoas seriam capazes de reconhecê-la sem a maquiagem e o picadeiro ao seu redor. Mas ele a reconheceu. Fingiu que não. Chegou dizendo eu te conheço? Eu acho que te conheço de algum lugar.

Pina tencionou os cantos da boca num código particular que dizia não estou a fim de conversa. Bebericou o café mais um pouco; ele se virou de costas para o balcão, apoiou nele os dois cotovelos e encostou de leve os dedos no cotovelo de Pina. Eram, os dois, só cotovelos, e estavam conectados pela pele. Ela apertou os braços o mínimo suficiente para desencostar da pele dele sem parecer de propósito, repelir sem ofender. Os sentimentos dos outros são importantes para Pina. Ele deslizou na direção dela, roçou os dedos com mais pressão e disse a frase no seu ouvido.

Sussurrou a frase.

Eu fico só imaginando o que essa sua flexibilidade toda pode fazer por mim.

Pina sem ação por alguns segundos. Os dedos dele subiam e desciam no pequeno quadrante de braço acima do cotovelo. Talvez ela devesse responder alguma coisa, a respiração dele esquentava o seu lóbulo. De repente, o lóbulo se expandiu e fez muito calor no corpo todo. Pina girou o banco para o lado vazio do balcão e saiu da lanchonete. Eu vou estar na primeira fila esta noite!, ele gritou da porta do bar para a rua.

***

E daí, Pina? Deixa que eles te olhem, tu é uma mulher bonita, tem que te acostumar com os olhares dos outros. Vai ficar com medo de homem, não vai nunca arrumar namorado. Tu quer ter um namorado, Pina? A voz da mãe pode ser ouvida por todo o acampamento e Pina sabe que esse assunto dá ideias para as pessoas ao redor. Então Pina quer um namorado. Então ela é grande, ela é safada, ela é flexível.

***

Bem no centro do picadeiro, bem iluminada por um canhão de luz, Pina sente a calcinha incomodar bem ali no meio. Não deveria estar usando calcinha, o látex marca tudo, mas não tem nada que possa fazer que não seja enfiar o polegar e o indicador por cima do tecido e puxá-la para fora. E isso não pode acontecer ali, na frente de todo mundo. Por isso, além do calor, agora precisa aguentar essa sensação sem tirar o sorriso do rosto.

A música começa. Birds flyin’ high, you know how I feel. Alguém da plateia grita um “U”. Pina desenrola de uma extensão completa, saindo de uma caixa sextavada de acrílico transparente. Breeze driftin’ on by, you know how I feel. Ao seu redor, globos de espelhos de todos os tamanhos. Faz uma reversão para fora da caixa.

And I’m feelin’ good. O sax começa. A calcinha segue incomodando. O que ela quer agora é pinçá-la do meio da bunda, mas precisa continuar. Estica os braços para cima, desenrolando bem os músculos, enquanto dá uma, duas piruetas no mesmo lugar. Então sai a passos largos, por uma estradinha estreita escondida entre os globos, dominando bem o espaço do palco. It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me. O holofote a segue. Na penumbra a caixa é removida e substituída por manjotas. Enquanto o holofote permanecer ligado, ela não conseguirá discernir as pessoas da plateia, nem mesmo na primeira fila. Finaliza uma sequência de movimentos com uma parada de mão em cima do aparelho. Seu controle é total, ela ouve vários “O” na multidão escondida fora da luz.

Nem sempre ela faz os movimentos mais difíceis, embora o contorcionismo como um todo seja difícil. No entanto, dentro do ritmo da melodia tudo parece impressionante. Mas ela não quer impressionar, ela prefere ser invisível.

Eu só fico imaginando o que essa sua flexibilidade toda pode fazer por mim.

A luz do canhão refletida nos pequenos pedaços de espelho espalhados pelo cenário provoca inúmeros pontos luminosos que se movimentam junto com ela. A coreografia está tão absorvida que, quando dá por si, se vê a dois metros do chão, na lira. Um pequeno titubeio a faz escorregar de leve, nada que o público seja capaz de notar. Mas a mãe nota. Ela sabe que sua mãe já notou que ela não está totalmente concentrada e já viu a marca da calcinha por baixo do látex prateado. Ela gostaria que a mãe percebesse os olhares que Pina recebe em cada cidade e mesmo nos bastidores. Que lesse os comentários que deixam nos seus vídeos com a entonação que Pina confere a eles. Que tivesse visto o rapaz da jaqueta jeans se aproximando e dizendo que eu conheço você, de onde eu conheço você. Ele sabia quem ela era. Ele prometeu estar na primeira fila enquanto ela corria para fora da lanchonete.

Ele só fica imaginando o que essa sua flexibilidade toda pode fazer por ele.

Uma respiração profunda a traz de volta para o que está fazendo. Isso dá um pequeno descompasso entre a coreografia e a música, mas ela conserta rapidamente. Dobra a coluna no ar, se enrosca na lira e dá um leve impulso para que ela comece a girar, primeiro lentamente, aumentando a velocidade um pouco mais e um pouco mais, até que cada pequeno movimento que ela faça pareça impossível. Ele deve achar que ela não sente dor nenhuma, que é tudo muito natural. Que ela não passa várias horas por dia treinando, trabalhando, que ela apenas se diverte abrindo as pernas para tudo o que é homem por aí.

A apresentação se encaminha para o fim. Pina apoia a lira na coluna e faz uma extensão até agarrar os pés com as mãos.

It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me.

Na música, Nina improvisa com a voz e a lira começa a descer. Então, a luz explode e os globos de espelho sobem lentamente em direção ao teto enquanto homens vestidos de preto correm para segurar Pina e levá-la para fora do palco, ela se deita nas mãos deles e observa a abóbada da lona recebendo os globos já sem vida.

Eles a depositam no chão em frente à mãe atrás das coxias, alguns dão parabéns, os aplausos duram até o início da próxima música e da próxima atração. Os olhos dela magnetizam por alguns segundos em silêncio com os da mãe.

Pina, o que acabou de acontecer com você?

Comigo?

O que aconteceu?

Não houve nada.

A mãe dá as costas para ela em direção ao camarim. A participação de Pina está encerrada, agora ela apenas precisa esperar pela parte dos agradecimentos e ajudar os outros a se prepararem. Atrás dos olhos da mãe, pinça a calcinha para fora e calça a sapatilha.


Texto originalmente publicado na revista Travessa em Três Tempos, ano VI, nº 17, em junho de 2017.


Um agradecimento especial a Michelle de Lara, querida contorcionista que doou seu tempo para uma consultoria. Seu trabalho pode ser visto no seu Instagram.


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