Meio segundo

Livrai-nos do espancamento — Graça Craidy; série Espancadas — Acrílica sobre tela (2016) — Visite o Flickr da artista!

Teresa levou cerca de meio segundo para entender o que significava o movimento incontrolável e rápido da cabeça e o formigamento instantâneo da maçã direita do rosto. Não sentiu dor, mas era como ter uma bochecha fantasma. Meio segundo foi tempo demais. O novo impacto veio antes mesmo da compreensão de que apanhava. O primeiro soco lançou sua cabeça e a parte superior de seu tronco para trás, deixando a barriga exposta. Lá dentro, incomodado, o pequeno ser se mexia, maculando a circunferência perfeita, reagindo.

O segundo soco foi bem no meio daquela barriga. Teresa compreendeu, então. O peso do bebê se deslocou na direção da coluna e ela pensou que iria se partir em duas. Um líquido quente começou a escorrer por entre as pernas, atraindo o tecido do vestido para a pele, enquanto ela caía no chão, sem fôlego, sem nenhum domínio dos seus movimentos.

Estava sendo mais fácil para ele dessa vez. Como da primeira. Teresa não imaginava que ele fosse capaz, apesar de tudo. Oito anos antes, também não o via como alguém disposto a machucá-la, e foi isso que a pegou desprevenida. Agora, mesmo depois de tantas tentativas de parar de fumar, de tanta frustração, de tantos problemas que não eram exatamente com Teresa, de tantos perdões arrancados, depois de tudo, ela ainda acreditava que ele não seria capaz de atacar a barriga. Por isso levou tempo demais para entender. Meio segundo custou-lhe a chance de reação, de fuga. 
O terceiro baque também foi na barriga. Teresa sentiu, então, uma dor que nunca havia sentido. Tentava proteger a protuberância com os braços, tentava gritar, mas não conseguia. O quarto chute partiu o antebraço de Teresa ao meio, no entanto, a cólica era tão mais forte que ela não se deu conta. A dor física misturava-se a uma outra, um amálgama de esperança e medo que tirava o fôlego mais do que os pontapés.

Ele estava satisfeito com o desenrolar dos eventos. Espaçava os chutes. Sabia que, daquela vez, ela estava tão submissa quanto da primeira. Há anos buscava aquela sensação de novo. Nunca soube disso conscientemente, percebeu apenas naquele momento, e sorriu. Sorriu com raiva, mas também com alegria. A vitória de arrancar daquele ventre, do ventre que era só seu, aquele ser estranho, a abominação. Achava que eu não ia descobrir? Gritava entre um golpe e outro. Que eu não ia te encontrar? Mais um chute. Que eu ia permitir essa aberração? Teresa se esforçava para respirar, queria gritar que é teu, o filho é teu! e tentar acalmá-lo, fingir o perdão. Se rebaixaria novamente, dissimularia, aguardaria uma nova brecha para fugir. Queria salvar-se, claro, mas temia pela menina.

Pode ser que Teresa não tivesse sido feita para a maternidade. Não lembrava-se de um dia sequer, nos últimos sete meses, em que achasse que tinha tomado a decisão certa. Quando abrira a porta do quartinho de pensão onde se escondera dele pela primeira vez e deu de cara com um homem humilhado e pronto a lhe dar uma lição, fingira amá-lo, permitira que ele se enfiasse entre as suas pernas, pensara em si própria. E, nos dias seguintes, enquanto organizava novamente as malas para ir mais longe assim que houvesse a chance, não sentiu que concebia, como tantas mulheres dizem sentir. Desistiu do aborto não por pensar na vida do bebê, mas por medo de perder a sua numa sala mal esterilizada de algum médico incompetente. A cada ultrassom, a cada procedimento, vitaminas, nutricionista, curso de pais — era sempre a que fazia par com a instrutora — a cada novidade sentia as pernas bambearem de arrependimento. Seus anos de casamento não haviam acabado, ecoavam por todo o seu futuro.

Quando soube que ela era uma menina, chorou enquanto caminhava de volta para o porão que alugara três cidades ao sul. O mesmo porão onde, agora, não conseguia ter a força de mãe, que tanto escutou nos relatos de outras mulheres, para defender sua filha. Mas temia pela menina. Sentia pena. E a frustração de não ter proporcionado mais felicidade no pouco tempo de vida daquela existência incompleta, que sequer chegaria perto do mundo, mas sofria a dureza que o constituía.

Teresa se retorceu mais uma vez, reagindo mecanicamente a outro chute e, então, um baque surdo na cabeça aplacou todas as dores. Ao abrir os olhos novamente, encontrava-se em outro lugar, em outra posição, com outro corpo. A ausência da barriga foi a informação imediata que seu cérebro processou, antes das dores, antes mesmo da própria existência. Em seguida concluiu que era noite. Gemeu um pouco enquanto apalpava o não-volume. Uma pequena protuberância inchada era a memória do que vivia ali. Um vulto entrou no seu campo de visão prejudicado pelo inchaço das pálpebras. Num tom de voz baixo a enfermeira pediu que se acalmasse e tentasse descansar.

Minha barriga? Sua voz saiu na metade da segunda palavra e precisou repetir através dos beiços inchados. Amanhã de manhã foi a resposta da enfermeira. Teresa soube, então, em menos de meio segundo, mesmo nas entrelinhas de informações incompletas, que Cora resistira. Sentia isso. Virou a cabeça de lado e deixou-se invadir por todas as dores e formigamentos. Amanhã pela manhã, pensava repetidamente, como mantra.

Texto originalmente publicado na página Dia Zero. Este conto descreve as origens de Cora, a personagem principal de Porta adentro, novela que ainda estou escrevendo. :-)
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